Magali Simone de Oliveira
Bonita com espinhas
Em todos os jardins, podem olhar, espinhos cortam as pétalas das rosas. E, mesmo assim, elas nos dão seu perfume. Penso nisso quando vejo Mariah reclamar de novas espinhas pela milésima vez aquela manhã. Ela está revoltada porque um pequeno carocinho fere a sua pele rosada. Seus olhos lacrimejam.
_Não. Isso não é justo. Não podia acontecer hoje que vou ao cinema com as meninas!, disse magoada.
Penso que o mundo das rosas talvez seja mais justo do que o dos seres humanos. As rosas estão ali para perfumar, para embelezar. E fazem isso com primazia, só ficando paradinhas o dia inteiro. Já nascem para ser bonitas, objetos de desejo. E, nós mulheres, jovens, de meia idade, ou idosas, não somos assim. Para nos sentir bonitas não podemos ficar paradas. Temos que correr, malhar, ter uma alimentação saudável, seguir a moda, ou inventar um estilo próprio.
-Também não quero mais ser bonita sem espinhas!, disse ainda revoltada. Vou ser eu mesma! Com todas as espinhas! Não vou passar mais esse gel chato! Quem quiser gostar de mim, que goste de mim do meu jeito, revoltou-se a adolescente.
Fiquei feliz por alguns minutos. Que bom que ela entendeu que terá que aprender a se sentir bonita sendo ela mesma. Acho que todas nós somos bonitas e feias. Depende do olhar que lançamos ao mundo, depende do olhar de quem nos observa. O mundo tem a cor que a gente pinta, acho que todos nós já ouvimos essa frase autoajuda pelo menos uma vez. Então que tal pintarmos o mundo com as cores que gostamos?
Que revolução seria se cada uma de nós decidisse ser bonita com espinhas, ser bonita com pneuzinho, ser bonita do jeito que se é! Porque no fundo a gente não consegue fugir do que si próprio. Pode-se fazer dieta, malhar, usar produtos para a pele. Ok. Você provavelmente ficará mais magra, terá a pele fica mais bonita. Mas não acordará igual à Giovanna Antonelli. Ainda será você. E se você não se amar gordinha, ou com espinhas, provavelmente não se amará mais magra, ou com a pele de seda.
Talvez acabe como uma história que ouvi outro dia de uma adolescente que passou anos em casa, sozinha e triste porque tinha uma verruga enorme na cabeça. Mesmo escondida pelos cabelos, invisível aos olhos dos mortais, essa adolescente não saía de casa por causa da verruga. Sentia que todos a condenavam por causa da verruga. E, os anos passaram. E ela em casa. Quando finalmente a verruga caiu e ela resolveu sair de casa, percebeu que sua juventude tinha desaparecido junto com a verruga. E ela sentiu falta do caroço preto embaixo dos cabelos. A quem iria culpar por não se amar?
Ainda revoltada, Mariáh, acabou de se vestir. Passou um gloss, um lápis nos olhos e esperou a mãe da coleguinha com quem iria ao shopping. O sorriso ao ouvir a campainha iluminou-lhe o rosto como o sol em um dia nublado.
-Mãe. Já vou. Te ligo quando a gente estiver voltando, gritou alto, no volume que usa para ouvir suas músicas na web.
Saiu linda de casa. Linda por ser ela mesma, bonita com espinhas.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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