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Regina Helena Alves Silva

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Do meio pro fim 2

Nos Ășltimos tempos, eu e um monte de gente temos ficado estarrecidos com a quantidade de barbaridades que as pessoas escrevem na internet sobre coisas a respeito das quais entendem muito pouco, mas tĂȘm opiniĂ”es absolutamente formadas. SĂŁo pessoas que se julgam acima do bem e do mal, justiceiros, sabedores das leis, moralistas, detentores da razĂŁo suprema.
Ontem um amigo foi brutalmente agredido no Facebook porque alguĂ©m nĂŁo concorda com as opiniĂ”es dele. Disseram que ele sĂł podia pensar o que pensava porque tinha “limitaçÔes fĂ­sicas”. Existe mesmo criatura neste mundo que julga que isso Ă© argumento?
 
Segunda-feira, o governador de Sergipe morreu de cĂąncer e um monte de gente “celebrou” sua morte nos sites de jornais e revistas e nas redes sociais. Fico me perguntando como se pode celebrar a morte de alguĂ©m. Muita gente que fez muito mal Ă  humanidade jĂĄ morreu e morrerĂĄ sempre, mas se um de nĂłs celebra uma morte, se coloca no mesmo patamar daquele que procurou atacar. Como alguĂ©m pode celebrar a morte de alguĂ©m aos 53 anos de idade, vĂ­tima de uma doença que foi o consumindo? Quem pode celebrar uma morte por cĂąncer? Que tipo de gente se julga nesse direito?
 
Eu jĂĄ vinha meio desacorçoada com um fato que aconteceu na semana passada. No meio dessa onda de ataques gratuitos e sem sentido, uma mĂŁe disse que seu bebĂȘ havia sido roubado... Depois se descobriu que ela o havia doado. A sanha enlouquecida dos moralistas que vĂŁo salvar o mundo, nos condenando Ă  danação eterna, atacou a jovem mĂŁe sem dĂł nem piedade: vagabunda, safada, ordinĂĄria, bandida e outras designaçÔes que nĂŁo ficam bem em um site infantil.
Esse episĂłdio diz muito de quem sĂŁo essas pessoas que passam suas vidas acusando, julgando e condenando os outros sem nenhuma prova e, Ă s vezes, sem nenhum indĂ­cio.
A mĂŁe Ă© uma jovem cheia de dĂșvidas como milhares de jovens na idade dela. Isso nĂŁo justifica mentir para a polĂ­cia, mentir para todos aqueles que se mobilizaram na busca de seu filho, mentir pra si mesma. Essa jovem cometeu um delito, deve pagar por ele e ponto.
Mas as pessoas nĂŁo se contentam com a justiça, elas querem um linchamento pĂșblico. Incitam a violĂȘncia e o ataque ao outro como forma resolverem suas frustraçÔes por nĂŁo terem tido os privilĂ©gios de que se julgam merecedoras.
No fundo Ă© isso: elas atacam aqueles que julgam ser os mais frĂĄgeis.
NĂŁo vi ninguĂ©m atacando o site e ou a pĂĄgina do Facebook que induz mulheres a “doarem seus filhos em vez de matĂĄ-los” (sic)... NĂŁo vou comentar esse tipo de frase porque ela Ă© tĂŁo absurda que nĂŁo merece comentĂĄrios.
Logo que vi a notĂ­cia e a questĂŁo do site, corri para achar essa pĂĄgina no Facebook. Seus administradores, temendo serem processados (e devemos lutar para que sejam), postaram, no dia em que ficamos sabendo que a jovem mĂŁe havia doado seu filho, o seguinte texto em letras maiĂșsculas: “SAIBA COMO ADOTAR UMA CRIANÇA NOS ÓRGÃO RESPONSÁVEL (sic) ABAIXO! AS ETAPAS DO PROCESSO DE ADOÇÃO
”
A partir daí, a tal fanpage informa como se då um processo legal de adoção. Essa pågina foi criada em meio de 2013 e só se lembrou de postar o processo legal de adoção no final de novembro? Justamente quando aquela jovem mãe disse que se guiou por sites como esse na internet?
Um dos sites que a policia investiga continha a seguinte frase: “Não entre em fila de adoção''.
 
Essas pessoas que destilam Ăłdio e veneno na internet nĂŁo querem mudar nada, nĂŁo querem ver o mundo transformado. Elas tĂȘm Ăłdio de nĂŁo fazer o que acusam os outros de fazer. Na verdade, elas pensam que nĂŁo tiveram a oportunidade de roubar, de ser corruptas, de dar um jeitinho ou de lucrar com alguns privilĂ©gios. Se nĂŁo tiveram essa oportunidade, elas nĂŁo a querem para ninguĂ©m.
Por isso, esse tipo de gente acusa a mĂŁe: ela Ă© a ponta frĂĄgil, mais fĂĄcil de atacar. A mulher-monstro que nĂŁo quis seu filho. Essas pessoas nĂŁo atacam os homens que abandonam seus filhos.
NĂŁo vi ninguĂ©m pedir que os sites sejam fechados e processados por induzir ao crime. É mais difĂ­cil brigar contra um site, contra grupos organizados, grupos religiosos moralistas e preconceituosos. É mais fĂĄcil atacar a mĂŁe e chamĂĄ-la de vadia.  
Esses sites e essas pessoas devem ser responsabilizados pelo que provocam. Induzir ao crime e dizer – claramente – que se deve burlar a lei jĂĄ Ă© algo passĂ­vel de processo, mas induzir as pessoas a uma “barganha” com crianças deveria ser crime inafiançåvel.
O Brasil tem uma grande fila de adoção mas isso nĂŁo significa que devemos ludibriar essa fila para “termos a vantagem” de “conseguir” um filho sem “ficar presos a burocracia”. Tantas aspas em uma sĂł frase sĂŁo para ressaltar a forma como os que se julgam guardiĂ”es da moral e dos bons costumes se referem Ă  adoção legal.
Esses sites e pessoas defendem aqueles que comercializam a vida de pequenos, que os vendem por grandes somas ou utilizam o argumento de serem contra o aborto como forma de obter lucro com negócios envolvendo as crianças. São essas as pessoas que querem julgar uma mãe que entregou seu filho para a adoção ilegal.
Não sei como é a cabeça de uma mãe que entrega seu filho, não faço a menor ideia do que a move nessa hora. Não sei o que sentem depois e durante o resto de suas vidas. Sei que muitas entregam por não terem nenhum tipo de condição de cuidar de seus filhos. Eu estou do outro lado desse longo fio de história. Sou aquela que recebeu a criança, que a quis, que pode cuidar dela.
Estou aqui sentada, olhando meus filhos ali do outro lado da sala, com a outra mãe deles. Estão terminando de comer gelatina. Toda vez que olho pra eles me pergunto como alguém pÎde deixå-los, mas um segundo depois eu respiro e penso que se alguém não conseguiu cuidar deles, eu e Sílvia eståvamos ali para fazer isso. Se alguém não pode amå-los ou os amou tanto que resolveu deixå-los, nós duas eståvamos do outro lado da linha, esperando por eles.
Funciona assim a adoção legal. Ela protege as crianças e as novas mães e pais que as querem. Não se trata de burocracia, trata-se de cuidado e atenção para garantir uma vida melhor a essas crianças que, ainda tão pequenas, enfrentam tantas adversidades.
A adoção é um processo lento, tem muitas fases pelas quais que devemos passar e muitas etapas a enfrentar na justiça. Esse processo vai nos preparando para a vida com crianças que não geramos, mas que vão se tornando nossos filhos.
Hå pouco tempo escrevi uma coluna aqui sobre como nossos filhos se tornaram nossos. Ainda temos apenas a guarda provisória. Nosso processo ainda estå na justiça.
Enquanto aguardamos a adoção legal vou vendo este mundo louco onde os encontramos. Um mundo violento, agressivo, intolerante. Com tudo o que estamos vivendo nesses Ășltimos anos, com a decisĂŁo, espera e chegada de nossos filhos, nĂŁo consigo agredir a jovem mĂŁe que entregou seu filho. Algo ocorreu com ela que a fez, inclusive, mentir sobre o que aconteceu. NĂŁo me cabe julgĂĄ-la e aprendi isso porque o primeiro e grande esforço que fiz quando meus filhos chegaram foi nĂŁo julgar a mĂŁe biolĂłgica deles. Mais uma vez, nĂŁo me cabe julgĂĄ-la. AliĂĄs, nĂŁo me cabe julgar ninguĂ©m. NĂŁo julgo mĂŁes. Apenas vou tentando ser uma delas, da melhor maneira que consigo.
 
NĂŁo me cabe julgar polĂ­ticos, me cabe criticĂĄ-los, apontar seus desvarios, ser oposição a eles. Me cabe, sim, nĂŁo votar mais neles, nĂŁo elegĂȘ-los e tentar alertar as pessoas de que elas tĂȘm o direito a um voto digno. NĂŁo me cabe, de forma nenhuma, dizer de um polĂ­tico que morreu de cĂąncer mereceu esse fim. Nem a pior pessoa do mundo merece que eu diga a ela que ela deve sofrer. NĂŁo me cabe dizer de um pai de famĂ­lia que morreu de cĂąncer que ele mereceu ter um filho com SĂ­ndrome de Down. Um pai que transformou seu filho em uma de suas razĂ”es para lutar pela vida.
 
NĂŁo me cabe dizer a ninguĂ©m de quem eu discorde que ele pensa diferente de mim porque Ă© um “aleijado”.
 
O que me cabe neste mundo Ă© tentar dizer Ă s pessoas que fazem esse tipo de coisas que meus filhos, os filhos dos meus amigos, os netos e os sobrinhos merecem um mundo infinitamente melhor do que este que jĂĄ estĂĄ “do meio pro fim.”
 
Cena 1 – Brasil:  vĂĄrias pessoas sentadas em mesas de bar bebem e comem ao som de um show, ao lado de um “corpo estendido no chĂŁo”. Fizeram isso por horas. Um assassinado, um lençol e uma polĂ­cia que demorou a aparecer.
 
Cena 2 – IslĂąndia: um homem em surto pega um rifle e começa a atirar da janela de sua casa. A polĂ­cia chega rapidamente e tenta, de todas as maneiras, retirĂĄ-lo da casa. NĂŁo consegue. Entram na casa e ele reage, Ă© baleado e morre. É a primeira morte da polĂ­cia da IslĂąndia, que enviou as condolĂȘncias Ă  famĂ­lia lamentando nĂŁo ter podia evitĂĄ-la.
 
Nossos amores merecem viver na cena 2.

Regina Helena Alves Silva Ă© professora da UFMG. Graduada em HistĂłria e CiĂȘncias Sociais, com mestrado em CiĂȘncia PolĂ­tica e doutorado em HistĂłria Social. Coordenadora do Centro de ConvergĂȘncia de Novas MĂ­dias-UFMG, atua nas ĂĄreas de histĂłria social da cultura, comunicação e prĂĄticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, Ă© mĂŁe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este Ă© um artigo autoral, que reflete as opiniĂ”es do colunista e nĂŁo do veĂ­culo. O website BH DA MENINADA nĂŁo se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informaçÔes, conceitos ou opiniĂ”es do (a) autor (a) ou por eventuais prejuĂ­zos de qualquer natureza em decorrĂȘncia do uso das informaçÔes contidas no artigo.

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