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Regina Helena Alves Silva

Do balé da escola ao projeto social: que o Papai Noel do shopping nos traga um 2014 realmente novo

Neste final de ano, minha filha “dançou balé” pela primeira vez em um palco de teatro. Várias crianças dançavam e nós, na plateia, estávamos bem bobos, rindo e nos divertindo com nossos filhos se apresentando. Finais de ano são assim. Depois teve a mostra cultural da escola dos meus filhos. Um monte de coisas legais. Meu Pedro e sua turma fizeram uma enorme girafa, era o projeto da turma dele, escolheram a girafa como o animal do qual tudo queriam saber.

Tem várias coisas que a gente vê nestes finais de ano, mas o melhor é entender como nossos filhos cresceram e tudo o que fizeram durante um ano. Tudo isso é possível por serem quem são agora. Por terem eu e Silvia como mães e por podermos proporcionar a eles uma escola, aulas de esporte, balé, oficinas e coisas deste tipo.

Podemos ir com eles a tudo que a cidade oferece. Podemos ir, se quisermos, à tal casa do Papai Noel, que fica lá no alto da Avenida Afonso Pena, na Praça do Papa. Enfrentar um inferno para encontrar uma vaga para o carro e depois ficar em uma fila imensa para entrar na tal casa.

Podemos também ir até um dos vários shoppings da cidade para nossos filhos tirarem fotos com o Papai Noel, andarem nos diversos “espaços temáticos” cheios de neve, renas, trenós e homens vestidos com pesadas roupas vermelhas e imensas barbas brancas. Podemos, inclusive, almoçar nesses shoppings e depois deixar nossos filhos nos famosos “espaços kids” para, enfim, tomarmos um café calmamente enquanto o relógio marca os minutos que temos que pagar para que alguns monitores tomem conta de nossos filhos, enquanto brincam nos tais espaços.

Podemos tentar ir à Praça da Liberdade para ver a famosa “decoração de Natal” que a cada ano consegue ficar mais jeca e neste ano particularmente horrorosa com o tal “relógio da Copa” em forma de ampulheta brega na entrada da praça. Se quisermos proporcionar tal espetáculo a nossos filhos temos que ficar por volta de duas horas engarrafados e depois mais algum tempo tentando enfiar o carro em algum buraco há quarteirões de distancia da praça para ir na chuva arrastando as crianças até um mar de luzes que iluminam homenzinhos de vermelho e alguns bichos indecifráveis dependurados de cabeça para baixo balançando em estruturas estranhas no meio da praça. Uma praça que depois de terem transformado num tal de “circuito cultural” proibiram o estacionamento em vários quarteirões ao redor. Como o tal circuito não conseguiu prever a infraestrutura necessária para ser um circuito e como BH é uma cidade famosa pela deficiência de seu transporte publico é praticamente impossível frequentar as minúsculas oportunidades que existem naquele lugar.

Não tive paciência ainda para ir à praça à noite, mas fui de tarde com meus filhos que tentaram correr, mas não conseguiram porque tinha várias coisas espalhadas pela praça e algumas grades em volta de palco e cadeiras. Eles tentaram ir até o coreto, mas não conseguiram. Aí fomos tomar sorvete com “bolinho de chocolate” ali no CCBB.

Depois que as crianças chegaram, temos andado por esta cidade procurando lugares para crianças. Restaurantes são um inferno. Muitos dizem que têm espaço para crianças, mas quando a gente chega encontra um escorregador no canto, um daqueles negócios de plástico que as crianças ficam subindo e descendo, um canto com mesinhas e duas monitoras com folhas de papel e lápis de cera, enfim... os restaurantes tentam mas tentam muito pouquinho... Assim, vamos de lugar em lugar pagando pelo pouco.

Às vezes fico imaginando como nossas mães faziam...

De qualquer maneira, duas coisas aconteceram neste final de semana que me fizeram parar para pensar neste nosso canto do mundo: o balé da minha sobrinha e minha amiga Sonia em Paris.

 

1. Minha sobrinha também faz balé. Ela faz aulas lá na escola do Corpo e todo final de ano tem uma apresentação. Neste domingo fui vê-la e levei minhas crianças. É claro que as pobres criaturas que se sentaram nas cadeiras a nossa frente foram vitimas de dezenas de chutes e cutucões e de “gracinhas” dos meus pimpolhos durante toda a apresentação. Mas os pequenos adoraram grande parte do espetáculo e amaram subir no palco depois de tudo terminado e ficar brincando com um monte de papeis picados que eram parte da ultima apresentação.

Mas teve algo surpreendente nesta apresentação. A segunda ou terceira turma que entrou no palco era de crianças por volta de 10, 12 anos com um monte de meninas e apenas um menino. Um menino lindo que entrou todo empertigado, com pose de bailarino, dançou de um jeito todo “profissional”, uma coisa linda. Ao final quando terminou tudo foi ovacionado por todos. A saída minha sobrinha comentava sobre ele e eu perguntei se ele era filho de bailarinos, porque só assim eu conseguia entender tamanha “vocação” para a dança. Maira, minha sobrinha, disse que não, que era um menino que morava em Contagem, tinha um monte de irmãos, ganhou uma bolsa e vem para as aulas no alto das Mangabeiras de ônibus. Ou seja, é um dos meninos que o grupo Corpo proporciona uma bolsa para que consiga ter uma formação em dança. O menino já nasceu bailarino e ele sorria, sorria o tempo todo para todos nós lá na plateia e nem parecia que ainda ia enfrentar dois ônibus pra voltar pra sua casa lá em Contagem.

 

2. Minha amiga Sonia foi fazer um doutorado-sanduíche em Paris. Levou seu filho Pedro, xará do meu pequeno. Os dois andam se divertindo horrores lá naquela cidade. Todos os dias, vai postando o que acontece com ela e seu filho. Como conseguiu a escola e como Pedro foi recebido por lá. Como as pessoas o trataram, como em uma semana conseguiu todos os tramites burocráticos com relação ao filho e ele começou a estudar e a se relacionar com os outros meninos. Sonia foi quem me introduziu nessa diversão de escrever e falar sobre meus filhos, ela tem um blog – Tudo bem ser diferente – que criou quando descobriu que seu filho faria parte da imensa legião de diferentes que conformam esse nosso mundo.

Aqui no Brasil ela já passou por todas as dificuldades para que seu Pedro seja um diferente em pé de igualdade com aqueles que se julgam mais iguais do que os diferentes.

E foi lá naquela cidade linda, mas que todos sabem ser difícil que ela conseguiu entender o que são direitos, não como aqui no Brasil que são entendidos como privilégios, mas direitos entendidos como aquilo a que temos direito.

Alguns amigos de Sonia ficam postando comentários sobre as surpresas que ela tem a cada passo que dá. Dizem que ela anda deslumbrada, que se têm reclamações do Brasil que fique por lá.

Nosso povo é assim, não consegue entender que podemos ter tudo que outros povos têm. Nosso povo acha que aqui nada pode funcionar e que para funcionar temos que “dar um jeitinho”.

 

Essas “duas coisas” que aconteceram nesta semana têm me feito pensar em onde foi que erramos quando lutamos tanto para reconstruir este país depois da ultima ditadura que tivemos. Uma ditadura que a tudo destruiu: saúde, educação, direitos, visão de futuro, etc.. Mas não destruiu nossa vontade (de poucos) de acabar com ela e reconstruir nosso país. Assim o fizemos, mas nesse caminhar nos esquecemos de algo em algum lugar.

Esquecemos-nos de que tanto nossos filhos quanto os meninos lá de Contagem têm o direito de serem bailarinos. Mas têm esse direito sem ser “por favor”, sem ser com sacrifício, sem ser como “projeto social”.

Esquecemos-nos de garantir tudo o que fez com que Sonia finalmente conseguisse o que é necessário para seu filho, sem que tivesse que achar algo “especial” ou lutar com as escolas para que o aceitassem.

Onde foi que nos esquecemos de que alguém não pode sair do seu lugar sem entender que direitos são fundamentais e que a desigualdade social priva uma grande parte da população deste país daquilo que é dela?

Criamos a sociedade do mérito, aquela que acredita que direitos são acessados por competição e que saúde, educação, cultura, espaço público, tudo isso e mais algumas coisas não podem ser conquistas de todos.

Eu fico só aqui pensando em como será o futuro mundo dos meus filhos, às vezes tenho muito medo...

Fico aqui esperando que um dia a maioria do povo deste país entenda que saúde, educação, cultura e tudo mais são direitos de todos.

Assim aquele menino que dança lá na escola do Corpo não precisará de uma bolsa, terá direito a uma escola de dança, não será chamado de “boiola” pelos amigos porque “meninos não dançam balé”, todos os meninos e todas as meninas poderão estudar e dançar o que quiserem, do jeito que quiserem, em qualquer escola, nos muitos palcos da vida.

Deixa-me explicar de novo, principalmente pra aquele povo que fica vomitando ódio contra os outros nas redes sociais da internet: eu tenho medo de que apenas uns poucos possam ter acesso a tudo, eu tenho medo que apenas alguns mais como meus filhos tenham acesso a tudo embora com muita dificuldade e eu tenho medo que os meninos como aquele que dançou lá no Corpo continue pra sempre sem ter acesso a nada a não ser a um “projeto social”.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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