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Cristina Silveira

Abusos infantis

Nesta semana, foi exibida no programa Fantástico, da Rede Globo, uma matéria sobre os abusos direcionados às crianças e aos adolescentes que chocou grande parte da população. Devido à gravidade das consequências desses abusos, me preocupou bastante a divulgação que  “em todo o país, a cada hora, 15 crianças são vítimas de algum tipo de violência. Mas esse número pode ser bem maior, porque nem todos os casos são denunciados.” Por conta disso, resolvi escrever sobre o assunto em minha coluna de hoje.

Segundo pesquisas, as crianças que mais sofrem agressão física estão na faixa dos 3 aos 15 anos. Elas são vítimas de várias formas de abusos: físicos, sexuais, psicológicos e negligências. Não se sabe, na verdade, qual dessas categorias é a mais danosa para a saúde psíquica da criança e do adolescente.

Esses abusos podem ser causadores de muitos transtornos, que podem se manifestar de várias formas, em qualquer idade. Internamente, podem aparecer como depressão, ansiedade, pensamentos suicidas ou estresse pós-traumático. Podem expressar-se externamente como agressão, impulsividade, delinquência, hiperatividade ou abuso de substâncias. Uma condição psiquiátrica fortemente associada a maus tratos na infância é o chamado distúrbio de personalidade limítrofe (borderline personality disorder).

Porém, os maus tratos na infância não provocam apenas traumas psicológicos e transtornos psiquiátricos. Podem provocar danos permanentes no desenvolvimento das funções cerebrais, já que os hemisférios esquerdos de pessoas vitimadas pela violência desenvolvem-se significativamente menos do que deveriam. Pesquisas americanas recentes comprovam que, como o abuso infantil ocorre durante o período formativo crítico em que o cérebro está sendo fisicamente esculpido pela experiência, o impacto do extremo estresse pode deixar uma marca incurável em sua estrutura e função. Tais abusos induzem a uma cascata de efeitos moleculares e neurobiológicos, que alteram de modo irreversível o desenvolvimento neuronal, alterando o desenvolvimento de seus sistemas límbicos, que desempenham um papel central na regulagem da emoção e da memória. Ou seja: podem desencadear doenças psiquiátricas e mesmo neurológicas graves.

 

Como identificar uma vítima de abuso?

 

Um denominador comum às crianças vítimas de abuso sexual é um conhecimento sexual inadequado para a idade. Muitas são capazes de descrever com detalhes um órgão sexual masculino e uma relação sexual. A masturbação exacerbada é também forte indício desse tipo de violência.  Outros sinais devem ser observados: quando a criança ou adolescente apresenta postura de evitar tudo que esteja relacionado à sexualidade; brincadeiras sexuais agressivas, presença de sinais de abuso em desenhos, jogos e brincadeiras. Vergonha e retraimento excessivos, autoagressão, ideias e tentativas de suicídio, agressividade incomum, manutenção de segredos. Dizer que tem o corpo sujo ou danificado, medo de ter os órgãos sexuais atingidos por algo ruim, atitudes regressivas ou desconfiança de pessoas adultas.

 

Indicios de abusos físicos podem ser a presença de dores, manchas e lesões físicas como queimaduras, cortes, hematomas e feridas não compatíveis com as causas alegadas. Comportamento muito agressivo ou apático, problemas de indisciplina, sentimentos de baixa auto-estima e auto-imagem pobre. Passividade, comportamento retraído, sentimentos de tristeza, comportamento autodestrutivo e autolesivo. Se encaixam ainda nesses sintomas, ansiedade e medos, revivescência das experiências de agressão, pesadelos, fuga de casa, dificuldade de confiar e demonstrar afeto pelos outros.

 

Porque a criança não conta?

 

Além do medo do descrédito na sua palavra, o medo da reação dos responsáveis ou das ameaças do agressor, vergonha e culpa são os elementos que contribuem no prolongamento do silêncio que envolve os abusos sexuais. Além desses fatores, muitos podem não falar por medo de retaliações contra si mesmas ou contra as pessoas que amam. Existe também o medo de ruptura familiar. Muitas vezes, as crianças e adolescentes esperam apenas uma chance em poder falar.

 

Portanto, atenção quando uma criança disser ou tentar dizer alguma coisa: confie, investigue e denuncie!

 

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,

especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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