top of page

Regina Helena Alves Silva

Mãe Lena, eu desenhei letras igual a você!!!

Meu filho escreveu suas primeiras letras. Me chamou e falou: "Mãe Lena, eu desenhei letras igual a você!!!"
Eu não desenho letras, digito em um teclado, com os dedos batucando sobre elas. Mas ele desenha. Na mesma hora. minha filha mais nova gritou que também queria desenhar letras e fomos todos para a parede liberada,, pra podermos rabiscar à vontade nossas letras. Há quanto tempo eu não desenhava letras...
As crianças sempre nos ensinam como antes a vida era mais intensa, poética, simbólica e bela. As crianças desenham e nós... nós teclamos.
Meu filho me imita e se senta ao meu lado no sofá, com um livro, dizendo que está lendo.
PS: Meu filho tem 3 anos e 9 meses e minha filha 2 e 4 meses.
Ele passa as páginas e mostra pra irmã algum detalhe nas ilustrações e eles começam a contar uma história. Suas histórias misturam elementos do livro, dos livros que já lemos pra eles, da vida cotidiana, das coisas da escola, do que vêem nos DVDs, de tudo.

Eles também pegam meu iPad, que chamam de Papai Noel, e o meu celular, que chamam de Pombinha Branca e às vezes de telefone.

Papai Noel foi o primeiro aplicativo, que eles aprenderam logo que chegaram aqui em casa. Vieram lá do abrigo, onde só viam desenhos do Picapau. Tinham uma brinquedoteca de doações, com brinquedos um tanto avariados.
Nos primeiros dias que estavam na nossa casa, tinha alguns brinquedos que compramos e mais um monte que todos os amigos trouxeram. Mas eles olhavam para aquilo do mesmo jeito que olhavam pros brinquedos no abrigo - como se sempre estivessem ali - e não tinham muito interesse.
Mas um dia eu, completamente sem saber o que fazer com a birra do meu menino, peguei o iPad e baixei a primeira coisa que vi na minha frente: era um app do Papai Noel, desses que imitam a gente falando e fazem poucas e pequenas coisas.
Eles não acreditaram quando eu deixei eles brincarem com aquele pedaço de metal que falava e que mexia  quando eles o tocavam com seus dedinhos. Em dois minutos, minha filha, ainda com 1 ano e meio naquela época, descobriu o famoso “um botão” da Apple. Hoje já baixei mil e um aplicativos que eles dominam como ninguém. Desenham, colorem, quebram a cabeça, acham músicas, tudo...
Depois disso, um belo dia, eu escuto uma musica que eu só tinha no celular. Cheguei na sala e vi minha filha com a cara mais santa do mundo, com meu celular na mão, dançando e ouvindo um grupo de música que conheci em Portugal: Deolinda. Ela ria e achava a coisa mais linda do mundo... E eu pensava: como ela conseguiu destravar o celular?
No celular, agora eles podem acessar todas as músicas da Galinha Pintadinha, santo remédio para almoços em restaurantes. Meus filhos chegaram em casa há pouco tempo e nesse pouco tempo desenham letras e ficaram multimidiáticos.  Isso tudo me faz pensar em duas coisas tão discutidas nos tempos atuais: o papel da escola na educação dos nossos filhos e a tal da tecnologia.
Sou professora. Sou professora há muito tempo. Sou neta de professora e sobrinha de professora, que foi quem me levou pro meu caminho. Tenho um orgulho esquisito de ser professora... porque tenho orgulho de ser professora, jamais admiti que me chamassem de educadora, essa coisa que agora todo o mundo acha que é o politicamente correto. E como professora de História passei toda a minha vida profissional enfrentando um monte de preconceitos do tipo "Nossa! Tão inteligente e virou professora" - minha mãe fala isso até hoje - ou "Não deu pra nada e foi fazer História". A Historia é outro lugar do qual sinto orgulho de pertencer, mas minha coluna de hoje não é sobre os meus orgulhos...
Disse isso só pra deixar claro que sou desta área e gosto de ser. E desde que entrei na UFMG nunca deixei de fazer projetos com escolas de ensino fundamental, mesmo quando isso era considerado menor e todos diziam que quem fazia projetos de extensão na universidade era porque não conseguia ser pesquisador. Sou pesquisadora e tenho orgulho de fazer projetos de extensão.
Trabalhar com escolas me fez acompanhar, durante anos, um monte de mudanças e propostas pedagógicas “inovadoras e transformadoras”. Algumas eram e são isso mesmo. Outras pura conversa fiada. Meus projetos sempre foram estranhos porque sempre envolveram tecnologia... uma historiadora, professora de história que faz projetos de extensão com tecnologia? Por tudo isso me considero um pouco autorizada pra falar de educação, escola e tecnologia.
Como tenho esse perfil, sou chamada para falar em um monte de lugares não-acadêmicos que discutem educação e tecnologia. Já participei de debates em que os outros debatedores eram ferozes atacantes dos games e das crianças jogarem joguinhos. Eu faço games. Acabei de montar um pequeno laboratório de desenvolvimento de games para escolas e de aplicativos para celulares e oriento dissertações e teses sobre games. E mais: adoro jogar games...
Então, sou sempre aquela senhora de cabelos grisalhos nas mesas de debates que defende os games para as crianças. Meus filhos jogam joguinhos nos meus computadores. 
Num desses debates que fui participou um indiano, desses que o Brasil adora. Ele dizia que, para crianças, basta dar um computador e internet e... elas aprendem.

Para nos provar isso, foi escolhida uma favela (é claro) de São Paulo, onde foram distribuídos computadores a um grupo de crianças. Nosso amigo indiano, pesquisador do MIT, disse a esses meninos que eles deveriam pesquisar e desenvolver um trabalho sobre um tema que na hora se discutiu e foi escolhido: sonhos. Quando voltamos, uns dias depois, os meninos tinham um monte de coisas “pesquisadas” e algumas pessoas (o indiano inclusive) ficaram orgulhosas quando viram que as crianças tinham aprendido tanto que até chegaram a várias coisas sobre... Freud.  A questão é que qualquer Google encontra Freud quando digitamos a palavra sonho para ser buscada. É apenas um buscador, não é uma pesquisa, não é um aprendizado. A Google não é um professor. Muito menos uma escola.
Os meninos daquele lugar, eu tenho certeza, usaram aqueles notebooks pra coisas bem mais legais do que pesquisar sobre sonhos. Provavelmente eles sonharam com um monte de coisas quase impossíveis pra eles.
Eu sou a historiadora tecnológica, mas odeio coisas desse tipo, esses deslumbramentos, essas modices que detestam escolas e professores.
Meu filho aprendeu a desenhar letras e não foi nos meus muitos computadores. Foi na escola. Foi com sua professora jovem, bem jovem, que fica com ele brincando, mas ensinando a vida. Ela pendura letras em um varal na parede da sala, ao lado do quadro da rotina diária deles, que fica um pouco abaixo das lista de nomes dos colegas, onde são marcados todos os dias os nomes daqueles que vão ajudá-la.
Assim meu filho aprendeu a desenhar as letras, a ter horário e saber quando parar uma coisa e começar outra. Ele também sabe qual é o nome dele na hora de ser ajudante.
Nenhum computador dependura as letras ao lado da rotina, abaixo da lista de ajudantes, só a professora na parede da escola. O computador faz outras coisas que são importantes e fundamentais nos tempos atuais, mas isso que a escola faz é impossível dele fazer.
Escolhi a escola dos meus filhos, mas não na expectativa de que ela fosse suprir nossas deficiências como mães. Uma das grandes reclamações que escuto dos professores com quem desenvolvo meus projetos é a ideia de que os pais entregam os filhos pra escola educar. A escola não pode e não é esse lugar, a escola é uma instituição onde nossos filhos vão aprender um monte de coisas, mas não é o único lugar que os forma pra vida. A maioria de nós sabemos disso, mesmo as crianças passando cada vez mais tempo na escola. A escola as educa socialmente e nós temos que fazer mais do que isso.
A escola que escolhemos pros nossos filhos tem nos ajudado muito, mas muito mesmo, a sermos mães, mas ela não é a mãe dos nossos filhos. Seus professores têm sido fundamentais em todos os aspectos e dificuldades que encontramos na criação de dois irmãos que nos chegaram já com tanta história e tantas memórias que não acessamos.
A escola e a tecnologia fazem parte de nossas vidas, os professores e os games são parte de nosso cotidiano. Não entendo a minha profissão, nem o fato de agora ser mãe, como uma missão. Eu os entendo como um desejo de vida.
Eu vejo meus alunos, que trabalham em meus projetos, discutindo, elaborando projetos, desenvolvendo ideias, criando possibilidades e ampliando alternativas pra milhares de coisas. Eles têm raciocínio rápido, criatividade absurda mas o principal de tudo é que eles fazem isso juntos, de forma compartilhada, desenvolvem tecnologia em um espaço comum a todos nós, vivem as experiências uns dos outros. É isso que o mundo mais tecnológico de hoje pode propiciar, não uma pesquisa boba na internet, mas um mundo compartilhado, um mundo de/em invenção. É isso que meus filhos também têm na escola onde estudam. Lá não tem nenhum computador pros alunos, não tem sala de informática, nem telecentros. Lá tem cooperação, compartilhamento, um espaço comum de aprendizado.
Este é o mundo do século XXI e nós ainda estamos discutindo se devemos acabar com a escola ou se os professores conseguem lidar com tecnologia ou não. Se os pais educam seus filhos ou deixam para a escola fazer isso.
O século XXI exige que, finalmente, enterremos as concepções de educação do XIX para que possamos finalmente começar a compartilhar a invenção de podermos desenhar letras com nossos filhos ao som da Galinha Pintadinha tocando nos nossos smartphones.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

© 2012 by Daniela Mata Machado Tavares. Todos os direitos reservados

contato@bhdameninada.com

bottom of page