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Magali Simone de Oliveira

Ídolos e ex-ídolos

Um dia os pais deixam de serem heróis de seus filhos que passam a vê-los como pessoas comuns. Há muitos anos, talvez na minha adolescência, ouvi isso. Essa frase me marcou. Aos 15, 16 e 17 anos, meus pais eram ex-ídolos. Eu continuava os amando e respeitando, mas não conseguia perceber neles a poesia de Renato Russo, a rebeldia de Cazuza. Eles queriam que eu fosse uma adulta da classe média comum: tivesse um bom casamento, um bom emprego, fosse uma boa mãe e uma boa cidadã. Para mim isso era o fim. Era como se dissessem: “deixe seus sonhos de lado e seja uma pessoa careta feliz”.
Minha mãe era uma mulher a frente de sua época. Nos anos 1970, quando mudamos para Divinópolis, no Oeste de Minas, era uma das poucas mães que trabalhavam fora. Muita gente criticava porque achava que os filhos ficavam largados. O que nunca aconteceu. Ela foi a minha grande inspiradora. Ensinou-me a gostar de ler, a ter coragem de escrever, a acreditar em mim. Foi a primeira a me ensinar a não ser careta.
Mas ela nunca ousou nas roupas, na maquiagem. Ela se cuidava, mas achava errado gastar com vestidos e sandálias. “Roupa a gente compra quando precisa, não quando quer”, costumava dizer. Mesmo assim, dava palpites no meu figurino. “Essa roupa está simples demais, esta está curta, porque você só anda de preto”?
Eu não obedecia a todas as regras. Às vezes achava que eram palpites de “gente velha”. As dicas de minhas amigas sempre fizeram mais a minha cabeça. Hoje, vejo a cena se repetir. Mariáh está ansiosa. Prepara-se para ir a uma festa. Como sempre vem com cinco opções diferentes de combinações de saia, calça, short e camisetas. Dou a minha opinião:
- Vai com aquela saia e com aquela blusa ali. Foi a que ficou mais bonita, digo.
- Não. De jeito nenhuml. Essa saia não combina com essa blusa. Ficou horrível, rebate.
- Mas se é tão feito assim porque você experimentou as duas roupas?, espanto-me.
- Uai, para tentar. Mas não tem nada a ver, decreta.
Mariáh então se veste com uma calça jeans e uma camiseta com cinto. Maquiagem quase nenhuma. Espera a amiga com quem vai à festinha. Clara Smith chega dizendo-se apressada. Louca para retocar a maquiagem.
- Ah, Mariah. Você não está pronta?, questiona
- Estou. Vou assim. Não está bom?, pergunta Mariáh decepcionada.
-Está horrível. Você está parecendo velha com essa roupa. Está muito careta, diz Clara Smith.
- Então o que eu faço? Pelo amor de Deus me ajuda a escolher a roupa, rápido. Vamos chegar atrasadas!, pede Mariáh.
As duas saem loucas para o quarto. Voltam depois de meia hora. Mariáh vestida com o conjunto de saia e blusa que eu havia achado mais bonito. Nem me olha. Não quer papo. Não quer ouvir o meu tradicional “eu te disse, não disse?” Mas eu não ia deixar passar isso em branco.
-Mas você vai com essa roupa? Clara você sabia que Mariáh tinha dito que nunca iria à festa com essa roupa porque era careta demais?
-Sério?, questiona Clara. Ela devia estar brincando com você.
Mariáh pega carona na justificativa da amiga.
- É claro que não é careta, mãe. Ficou legal mesmo. A Clara disse.
As duas se vão e eu fico com os meus pensamentos embolados embaixo do meu cabelo liso, como diz a música. Então Clara e outras amigas de Mariáh são os seres com poderes para decretar o que é ou não careta. Eu na minha “velhice de loba”, nos meus 42 anos de idade, não tenho mais o poder de influenciar Mariáh.
 As minhas opiniões são requisitadas não para mostrar como deve ser, mas o que não deve ser. Algo do tipo: se minha mãe disse para eu vestir essa roupa eu não devo vestir essa roupa. Mas se minha amiga disser vista essa roupa, eu visto.
No meu uivar de loba ferida em sua vaidade de mãe traço outra estratégia. Depois dessa constatação vou adotar a psicologia do contrário. Quando minha cria me pedir uma opinião, vou falar exatamente o contrário do que penso. Talvez eu queira o mesmo que os meus pais. Que Mariáh tenha uma vida boa classe média e se case bem e tenha um bom emprego, um bom carro etc. Talvez eu seja mesmo como os nossos pais como Elis canta.
Mas eu não sei se sou careta. Trago em mim as marcas de Renato Russo, as cicatrizes que uma música como Ideologia de Cazuza deixou nos filhos dos anos 80 e de tantos outros. E talvez eu também deseje que ela tenha uma vida contrária aos padrões da classe média.
Talvez eu queira que Mariáh tenha tudo ao mesmo tempo agora como diz o Titãs. Que Mariáh perceba que tudo muda o tempo todo no mundo de Lulu Santos, que a Terra na verdade é o Planeta Água de Guilheme Arantes, e que, mais do que tudo: ela tenha a coragem de ser essa metamorfose ambulante de Raul Seixas.
E que siga seu caminho sem precisar de dicas de amigas ou mães. Acredite em si mesmo, porque quem acredita sempre alcança como cantava Renato Russo. 

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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