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Magali Simone de Oliveira

Seria a web um caminho para o país de Alice?

Assim como o buraco onde Alice cai para dentro de um país de maravilhas, Mariáh às vezes some dentro do computador. A internet é uma teia que a prende e a captura. Ela está lá de corpo e alma. Penso que talvez fosse melhor se esse talento, essa atenção toda, fosse canalizada para o estudo da matemática e da geometria. Sonho que minha filha se torne engenheira, mas, dia após dia, entendo que essa será mais uma das ilusões a ser colocada na lista “Só que não” da minha vida.

Curiosa, como sempre fui, um dia pedi a ela que me mostrasse seus sites preferidos. Deparei-me com um emaranhado de telas e games nonsense. Sem sentido mesmo. Fiquei pasma. Sites e jogos que vão do nada ao lugar nenhum. E ela prefere a web ao clube. Fico sem entender.

- Peraí. Pelo que você está me explicando, nesse game você é um pombo. O objetivo é defecar em tudo o que aparece. É isso mesmo?

- É, mãe. É isso mesmo. Quanto mais pessoas eu sujar, melhor

- Mas você tem nojo de tudo. Por que gosta tanto de jogar esse jogo tão nojento? Vamos combinar, esse jogo é nojento de verdade - argumento.

- Não é tão nojento, não. Aqui é tudo virtual. Não é de verdade, mãe.

- Ah, sei - digo, sem ter mais argumentos.

Olho outros sites que ela me mostra. Em um deles, uma vela enorme queima sem parar a tela. Sinto-me entediada.

- O que tem de interessante nisso?

- Nada, uai. É esquisito. É legal.

- Tá, respondo. Concordo que é esquisito. Mas legal?

Ela não responde.

Olho outro. Sabe quando você arranha um quadro negro? Aquele barulhinho? O mesmo. Uma unha gigante arranha a tela do computador e você ouve o barulhinho. A gastura não é a mesma da vida real. Mas é uma gastura. Virtual. Sinto-me um grande tiranossauro rex.

- O que você sente ao entrar nesse site?

- Nada. Acho legal fazer nada entrando nesse site. Na vida real, não arranho as coisas. Não gosto desse barulhinho. Mas nesse site é legal.

- Ah, entendi. Então tem coisas que você não gosta na vida real, mas acha legal na web?

- É por aí

- Mas por que você acha que existe essa diferença? Coisas que são boas no virtual e que não são no real?

- Porque no virtual ninguém está fazendo para me irritar. Eu só entro aqui para matar o tempo, fazer nada, ver que existem pessoas mais loucas que eu, que inventam coisas bobas só para a gente ver. Mas eu entro e saio quando quero. Ninguém me obriga.

Fico pensando como a vida virtual pode parecer mais atraente do que a real. Na web, apesar de tudo, você desliga quando quer. Investe seu tempo precioso em estratégias para matar o tempo. Mas acaba matando junto toda a frustração com o mundo lá fora. Pode, inclusive, criar um avatar novo, uma identidade nova. Se tem nojo de tudo na vida real, na vida virtual você brinca com essa aversão a tudo que é malcheiroso no mundo. Nesse buraco mágico, todos somos Alices, coelhos, gatos sorridentes e rainhas de Copas. Todos podemos viver maravilhosamente em um país construído com megabites de pura ilusão.

 

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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