Cristina Silveira
Amigo imaginário
Os amigos imaginários estão presentes na vida das crianças entre os 3 e os 7 anos de idade. Normalmente aparecem no terceiro ano de vida, quando já é possível diferenciar entre o eu e o outro. Segundo estudos, 20 a 30% das crianças têm, pelo menos temporariamente, um ou mais acompanhantes invisíveis.
Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós tivemos um parceiro imaginário em um determinado estágio do nosso desenvolvimento, que às vezes não foi descoberto por ninguém, sendo depois totalmente esquecidos por nós.
Esse amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições e ser companheiro da criança durante todo o dia. Podem ser crianças da mesma idade, animais, magos ou super-heróis.
Porque as crianças criam os amigos imaginários?
Amigos imaginários costumam surgir assim que passamos a ter algum domínio da linguagem oral. Seja para organizar pensamentos, seja para se entreter, a criança desata a falar consigo mesma. Geralmente, eles surgem em períodos em que seus criadores realizam grandes saltos de desenvolvimento cognitivo e oferecem às crianças a possibilidade de expressar sentimentos e impulsos.
Filhos únicos e primogênitos são mais propensos a esse tipo de comportamento, já que tendem a passar os primeiros anos de vida sem um companheiro real de sua faixa etária por perto. Portanto, algumas crianças e jovens podem criar essa amizade quando se sentem sozinhos. Estudos mostram que amigos imaginários aparecem principalmente quando surgem mudanças drásticas: quando a mãe fica grávida ou no nascimento de um irmãozinho; quando um dos pais está ausente, ou depois do falecimento de um ente querido. Casos de separação dos pais ou de amizades que se rompiam ou mudança de casa. Portanto, crianças e adolescentes compensam a realidade com a ajuda providencial do parceiro imaginário e assim combatem sentimentos de abandono, solidão, perda ou rejeição. É possível, assim, desfrutar de um relacionamento de amor e apoio, além de companhia – independentemente das circunstâncias externas. Como consequência, essas figuras quase sempre desaparecem assim que a criança encontra amigos reais ou se adapta à nova situação.
Contudo, o amigo imaginário pode ser uma saída saudável para a criança. Piaget não atribuiu a criação do amigo imaginário à solidão ou a condições de vida difíceis. Via nele muito mais uma prova de criatividade e prazer comunicativo. Aquelas que tinham um companheiro imaginário costumavam se expressar melhor e se colocar no lugar do interlocutor, o que faziam inclusive com prazer. Os jovens com amigos imaginários apresentaram mais qualidades sociais, como empatia, do que aqueles sem um acompanhante invisível. Pesquisas mais recentes indicam que aquelas crianças que convivem com companheiros invisíveis desenvolvem suas capacidades psicológicas e tendem a ser melhores alunos. Estudos sobre comportamentos lúdicos comprovam que principalmente crianças maduras e psicologicamente estáveis têm amigos imaginários.
Porém, os amigos inventados podem surgir quando a criança tem dificuldades em se submeter às regras dos adultos. Então ele faz aquilo que é proibido. Obviamente, os novos amigos são os culpados quando os pais descobrem alguma travessura da criança. Então, o amigo imaginário leva a culpa por aquilo que a criança fez sabendo que não deveria fazer! A criança pode utilizar o “amigo inventado” para fazer perguntas que não tem coragem de fazer em seu próprio nome, chamar atenção, dizer palavrão - atitudes que provavelmente seriam repreendidas pelos pais.
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Para os pais, flagrar o filho no meio de um "monólogo exterior" pode surpreender, mas os especialistas garantem: é normal, saudável e aconselhável. Inclusive, Roberto Andersen, educador brasileiro membro da Academia de Ciências de Nova York, adverte que limitar a imaginação (o que inclui dizer "acabou esse tal de amigo imaginário!") é um incentivo ao déficit de atenção, déficit de cognição e memória parcial. Se você achou a opinião de Roberto muito radical, saiba que Freud, pai da psicanálise, e Piaget, papa da pedagogia, também defendiam que, por via das dúvidas, era melhor que o companheiro invisível participasse do jantar.
Não raro, pais, professores e terapeutas incomodam-se não apenas com o fato de as amizades imaginárias serem mantidas por um longo tempo, às vezes por anos, mas também com a nitidez com que as crianças parecem ver seus amiguinhos. Mas os pequenos sabem muito bem que seus parceiros não são reais e que só existem em sua imaginação. Ou seja: essas criações psíquicas podem ser claramente diferenciadas de fantasias patológicas, que ocorrem, por exemplo, nas psicoses. A criança nunca se sente indefensavelmente dominada pelo amigo que criou – pelo contrário, pode modelar, modificar e manipular sua invenção como quiser. E também determinar a duração desse “relacionamento”.
E agora? Como os pais devem lidar com o amigo imaginário de seus filhos ?
Ao descobrir o amigo imaginário, os pais devem aceitar e entrar na brincadeira, sem se preocupar ou interferir. É melhor tratar tudo com naturalidade. É uma fase transicional, que ficará para trás quando o vínculo com o mundo externo estiver mais consolidado e for possível ter experiências seguras com um amigo real. Os pais nunca devem ignorar os relatos do filho. Se deixar de brincar com os amigos ou não quiser sair de casa por causa do amigo imaginário é motivo para investigar.
Não deve-se repreender a criança ou dizer abertamente que seu amigo é fruto da imaginação. A criança vai ficar confusa e com tendências ao isolamento ou envergonhada, mexendo muito com sua autoestima, obrigando-a a mentir sobre a existência do “ amigo”.
E se esse “Amigo imaginário “ não quer ir embora?
Se o diálogo com um interlocutor imaginário nunca desaparece, devemos observar. Mais ou menos aos 7 anos, ele já não é tão comum. Aos 10 já é estranho. Se ele sobreviver até os 12, é algo preocupante.
Segundo especialistas, após os 6 anos de idade os pais já podem dar um empurrãozinho para a despedida, para que a criança realmente entenda o amigo como ficção. Uma boa ajuda seria pedir que a criança faça um desenho ou escreva uma história com esse personagem. Esse será o momento em que ela vai enviar os amigos para o mundo da fantasia.
Fica a dica!

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,
especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.
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