Magali Simone de Oliveira
Consumismo e comodismo
Mariáh me liga nervosa no celular. Como sempre estou no clube. Ela está em casa, grudada no computador. Até reclamou que está branca, muito branca, precisando de sol, mas não se animou. Liga-me para reclamar que tem que fazer um trabalho de escola e eu, que não tenho carro, não posso levá-la e buscá-la à casa do colega. É domingo e os horários de ônibus acabam se tornando restritivos. O bairro do amigo de escola é longe. A espera no ponto de ônibus é grande. Pode passar de uma hora. Como pouca gente se arrisca é até perigoso. De táxi ficaria impraticável. Questiono porque ela que é a única a ter os livros necessários para a produção do resumo exigido pelo professor não convidou a turma para fazer a tarefa lá em casa.
- Mãe, eles, todos eles, moram em casas e apartamentos grandes, confortáveis. Chamar esse povo para ir lá em casa? Naquele cubículo que a gente mora? Aí, eles vão descobrir que sou bolsista, que eu não tenho grana, que eu sou diferente deles, mãe. Que eu sou da classe C, D, sei lá. E eles são da classe A ou B. Já tenho dificuldades para arrumar amigos. Imagina quando descobrirem como é a casa onde moro?
Fico brava. Por um momento, não acredito no que estou escutando.
- Como assim, Mariáh! Você tem vergonha da nossa casa? Do nosso apartamento? O apê que eu custei a comprar, que eu custei a ter? Quantas pessoas não tem casa própria? Isso é da gente! E o que tem você ser bolsista? Porque você tem que ter vergonha de estudar com desconto. Não é possível. Não acredito que você realmente pensa assim. Além de tudo, se você não conseguir ir à casa de seu colega, o grupo todo vai perder pontos. Será que o grupo pode perder pontos por causa do seu medo de seu apartamento não estar à altura dos demais?
- Você dramatiza tudo. Não é que eu tenha vergonha da minha casa. É que a minha casa, embora seja boa, não é igual a dos meus colegas. Os meus amigos moram em mansões! O apartamento deles, de todos eles, é o dobro do nosso. Não é tão quente. Todos têm carro, moto. Eu não me sinto confortável com eles em nossa casa. Eles não vão se sentir confortáveis na nossa casa.
- E por que você não faz o trabalho no terceiro andar, onde temos uma área grande, com mesa inclusive? Lá é fresquinho. Vocês vão poder ficar à vontade. Os meninos vão gostar...
-Ah, mãe. Você que acha que eles vão gostar...
-Então, tá! Você vai perder os pontos e eles vão perder os pontos. Tudo por sua culpa! E, o pior. Nós vamos continuar a viver nesse apartamento apertado, quente, com o piso solto. O seu consumismo não vai resolver o problema. E, aí? Aí você vai ter que ralar muito mais para conseguir os pontos que precisa em Ciências para passar. Você sabe que não perdeu média, mas que as suas notas nessa matéria não estão boas. Estou muito decepcionada com você.
Meia hora depois, ela me liga.
-Eles estão chegando.
-Eles quem, Mariáh?
- Uai, os meus amigos. Eles estão vindos fazer o trabalho.
- Tá. Então vou à padaria, compro biscoitos, refrigerante. Você desce com eles e faz o trabalho.
Os meninos chegam, fazem o resumo. Nenhum reclama da casa que estava limpa, organizada e com os problemas de sempre: piso solto, calor infernal, má distribuição de cômodos, azulejos do banheiro estufados.
Depois de os amigos irem embora, Mariáh pede desculpas. Diz que se envergonha de ter sido tão consumista. Ela sabe que pegou pesado, mas é que se sente diferente dos amigos cujos pais têm carro do ano, moram em apartamentos com bom acabamento, em locais valorizados, viajam para o exterior, compram os livros que querem, não têm que fazer concessões do tipo ou isso ou aquilo.
Desculpo. Sei que muitos jovens exibem o tênis da marca tal, a roupa da grife X. Lógico que Mariáh não está certa de ficar com vergonha da casa onde mora porque ela é diferente da dos colegas. Claro que não. Morei muitos anos no Maletta e sempre tive orgulho da minha vivenda. Sempre tive a impressão que o meu colchão era mais macio que os demais (mesmo que isso não seja verdade). E sempre tratei tão bem os meus colegas e amigos que nunca passou pela minha cabeça comparar o meu apê como os apartamentos confortáveis e luxuosos que eles moravam. Nunca pensei que eles pudessem me desvalorizar por causa da simplicidade da minha casa. Acho que isso nunca aconteceu.
Para Mariáh, eu não tenho vocação para o consumo. Sou uma hipponga, perdida no século XXI. Pode ser que sim. Mas penso, que a falta de vocação para o consumismo não pode ser desculpa para o talento para o conformismo. Realmente, o piso daqui de casa está soltando. O apartamento é velho e pequeno. Precisa realmente de reformas. Mudanças com as quais sonho. Converso com Mariáh. Temos um papo super cabeça sobre consumismo. Revemos gastos, refazemos cálculos e planejamos cortes nas despesas.
Acabou que conseguimos juntas transformar o que podia ser uma crise de adolescente em uma forma de crescimento mútuo. O consumismo não é o caminho. Mas o conformismo – foi esse o apartamento que eu consegui comprar! Ô coitada de mim!- também não leva a nenhum lugar. Resolvi arregaçar as mangas. Ela vai continuar trazendo os colegas para cá. E não vai ter mais vergonha da sua situação financeira. E eu vou tentar agilizar essa reforma. Quando uma coisa nos incomoda, temos que mudar. Não em nome do consumismo. Mas porque não podemos nos conformar. Talvez nunca tenhamos a grana que os colegas dela têm Talvez a reforma ainda demore. Mas vamos crescer. Dentro dos nossos padrões, com o nosso tempo, com o nosso ritmo. Acordando todos os dias, lutando com nossas forças e sonhando, sonhando muito. Sonhando enquanto caminhamos rumo aos nossos ideais.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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