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Magali Simone de Oliveira

O sol e a toca de Alice

Acordei no último domingo sentindo-me coçar por dentro. O sol, o calor, o azul do céu... tudo é desculpa para que eu me expulse de casa. Domingo pede clube, pede passeios no parque, idas às praças. Sinto-me criança de novo. Quero correr, correr muito ao sol, tomar um picolé, encontrar e fazer novos amigos. Ao contrário de Lenine (a Lua me chama, eu quero ir para rua), é o sol que faz as minhas pernas coçarem, que me chama à vida, que me faz ter vontade de viver.

Mas Mariáh, do alto de sua adolescência, de seu estilo teen de ver o mundo, prefere ficar em casa.

- Fazer o quê no clube? Ficar no sol queimando? Você só sabe queimar, né? Aposto que, se for nadar, vai querer ir à piscina aquecida..., reclama.

É verdade. Sou um lagarto. Não sou verde, não sou tão lenta. Mas sou um lagarto. Adoro o sol. Quero queimar ao sol, ficar negra (apesar de ter pintado meu cabelo de louro).

- Mas a gente pode nadar na piscina aquecida, argumento. A outra piscina congela. Você não vai querer congelar.

- Mas eu odeio a piscina aquecida, arremata Mariáh.

-E se eu nadar na piscina grande que não é aquecida? Você vai ao clube?

-Não eu não vou. A piscina grande está muito fria mesmo. O dia está lindo. Eu queria fazer alguma coisa. Mas tudo é tão horrível.

- O que é horrível?, pergunto.

- Fazer caminhada. A gente anda, anda e não chega a lugar algum. Nadar no inverno é um horror. Ir ao cinema em um dia de sol não tem sentido. O melhor é ficar aqui em casa. Eu e meu computador.

- Mas ficar em casa não é pior do que ir ao cinema? No cinema você se diverte, assiste a uma história que não é a sua, experimenta outro mundo, argumento.

- Cinema é bom quando chove. Hoje tem sol, responde.

- Mas ficar dentro de casa, não é pior do que ir ao cinema? Pelo menos você saiu de casa, viu outras pessoas, passeou um pouco.

- Não. Eu quero ficar em casa. Vou esquentar a comida que está na geladeira. O dia está lindo, mas não quero sair não. Prefiro ficar aqui na minha.

- Mas aqui em casa é pior. Aqui em casa é um forno...

- Mas eu prefiro passar esse dia de sol aqui.

Sentindo-me horrível, uma verdadeira madrasta dos contos infantis, vou ao clube em companhia de Nelson Rodrigues. E ele, com sua loucura, me diz o óbvio ululante: até bem pouco tempo atrás, a juventude não era valorizada. Eram os jovens que reverenciavam a maturidade e sua experiência. Desde os anos 60, no entanto, a juventude se tornou um selo de qualidade da esperança. Nelson reclama que o futuro está nas mãos dos jovens, independente de quem sejam eles, do que pensam, do que acreditam. Que tudo o que é jovem é bom.

Nelson vê a juventude com um pouco de amargura. Em seus textos questiona essa valorização da juventude, essa associação da juventude à esperança, à beleza, à força, à sabedoria. Concordo com ele. Quando jovem, era mais fraca do que hoje. Talvez fosse mais bela – apesar das espinhas –, mas a insegurança fazia com que essa suposta beleza fosse invisível para mim. 

 

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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