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Regina Helena Alves Silva

Carta a Dilma

Nesta semana, eu comecei a pensar em escrever sobre o futuro profissional dos meus filhos. Pensei nisso porque várias pessoas que conheço estão desempregadas e com infinitas dificuldades de arrumar um emprego. Os salários são aviltantes e geralmente são dispensadas pelos tais dos “entrevistadores” por serem “muito qualificados” para os cargos que foram buscar.
Este país é mesmo meio maluco: as pessoas se qualificam, adquirem anos de experiência e depois vem sempre uma empresinha tercerizada, fruto dessas licitações, e diz a elas que elas são muito qualificadas para fazer o que a empresa não sabe fazer.
Além disso, vejo, tem tempos, meus alunos se formarem na graduação e irem fazer outras coisas. Ou então fazem mestrado, doutorado, pós-doutorado e aí, por volta dos 30 e poucos anos, tornam-se “qualificados” desempregados.
As listas de chamadas para emprego são grandes, cada cargo pede uma quantidade impressionante de “habilidades” e “competências”, incluindo fluência em pelo menos duas línguas e lá no final vem escrito: salário entre 2 e 3 mil reais.
Fiquei lembrando de quando eu tinha 16 anos e comecei a pensar no que queria ser “quando crescesse”... acabei indo fazer Ciências Sociais para desgosto absoluto da minha mãe. Dois anos depois, eu disse a ela que iria fazer outro vestibular. A alegria dela era insuportável, mas teve apenas um breve momento que foi totalmente deletado pelo comunicado de que eu faria História.
Quando meus filhos vieram morar comigo, comecei a pensar no futuro deles e essas questões vão aparecendo. Como toda mãe da geração seguinte, eu disse a mim mesma que meus filhos estudariam e teriam a profissão que escolhessem. Minha filha, com seus dois aninhos, pode ser o que quiser, meu filho, que faz 4 nesta semana, ama a música e tocar alguns instrumentos. Logo, eu fiquei pensando: quem sabe ele não será musico?
Esse era um sonho meu... não posso transferir pra ele. Mas na verdade eu gostava mesmo era de música e não de viver de música ou ser música ou fazer música. Mas se meu filho quiser, ele será o que quiser...
Pensando assim, me envolvo na interminável polêmica digital sobre um tal de coletivo dos coletivos, que domina a cena musical alternativa e independente brasileira. Nesta semana, parece que ninguém tinha mais o que fazer além de discutir se é importante e fundamental para o caminhar da humanidade termos um eixo ou ficarmos fora dele. Todo o mundo discutindo se ainda existe rancor ou pós-rancor nesse “mundão velho de meu deus”. Nesta polêmica sobre um dos gigantescos projetos culturais que a falta de política pública de cultura neste país gestou e que abduziu grande parte dos coletivos de músicos independentes, eu fiquei pensando se meu filho for músico daqui a alguns anos ele terá que se “curvar a monstruosidade capitalista do mercado cultural” ou a “redes de redes para redes enredar o enredamento”.
Enfim, em tempos de capitalismo simbólico, o que vale é a quantidade de abobrinhas que falamos com cara de emissor autorizado pelo coletivo horizontal, criado no calor das ações e relações de amor, num mundo novo do pós-rancor.
Acabei sem saber o que fazer para pensar o futuro dos meus filhos. Se for olhar do lado “careta”, não tem mais empregos e salários decentes. Só temos chamamentos ao empreendedorismo jovem, visando a criatividade inovadora autônoma e independente.
Se olharmos do lado “pós-rancor”, eles estarão fadados a serem enredados em redes de redes, rumo ao futuro-rede.
Quando começaram a discutir a queda do murro de Berlim, ninguém imaginava que íamos ficar assim em um mundo tão sem imaginação.
Muitos e com muita propriedade já escreveram e falaram sobre o “desencantamento do mundo” e minha geração atravessou grande parte de sua vida assim, desencantada, mas brigando para reencantar... Meus filhos já nasceram em um mundo sabedor de que encantamento e reencantamento no século XX ficaram. Agora eles têm que ser criativos e inovadores mas... de preferência, sem imaginação!!!!
O Brasil vive de editais para todas as áreas e o que edital mais pede é que todos que mandam projetos mandem de acordo com as metas e indicadores e resultados necessários para que ao final retornemos às....metas. Nenhum descobrimento, nenhuma invenção, nada de ficar por aí imaginando coisas... já temos as metas.
Já tivemos também a crise da experiência, a morte da experiência (aliás, neste nosso mundo de tempos atuais, tudo já morreu: a história, a arte, a experiência, etc, etc...), mas o que temos mesmo é um mundo desexperienciado.
Voltando a questão da escolha de uma profissão, foi justamente a imaginação que me levou à História. Eu sempre fui uma ótima aluna de matemática, física e congêneres, mas foi na História que eu descobri a capacidade de imaginar e inventar, de criar.
Existe uma distância gigantesca entre inventar, criar, imaginar e ser criativo, empreendedor e inovador. Mas... o mundo ficou mesmo mais besta e essa coluna não vai aqui ficar discutindo isso. Porque de repente me deu um frio na barriga quando eu pensei que poderia acontecer com meus filhos o que aconteceu comigo. Eu disse, durante muito tempo, que a única coisa que não queria ser era historiadora porque na minha família já tinha uma tia famosa e um bisavô retrato na parede do Arquivo Público Mineiro. Mas o que eu virei? Historiadora... E ontem, 19 de agosto, foi o dia do historiador!!!
E se meus filhos, se algum deles quiserem ser historiadores? PÂNICO...
Enquanto eu ficava aqui pensando nessas possibilidades para o futuro profissional de meus filhos, um ex-aluno me mandou uma mensagem no Facebook falando de um professor da UFMG que postou na sua página coisas do tipo: se o cara pegou na menina, é porque ela provocou. Esse lugar onde ela estava não é lugar para moças direitas. Essas meninas tiram a blusa e querem que os homens fiquem quietos? Somos homens...  (não reproduzi fielmente os termos do professor, porque meu estômago anda meio delicado nos últimos tempos). Este professor bastante conhecido é da área de ciências exatas e estava comentando um acontecimento que se deu em um buteco perto da UFMG, no qual uma menina foi agredida por um rapaz que se julgou no direito de tocá-la. Isso foi na semana passada e não no século XVII.

Então, Dilma, você não tinha entendido ainda que tipo de carta era essa, que nem começava falando com você. Mas é uma carta que te endereço, pedindo encarecidamente para que olhe com cuidado e atenção para as áreas de ciências humanas e sociais deste país. Para que pare com essa coisa de só querer formar engenheiros e médicos (eu sei que precisa, mas precisa de outras coisas também).
Você não deixa a maioria dos alunos das áreas de Humanas e Sociais participarem do Ciência sem Fronteiras: as bolsas deles têm valores abaixo dos das áreas de Exatas e as Biológicas, eles não têm muitos financiamentos para pesquisa... Enfim, são áreas que estão descuidadas e abandonadas.
Mas somos nós que podemos, com a História, mostrar que quando um professor desses chama Nelson Mandela de criminoso e terrorista é porque ele é racista e preconceituoso. É porque ele não admite que a diferença exista. É porque ele tem ódio e não sabe que muitos de nós lutamos muito pelo reconhecimento e efetivação de uma política de direitos humanos. Enfim é porque ele não sabe, não conhece e não acessa a História deste homem que mudou o mundo apenas sendo o que ele acredita.
Somos nós que, pela Antropologia, pela Sociologia ou pela Psicologia, podemos mostrar a ele que o sexismo, o machismo, a discriminação da mulher enquanto detentora de direitos e de direito ao seu corpo é o lugar de pessoas que, como ele, não suportam que o outro exista e tenha posicionamento e lugar-protagonista na cena pública.
São as ciências humanas e sociais as áreas que não deixaram morrer a história de luta deste país, da qual a senhora faz parte. Somos nós que podemos tornar uma universidade machista, racista e opressora em um lugar de invenção e imaginação.
Porque é disso que este país e meus filhos precisam para o futuro. E vou te dizer uma coisa, cara presidenta, meus filhos podem ser o que eles quiserem, mas, no que depender de suas mães, eles serão pessoas dignas, respeitadoras dos direitos do outro, livres de preconceitos, contrários a qualquer tipo de racismo e discriminação. Isso, nós aqui em casa podemos fazer...
Mas para a formação deles como profissionais para o mundo... nisso, a senhora podia dar uma mãozinha.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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