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Betzaida Tavares

O abismo e o jardim

Sou mãe de quatro crianças, um garoto de onze anos e três bebês que ainda não completaram dois. Qualquer um, portanto, pode deduzir que não tenho uma vida social muito agitada. Saio pouquíssimo e, por isso, aprendi a ser seletiva na hora de escolher para onde ir. É preciso que o programa valha muito a pena para que eu abra mão da companhia dos meus filhos e de algumas horas de sono. Sim, porque no dia seguinte, independentemente do horário em que for dormir, estarei de pé, no máximo, às seis e meia da manhã.
Quando li sobre um espetáculo de teatro que contava a história verídica de uma mulher que abandonou o marido e os três filhos e foi ser moradora de rua pensei que poderia ser um bom programa para aquele sábado à noite.
A peça me surpreendeu. Não era simples representação. Uma das atrizes é, na vida real, filha de Rosangela, a mulher que um dia, carregando uma dor tremenda, sabe-se lá qual dor, lutando contra um fantasma invisível, deixou a casa num desespero, pareceu-me, de quem se joga no abismo para tentar se livrar de formigas saúvas que já lhe infestaram o corpo. A montagem da peça, mais que uma declaração de perdão feita pela filha, é a afirmação da cumplicidade: eu não sei por que você fez, mas eu a entendo profundamente.
O ator, ao oferecer seu corpo à personagem, chora, ri, morre e adoece. Mas, quando as luzes se apagam, ele está ali, ao menos fisicamente íntegro, ainda que a personagem que representou tenha sido mutilada, violentada ou morta. Nessa peça é diferente, já que é a personagem que se empresta à atriz para ela possa desnudar sua dor diante de si e de uma plateia desconhecida. Enquanto representa, está o tempo inteiro à beira do abismo. É como um artista de circo, que ao emprestar seu corpo ao espetáculo, aceita o risco real da queda, da fratura, da morte. Contudo, ela sobrevive. E porque sobrevive pode voltar e voltar e voltar ao palco para contar o que viveu. A cada volta, um risco. A cada ato final, a atriz devolve a mãe sua dignidade. Devolve não, porque Rosangela, nas ruas, bares e meretrícios, nunca deixou de ser digna. Mas todas as vezes em que as luzes se apagarem ninguém mais da plateia será capaz de duvidar disso.
Quem de nós nunca quis um dia sumir, abandonar sem olhar para traz trabalho, filhos pequenos, mãe doente, marido bêbado? Quantos de nós não estivemos prestes a fazer isso? E o que nos impediu? Impossível saber. O fio que nos prende a uma rotina sensata e por vezes insuportável é tênue e passamos a vida a fazer malabarismos e acrobacias para mantê-lo esticado sem se romper. Mas um descuido sempre pode acontecer. O trapezista experiente que em meio a um número divisa, num relance, o grande amor da sua vida na companhia do marido e filhos. Então, despenca no picadeiro em meio a gritos de pavor e olhares de incompreensão: “Não é possível! Ele já fez esse número milhares de vezes!” Mas para quem vive na fronteira sempre pode acontecer de se escorregar para o outro lado. Rosangela foi e voltou. Deixou a menina pequena para depois reencontrá-la num cenário de flores e poesia onde mãe e filha se fundem numa personagem cheia de humanidade.

 

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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