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Betzaida Tavares

A forte e frágil vida

Bernardo, Felipe e Rafael nasceram antes do tempo, como já é de se esperar em caso de trigêmeos. Na verdade, nasceram um pouco mais prematuramente que o esperado. Para ser bem precisa: entrei em trabalho de parto com exatos seis meses e três dias de gestação. Uma cesariana de emergência trouxe ao mundo as três criaturinhas. Pequenos e frágeis deixaram o calor do útero e foram lançados à vastidão da luz como se tivessem sido atirados ao abismo.

Apesar disso, tinham um choro vigoroso, como se dissessem, desde o início, que estavam decididos a vingar, independente do quão hostil lhes parecia o mundo para seus tão desprovidos de defesa. Do ventre foram direto para incubadora. Passaram dois meses em uma UTI neonatal.  Foi lá que aprendi que o mistério da vida se cumpre, não no grandioso, mas nas coisas pequenas, quase invisíveis. E quanto menores, mais visível o princípio vital. Enquanto estive lá, na condição de visitante dos meus filhos, pude acompanhar a história da menina que nasceu com pouco mais de trezentos gramas e, contra as expectativas mais razoáveis, sobreviveu. O que se dizia é que ela parecia carregar, desde o nascimento, uma vontade inexplicável de viver.

Sempre imaginei uma UTI como um ambiente pesado, quase fúnebre. Lugar onde estão as pessoas que esperam a morte, era o que eu pensava. Mas não foi essa a impressão que tive ao entrar pela primeira vez naquela que foi a morada provisória dos meus filhos. Ali, longe de ser um lugar onde a vida começa a se esvair, é reduto do princípio da vida. Princípio, no sentido de começo, pois abriga vidas que se iniciam, mas também por conter a essência da força vital que a tudo anima.

Em filmes e novelas, uma UTI costuma ser um ambiente grave, com parentes chorosos e médicos cheios de solenidade. Na vida real, claro, não é assim. Tudo o que é incorporado ao cotidiano, perde a solenidade. A UTI neonatal é parte do cotidiano dos médicos e enfermeiros passam várias horas do dia ali, muitas vezes sem se dar conta se já escureceu ou se ainda é dia, dos bebês não conhecem outra realidade além daquela e do útero materno e das suas mães (mais raramente dos pais) que, em pouco tempo, incorporam aquele espaço ao dia-a-dia de maneira que o ambiente escuro, com incubadoras enfileiradas, monitores e apitos deixa de ser dramático e se torna algo comum.

Claro, havia as situações de choro, medo e desespero. Mas eram casos extremos. Em geral, tudo aquilo que pode apavorar os que estão do lado de fora, para os que passam a maior parte do dia dentro de uma UTI é apenas mais um exercício de paciência: cirurgias, transfusões de sangue e quedas de saturação são narrados em conversas com a mesma naturalidade da mãe que conta sobre o filho que ficou resfriado e precisou perder uns dias de aula.

É comum, por exemplo, acontecer de o bebê que está entubado apresentar condições favoráveis e sair do tubo. Para poucos dias depois precisar ser novamente entubado. A primeira vez em que isso aconteceu, entrei em pânico: então ele piorou, não vai conseguir respirar sozinho, a partir de agora só vai piorar? Com o tempo entendi que viver não é andar de bicicleta (uma vez que se aprende não se esquece mais), muito menos uma escola seriada, na qual depois de se concluir, por exemplo, a quinta série, ela fica definitivamente para trás.

Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, a vida não anda sempre para frente. Ela é tortuosa, com avanços e recuos. Oscilante, tem a morte sempre à espreita, que ora se aproxima, ora se afasta, subitamente ataca. Às vezes conseguimos vencê-la com a força incomum que habita tudo o que é vivo, mas inevitavelmente chegará o dia em que o corpo não irá suportar a força do golpe. No entanto, fazemos o possível para ignorar esse fato. Como disse Carrièrre: Fazemos de tudo para ficarmos fortes, invencíveis, como super-heróis. Mas somos mortais, expostos diariamente a perigos físicos e mentais, dos quais fazemos de tudo para esquecer.

No interior de uma UTI neonatal não é possível esquecermo-nos de que somos mortais. Ali, os extremos da vida, força e fragilidade, escancaram-se diante de nós de maneira tal que só nos resta incorporá-los ao prosaico.

 

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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