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Magali Simone de Oliveira

Borboletices e lagartices

E eis que Regina, amiga de Mariáh finalmente chega. As duas vão ao cinema. Eu vou com ela, mas a ideia é que eu seja uma presença discreta, tão discreta que elas só se lembrem de que estou ali quando decidirem fazer o lanche. Eu sou a porta-carteira, assim me sinto. Na verdade estou de mau humor porque não me sinto mais tão necessária. Na verdade, sinto que a minha presença é incômoda. Afinal de contas, sou a que pode pedir para que elas falem baixo, que não riam tão alto e nem deem gritinhos estridentes nos momentos mais tensos. E isso faz com que elas se sintam ameaçadas. Também tenho que fingir não perceber as lágrimas que ambas deixarão cair quando o filme acabar. Já entendi todas essas partes. Mas não entendi a regra de constrangê-las com meus elogios.
- Fiu...fiu.... faço ao cumprimentar Regina. Magrinha e sempre discreta, hoje ela  caprichou no visual. Está vestindo uma saia de malha estampada justa com uma camiseta preta, também de malha. O cabelo solto e comprido fez com que a menina de treze anos tivesse um ar de pequena diva. A roupa marcou o corpo, mostrou que ela tem curvas, seios e bunda. Ela não gostou do fiu.... fiu....
- Pelo amor de Deus, dona Magali. Eu estou com vergonha.
_ Vergonha por que, meu Deus?
_ Porque não devia ter saído com essa roupa. Acho a saia linda, mas estou muito gorda com esse look. Estou me sentindo uma baleia.
-Gente, mas você tem um corpão. Está mais para sereia.
-Tá vendo. Você disse que eu tenho corpão. Se eu fosse magra, você diria que eu sou mignon.
-Não. De forma alguma. Disse que você tem corpão porque você está linda. Mas você é magra. Não tem nada de gorda. E seria linda mesmo que fosse gorda, o que não é o caso.
-Ah, tá, disse querendo encerrar a conversa.
_ Vamos então, convido. O filme começa em quarenta minutos. Ainda temos que chegar ao shopping.
-Ah, tá, responde.
É a deixa. Mariah a leva sem dizer uma só palavra para o quarto. As duas ligam o som alto. Fico esperando. Bato na porta sem entender. Grito do lado de fora.
-Desistiram?
- Não, mãe. Estamos indo. Só estamos resolvendo umas paradas.
E, em dez minutos Regina surge. Está de legging preta e uma camiseta, de malha, bem larga de Mariah. Uma roupa bem semelhante à de Mariah e a da maioria dos jovens com quem nos encontraríamos no cinema. Super sem graça. Como um uniforme. Mania de vestirem uniformes.
-Trocou de roupa? Mas estava tão linda!, protesto.
-Ah, obrigada. Mas eu não ia conseguir assistir ao filme gorda daquele jeito.
Finjo que entendi tudo (afinal de contas ela está longe de ser gorda) e vamos as três (eu à sombra), ao cinema. 
Penso como é difícil ser mulher. Ainda hoje, o corpo pesa, mesmo que leve. Inventaram que existe um corpo ideal, que qualquer uma pode ter, mas isso não é verdade. Cada mulher tem um corpo, um cheiro, uma forma de dar risada, de se vestir, de ser bonita. É difícil se aceitar.
É preciso- nesse mundo injusto que exige corpos magros (que carregam o peso da fome, do medo de engordar e não ser aceita)- que as mulheres tenham coragem de assumir o próprio corpo. E se ele não for como a da capa da revista?
Não é. E provavelmente não será. Aceitar a feminilidade, a beleza, aprender a se aceitar com alguém que tem formas, que tem curvas que chamam a atenção é um aprendizado complicado.
Já que nada faz sentido, depois de tomarmos um refrigerante, confesso para elas a minha vontade de fazer uma tatuagem nos pés. Uma tatuagem de borboleta. Regina me pergunta o porquê da escolha. Filosofo.
_ Porque cara Regina, todas nós nascemos para voar sobre as flores, como as borboletas. Mas a maioria das mulheres, com medo da beleza das próprias asas, vai passar a vida inteira lagarteando pelo mundo, invejando as asas das borboletas que estão voando...
Dessa vez, as duas não entenderam. Mas não dei pelota. Senti o bater das asas nos meus pés e desejei voar.
 

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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