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Betzaida Tavares

Conversa de meninas

Moram na mesma rua, têm a mesma idade e estudam na mesma escola. Estão sempre juntas, brincam de boneca, andam de bicicleta e, quando conseguem uns trocados, compram balas e revistas na banca da esquina. Também gostam de conversar, assuntos de meninas e assuntos de adulto não entendem direito, mas queriam muito entender. Um dia, Bárbara chegou muito séria e disse à Isabela:

– Quando crescer, vou ser ateia.

A amiga ficou apavorada. Àquela época, por conta de uns filmes que assistira escondido dos pais, andava com um medo danado do demônio. Há várias semanas, Isabela não dormia direito, não deixava que apagassem a luz do quarto, pois temia que, no escuro, ele, o coisa-ruim, viesse visitá-la. Para lhe tirarem o medo, alguém, sua irmã mais velha provavelmente, disse-lhe que era só acreditar em Deus, não duvidar nunca de sua existência e rezar o pai-nosso todos os dias antes de dormir para que o diabo não aparecesse em seu quarto. (Rezar o pai nosso antes de dormir tornou-se um hábito que Isabela adotou pelo resto da vida, até mesmo nos momentos mais incrédulos). Pode se imaginar, portanto, que a menina passou a temer o ateísmo mais do que qualquer outra coisa. Por isso, quando Bárbara apareceu com aquela novidade, ela, amiga zelosa, resolveu dissuadi-la daquele precoce desejo de ceticismo.

– Mas por que você está falando isso?

– Não tem lógica. Se Deus gosta de todos iguais, por que os homens não têm filhos? Só as mulheres sentem a dor do parto, já pensou nisso? – embora meninas, já sabiam como as crianças vêm ao mundo e tinham muito medo da dor do parto.

– Mas tem o lado bom e o lado ruim de ser homem. Homem não sente a dor do parto, mas também não pode usar saia, não pode passar batom... – a feminista que Isabela se tornaria anos depois, certamente teria uma síncope ao ouvi-la falar daquela forma.

– Sim, mas você se lembra. A professora outro dia falou que não cai uma folha da árvore se Deus não quiser, não é mesmo?  

– É verdade, e daí?

– Se tudo o que acontece é da vontade de Deus, como você me explica esse tanto de maldade que tem aí no mundo? Esse tanto de pobre, criança na rua, gente que é assassinada. Se Deus é bom e tudo que acontece é vontade dele, como é que ele pode querer tanta coisa ruim? – ela falava com a lógica e a precisão da advogada que viria a ser muitos anos mais tarde.

Isabela perdeu o chão. Não podia negar que o que a amiga dizia fazia sentido. Ao mesmo tempo, a menina temia a dúvida como se teme o próprio demônio.

– Mas Bárbara, como pode não existir Deus? Como você me explica tudo que tem no mundo? Quem construiu o sol, os planetas, a água? Como tudo pode existir se não existe Deus?

A amiga ficou pensativa por alguns instantes. Isabela aguardou em silêncio. Por dentro, vibrava antecipadamente com sua vitória sobre os argumentos da futura advogada. Passado um tempo, Barbara responde, com o dedo em riste:

– Está certo. Deus pode até existir. Mas, ele tem muito o que se explicar. Ah, isso ele tem!           

 

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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