Regina Helena Alves Silva
Meninos-de-abrigo, ou como meus filhos descobriram o coletivo antes de aprender o "é meu"
Ando pensando na experiência que tive quando vi um abrigo de crianças pela primeira vez. Não foi uma boa experiência.
Uma amiga/conhecida, não sei mais como se diz isso hoje, estava outro dia muito abalada porque seus filhos não encontram um lugar mais tranquilo pra viverem neste nosso mundo. Ela adotou dois meninos negros, um com seis anos e outro com doze. Ela dizia que o de doze não foi convidado pra nenhuma festa dos meninos da turma dele. O de seis, em outra escola, alguns pais começaram a desconfiar que era gay porque ele abraçava muito as outras crianças.
Meu filho de três anos e meio também gosta de abraçar desconhecidos.
O mundo parece não estar preparado pros meninos-de-abrigo. É assim que chamo nossos meninos que viveram um tempo nessas instituições: meninos-de-abrigo.
Eles ficaram nesses lugares junto com outras crianças. Eles cresceram nesses lugares. Tinham quartos compartilhados por idade e foram colocados em abrigos por idade. Os filhos da minha amiga/conhecida estavam em abrigos diferentes por causa da diferença de idade entre eles. Os meus estavam em um mesmo abrigo, mas a minha pequena estava no quarto dos bebês e meu Pedro estava no quarto dos meninos. Ele era o mais novo. Os outros tinham cinco, seis anos.
Pra vocês entenderem o que estou dizendo, um dia cheguei no abrigo onde estavam meus pequenos ainda no processo de visitação (já tinha uns dois meses que íamos lá) e vi uma moça na sala com dois dos meninos que eu via todos os dias no abrigo. Perguntei se era uma voluntária e me responderam: é a mãe deles. Foi só nesse dia que eu fiquei sabendo que aquela menininha e o amigo de seis anos do meu filho eram irmãos.
Eles não existiam como irmãos no abrigo, eram filhos de uma mãe HIV e a pequena era portadora.
O abrigo não é ruim. Alias, é um dos melhores de Belo Horizonte. A questão é que é uma instituição e como tal tem suas regras e normas. Tem como obrigação cuidar de 15 crianças diferentes, vindas de lugares diferentes, com problemas diferentes e apenas uma coisa as iguala: não estão em suas casas, não têm mais seus pais e vivem em um espaço comum que não escolheram.
Isso faz com que nossos filhos cheguem em nossas casas já sabendo dobrar as roupas e colocar no armário. Eles procuram a prateleira deles pra colocar a roupa e se preocupam com a roupa porque o outro vai usá-la daqui a pouco. Eles não têm roupas próprias, têm roupas de passagem.
Crianças de abrigo não têm brinquedo, tem brinquedoteca. Eles chegam em suas casas onde a gente e os parentes e amigos compram um monte de presentes e olham para aquilo com o olhar do abrigo. Eles demoram pra entender que os brinquedos são deles, que não são brinquedos de passagem e, pela primeira vez, têm contato com brinquedos novos.
Hoje meus filhos já sabem distinguir uma roupa que vem dessa imensa corrente que se forma quando alguém tem filhos – todos passam roupas e brinquedos uns pros outros – da roupa comprada só pra eles.
Meu filho fica louco quando vê uma roupa nova, abraça, beija e diz: é meu!
A criança de abrigo é o contrário das crianças outras: elas aprendem primeiro o que é coletivo, comum e só depois descobrem o “é meu”. E quanto mais tempo ficam nos abrigos mais tempo levam pra descobrir a possibilidade de ter algo só seu.
Esses meninos-de-abrigo aprendem desde cedo que as pessoas que vão visitar os abrigos podem ser seus futuros pais. Assim, eles desenvolvem um processo de “abraçamento” indistinto esperando que alguém os leve pra casa. Eles sabem que estão ali de passagem, convivem com muitos meninos que vêm e vão o tempo todo. Desenvolvem uma ansiedade por ter um afeto diferente do que já recebem no abrigo, uma pequena manifestação de afeto que os tornem diferentes dos outros. Uma manifestação de alguém que só tenha olhos pra eles.
Esses são os meninos de abrigo e por isso minha amiga/conhecida tem chorado. Os meninos dela enfrentam uma série de desafios para os quais não estão preparados e eles já têm idade pra fazer isso. Como foram docilizados por uma longa institucionalização acabam por serem os “bobões” da escola.
Nós sabemos muito bem como as crianças podem ser cruéis!!!
Meu filho é chamado de “chatinho” pelos colegas porque ele se acostumou no abrigo a ficar com crianças mais velhas e na escola procura os meninos maiores, que não têm paciência com um pirralho de três anos azucrinando a brincadeira.
O filho da minha amiga fica com os olhos parados no horizonte, ao lado do jogo de futebol ou de alguma brincadeira no intervalo, sentado, esperando que alguém venha buscá-lo e integrá-lo à turma.
Os meninos-de-abrigo um dia chegam… É assim que aqui em casa dizemos quando finalmente percebemos que nossos filhos entenderam que aqui é o lugar deles. Eles chegam, entendem que fazem parte da família e começam lentamente a entender o que é família. Eles estão aprendendo o que é ter mãe.
Ontem meu filho me disse que a mãe dele que ficou na outra casa “era marrom” e ela trabalhava muito, tanto que ele nunca a via, só se lembra que ela era marrom.
É assim que eles começam a chegar e a entender que tem uma casa e pessoas que não vão abandoná-los.
Minha amiga (já virou minha amiga e deixou de ser só conhecida) contou do filho menor que um dia levou uma baita bronca por algo que fez. Ela conta que ele ficou calado e depois sumiu. Quando ela foi procurá-lo, ele estava no quarto arrumando a mochila, olhou pra ela e disse: “Você vai me devolver, né?”
Eles são assim, os meninos-de-abrigo, eles sabem que podem ser devolvidos, eles sabem que já os deixaram outras vezes e eles criam formas de testar a todos pra ver se ficaremos mesmo com eles.
Toda vez que olho meus filhos, me lembro da primeira vez que os vi no abrigo. Os dois pequenininhos com olhos assustados tentando entender aquelas duas mulheres olhando pra eles.
A primeira vez que vieram até nossa casa e dormiram um final de semana… Tudo isso vou deixar pra outra coluna.
Mas esta de hoje, sobre os meninos-de-abrigo, não vou deixar acabar assim, com os testes e os olhos assustados.
Meu filho está aprendendo a reagir. Começou batendo nos meninos da escola, coisa que já explicamos não ser a melhor solução pro caso. Agora, depois que ele chegou, está aprendendo a ter um amigo da idade dele, o primeiro.
A minha filha, quando veio pra casa pela primeira vez, nos avisaram que ela fazia uma coisa que chamam de manha de abrigo. Ela olhava pra gente e dizia o que queria, se a gente não entendia ou não dava o que pedia, ela deitava no chão de bruços batia as mãos e os pezinhos e gritava até deixar a gente louca.
Agora, depois que ela chegou… ela faz a mesma manha, essa que toda criança faz, não só as de abrigo, mas agora ela chora de verdade, saem lágrimas (antes não) e berra a mais de mil decibéis: mamãe, mamãe.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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