Regina Helena Alves Silva
Filhos e filhos: adotivos e de criação. Da infância na escola ao trabalho infantil
Essa semana, vivi uma experiência que muitas mães já viveram e vivem. Mas a esta altura da vida foi algo muito fora do comum: fui à reunião final das turmas dos meus filhos na escola.
Primeiro, era a reunião da turma da Duda. Na salinha dela, sentada na mesma cadeirinha, vi a coordenadora do infantil e a professora falarem de como foi o ano escolar da minha filha. A professora escreveu uma carta pra todos da turma e fez um vídeo com todas as atividades do ano. Depois entregou o portfólio dos trabalhos da Duda do ano inteiro. Cada desenho com a anotação da data no papel.
Depois, na turma do Pedro, a mesma coisa. A carta, o vídeo e o portfólio. A professora, que é mais jovem que a da Duda, também estava emocionada. As duas estavam tristes porque seus pequenos iriam para outras turmas.
Fiquei profundamente tocada pelo carinho das professoras e da orientadora, pelo cuidado da escola, pela forma como nos mostraram a caminhada dos nossos filhos. Em cada uma das reuniões, fiquei me lembrando de como eram meus filhos quando chegaram do abrigo.
Lembrei-me de que Duda mal falava e agora já se senta, abre um livro e começa a contar uma história que tem princípio, meio e fim. Uma história à qual ela consegue dar um tom, tem emoção, choros, gritos e falas de personagens.
Não sou fácil de me emocionar, mas fiquei profundamente tocada quando vi as cortinas da sala do Pedro. Uma cortina feita com tiras de panos, com desenhos de cada criança da turma. Os desenhos do Pedro, com montanhas e trens de ferro... Um pequeno surto de mineiridade...
Olhar pra tudo isso, ver os desenhos do meu filho que antes eram algumas manchas e depois foram se definindo formas humanas até virarem pequenos bonequinhos, com olhos, boca, nariz e sobrancelhas. Ver minha filha “organizando” sua turminha de colegas e se sentando em uma roda para contar uma história.
Tudo isso me fez novamente pensar em porque desvalorizamos tanto os professores do ensino infantil, eles são os mais mal pagos, aqueles de quem ninguém se lembra. Tudo isso me faz lembrar o cuidado e atenção que essa escola tem para com os pequenos. Nunca turmas grandes, sempre ótimos professores e uma coordenadora que consegue lidar com os muitos desafios da educação de crianças tão pequenas.
A finalização das aulas de balé da Duda foi uma apresentação em um grande palco, com muitas outras crianças e ela, tão pequenininha, conseguiu desenvolver uma coreografia e dançar lá em cima, na frente de tantas pessoas.
O meu filho, que no último fim de semana subiu no palco do restaurante onde estávamos e não se fez de rogado, pegou a guitarra que o músico lhe ofereceu e ficou tentando tocá-la.
Os dois chegaram para nós tão temerosos, tão querendo entender a vida, com tantos receios e hoje, depois de um ano e meio conosco e com a escola, já olham pra vida de formas tão diferentes e a enfrentam com suas habilidades de maneiras absolutamente posicionadas.
Meus filhos chegaram abaixo da curva do crescimento e com poucas habilidades desenvolvidas. Pedro neste ano começou na escola com 98 cm e terminou agora com 1,04 m. Tudo isso tem a ver com a forma como estamos juntos, nós, eles e a escola.
Ao mesmo tempo em que vivia essas experiências com meus filhos, eu também lia um trabalho de qualificação de doutorado sobre o trabalho infantil. Muito tumulto para uma cabeça em fim de semestre letivo, já bastante cansada. O tempo todo em que lia o trabalho, eu pensava nos meus filhos.
Não por causa do trabalho infantil, mas porque o texto é sobre o trabalho infantil doméstico e fala das crianças pobres que vão para “casas de família” ajudar a “criar” outras crianças ou “dar uma mãozinha” nos trabalhos da casa.
Há vários depoimentos de crianças, contando como é a vida nessas casas onde trabalharam ou trabalham. Crianças que começaram a trabalhar com quatro anos, a idade do meu Pedro.
Mas o que mais me tocou foram as falas de algumas meninas que diziam que eram tratada como se fossem da família, que podiam comer a mesma coisa que as outras crianças, que faziam algumas tarefas que as filhas da casa não faziam porque assim demonstravam o quão gratas eram. Algumas meninas dizem que as famílias as adotaram. Mas não existe nenhum caso em que isso efetivamente aconteceu. Na verdade, elas são apenas as tais das “filhas de criação”, aquelas que “às vezes até comem a mesma coisa que a família”, mas nunca serão herdeiras como os filhos.
Os vídeos que a escola fez dos meus filhos mostram as formas de se cuidar, de cuidar de suas coisas, brinquedos e roupas. Nos depoimentos das meninas-crias, elas dizem de como as famílias “davam coisas” ao invés de pagamento: um sapato que não cabia mais nos filhos, roupas usadas que não serviam mais. Um dos depoimentos diz: “... Trabalhar, trabalhar, trabalhar. E ela te dá uma roupa, se ela quiser! Tu trabalha dois, três meses pra ela te dar um par de sapatos usados...”.
Nas atividades que a escola desenvolve com meus pequenos está a atenção com as refeições, a variedade de legumes e verduras, as formas de experimentar sabores e de poder testar uma grande variedade de alimentos diferentes. Isso faz parte de como a escola entende os aprendizados das crianças na educação infantil, de como lidar com os momentos de refeição coletiva. Nos depoimentos, várias meninas dizem como são tratadas, o que podem comer, a que horas podem comer (geralmente na cozinha, depois que a família já comeu) e as vezes se podem comer e o quanto podem comer. Geralmente, seus pratos são feitos pelas donas da casa e elas não podem repetir ou escolher.
Em um dos depoimentos, uma das meninas contava que a patroa sempre dizia: “Nunca diga que você é minha empregada, diga que você é minha filha”. Essa menina insiste, na entrevista, que era tratada igual aos filhos da casa, que comia a mesma coisa, que não trabalhava, que só era mesmo companhia das outras crianças. Mas em um dado momento ela diz: “Agora do colégio, aí cada um ia pra seu colégio. Claro que eu estudava no do governo e eles no particular”.
Foi muito estranho acompanhar, de um lado, a escola dos meus filhos mostrando como trabalham com eles os acordos, os combinados, as questões de responsabilidades, de aprender como cada um tem um em cada lugar tem uma função e uma tarefa a executar. De outro, as crianças exploradas em casas de família têm que dar conta de tarefas da casa, tem que trabalhar, tem que “cuidar” de outras crianças. Entram na vida assim, rapidamente, já entendendo que a desigualdade existe desde sempre, desde pequenos.
Como enfrentar uma sociedade que, por um lado, nos proporciona experiências como as que tive com o fim de ano na escola de meus filhos e, de outro, nos mostra a dureza da vida de milhares de crianças que trabalham desde os 4 anos de idade apesar de existirem leis que proíbem isso?
Como entender pessoas que acham que estão fazendo bem a uma criança quando a “tira da pobreza” da vida em família e a leva para casa para que trabalhe? Muita gente vai ler isso e vai me dizer: “Mas assim essas crianças que não tinham futuro podem ter uma chance de ter um”.
Que tipo de futuro pode ter uma pessoa que passa a infância carregando água na bandeja para quem a trata como semiescrava?
Olhar tudo o que a escola dos meus filhos me entregou para dizer de como eles “cresceram” neste ano me diz também de tudo o que é negado a essas crianças que são “acolhidas como filhos” por muitas das famílias deste país.
Fico pensando se vou conseguir ver o dia em que isso não vai mais existir e que todas as crianças poderão ter uma escola como a dos meus filhos e que todos os pais poderão se emocionar com uma cortina pintada por um garoto de 4 anos como meu Pedro ou com um passo de balé de uma menininha de quase 3, como a Duda.
Ao final, estou aqui falando de crianças. Crianças que saíram da mesma condição. Saíram da pobreza e da miséria de famílias que não tiveram condições, por milhares de motivos diversos, de ficar com elas.
Meus filhos, que estavam ali naqueles vídeos feitos por suas professoras, têm hoje a condição de serem meus filhos. Terão nossos nomes e herdarão tudo o que construímos na vida. Mas serão sempre, aos olhos de muitos, vistos como "os de fora", os "escolhidos" por um ato de caridade, muitos não os consideram nossos filhos porque não têm "nosso sangue". Conheço muitos casos de filhos adotivos que, quando da morte dos pais, vários familiares questionaram seus direitos na Justiça, pelo fato de não terem o mesmo "sangue". Este, é claro, não é o caso de nossas famílias, mas é de muitas.
As crianças do texto que eu estava lendo e milhares de outras no Brasil não são adotivas, são os chamados "filhos de criação”. Esses, em sua imensa maioria, não têm direito a nada porque, ao final, depois de tudo o que trabalharam, fica bem claro que não pertencem à família.
Que futuro nossas crianças terão? Não posso determinar o futuro dos meus filhos, mas eles terão um futuro. Terão um futuro para além do que foi posto a eles quando nasceram. Já os filhos de criação terão exatamente o mesmo futuro já sabido no exato instante de seu nascimento.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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