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Cristina Silveira

O que a educação dos nossos filhos tem a ver com a violência contemporânea?

A violência não é um estigma da sociedade contemporânea. Ela acompanha o homem desde tempos imemoriais, mas, a cada tempo, ela se manifesta de formas e em circunstâncias diferentes. Não há quem não identifique uma ação ou situação violenta, porém conceituar violência é muito difícil visto que a ação geradora ou sentimento relativo à violência pode ter significados múltiplos e diferentes dependentes da cultura, momento e condições nas quais elas ocorrem. Para compreender as ações de violência implica decifrar “o que pensa”, “o que significa” e, principalmente, “como a sociedade representa” a violência (MOSCOVICI, 1978). O desenvolvimento da civilização em seu processo histórico mostra que as transformações tecnológicas, ambientais, filosóficas, psicológicas, econômicas, religiosas influenciam e contribuem para a modificação e o surgimento de novos circuitos biológicos, psicológicos e sociais. Entretanto, não elimina a presença de circuitos primitivos que, em determinadas circunstâncias, emergem, até porque fazem parte de registros genéticos transmitidos ou culturalmente herdados.
 
Todos somos potencialmente violentos. A maneira de administrar essa agressividade é que nos diferencia uns dos outros. Alguns encontram formas construtivas para canalizar a própria destrutividade. Mas há os que – influenciados por fatores endógenos e exógenos - costumam descarregar nos outros a sua violência.
 
Mas o ser humano tem a possibilidade de mudar o destino original de suas energias instintivas. Por isso, Freud (1915) adotou a expressão Trieb (traduzida para pulsão em português) ao referir-se aos instintos humanos e reservou o termo Instinkt (instinto) para as outras espécies animais. Ele queria marcar a diferença entre o automatismo dos outros animais e a plasticidade dos humanos. A pulsão é um representante psíquico de um estímulo vindo do corpo. No bebê recém-nascido, as pulsões são energias indefinidas que têm somente o objetivo pré-determinado. Tomemos por exemplo as pulsões da nutrição, cujo objetivo é sempre o alimento. Mas o objeto e o modo de satisfação serão definidos pela história do indivíduo. Enquanto um bebê é saciado pelo leite do seio materno, outro recebe mamadeira de leite em pó, e um terceiro é alimentado com água e alguma farinha que a família tenha à mão. Além disso, o estado emocional de quem alimenta esses bebês também pode variar desde a empatia serena e carinhosa até a desatenção angustiada e agressiva. Obviamente essas irão determinar experiências bem distintas para cada bebê, o que será decisivo na formação da personalidade de cada um. Por exemplo, se um bebê precisar esforçar-se muito para ser atendido, estabelecerá um padrão contundente para demandar a satisfação de seus impulsos. Ou seja, a qualidade do atendimento às necessidades físicas e emocionais determinará a quantidade de impulsos agressivos desenvolvidos em cada criança.  A personalidade será uma combinação da herança genética com as influências familiares iniciais e as circunstâncias da vida social posterior de cada um.
 
Mas a interferência do ambiente pode reforçar ou modificar a correlação entre essas forças. O ambiente exercerá uma influência decisiva sobre o indivíduo durante toda a sua vida. Se o ambiente devolver as agressões ao sujeito, reforçará seus instintos primitivos e estará formado um círculo vicioso regido pela Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”. A ineficácia das instituições públicas, a corrupção e o peculato, os privilégios das minorias, a impunidade dos poderosos, os impostos abusivos e o mau uso do dinheiro público são fatores que geram revolta e intensificam a agressividade da população. Essa violência é descarregada no cotidiano e atinge quem não tem culpa.
 
O ambiente que negligencia ou maltrata, reforça a destrutividade dos indivíduos. Mas, ao contrário, o ambiente que oferece acolhimento e empatia tem o poder de abrandar os impulsos destrutivos e ajuda muito no amadurecimento do ego primitivo. Uma atmosfera emocional benigna favorece que o indivíduo evolua. Ele terá que rever suas percepções em relação ao ambiente, que, afinal de contas, não era tão maligno quanto ele acreditava. O sujeito será levado a admitir que a hostilidade que tanto o assustava e que ele atribuía aos outros, na verdade, são seus próprios sentimentos diante das situações de desconforto. Ao reconhecer que andou atacando quem o trata bem, sentirá culpa e necessidade de reparar. Essas mudanças são um marco de amadurecimento e de saúde emocional. A partir daí, o sujeito pode ter uma percepção mais integrada e completa de si, dos outros e das situações.
 
O ego saudável, nos seus esforços para adequar-se ao ambiente onde está inserido e também para atender os seus ideais mais elevados, desenvolve mecanismos de defesa contra os seus impulsos inoportunos, inclusive os destrutivos. Melaine Klein citou a  sublimação, como um mecanismo que consiste na renúncia aos prazeres prejudiciais para o sujeito e para os outros, substituindo-os por  gratificações mais construtivas. As sublimações, sobretudo, as que se originam na infância, dependem da presença de modelos, de incentivos que o ambiente forneça direta ou indiretamente. Winnicott, psiquiatra e pediatra inglês, afirmava que o ambiente externo é quem determina o rumo para a agressão inata do bebê. Segundo ele, se o ambiente for saudável, a agressão passa a integrar o ego como uma energia construtiva usada para criar, brincar e trabalhar. Caso contrário , se houver uma privação de suas necessidades físicas ou psicológicas, a agressão da criança será direcionada para a destrutividade e violência,levando-o ao  adoecimento emocional.
 
Mas o que fazer, na prática, para oferecer uma boa construção da personalidade nos nossos filhos, evitando que se tornem seres violentos?
 
As bases da personalidade se formam durante os três primeiros anos de vida. A verdadeira prevenção à violência deve ser feita nesse começo da vida. Esse processo prossegue até o final da adolescência, mas são as vivências dos primeiros anos que determinam as tendências que a formação irá seguir. Depois disso, as mudanças só ocorrem sob condições especiais, como as psicoterapias. É a primeira infância que vai moldar o tipo de pessoa que a criança será quando adulta. Então, para a sociedade é muito importante que as crianças recebam os cuidados e a educação adequados. O indivíduo que pode desenvolver e expressar a própria essência é realizado e feliz. Uma sociedade que facilite aos seus membros a realização pessoal previne a violência. Isso não tem muito a ver com dinheiro, mas com as sensações subjetivas de realização do eu, de liberdade, capacidade e auto-estima.
 
A importância da educação nesse processo
 
Nesse contexto, o aspecto a ser considerado então é prioritariamente o da educação. Além do papel de bom provedor – físico e psicológico, o ambiente (família, escola, sociedade) tem também outra função decisiva para a formação da personalidade da criança, que é o de civilizá-la. Nós humanos não somos seres naturalmente gentis e generosos. Nascemos egocêntricos e cheios de impulsos inconvenientes. Precisamos que nos ensinem a ter consideração com os outros e a conter nossos ímpetos antissociais como já foi falado aqui. É evidente o enorme valor da educação para ajudar a criança a dominar seus instintos. O desmame, os hábitos de higiene, os limites à sexualidade, todas as restrições aos excessos dos impulsos são parte desse processo de construção da civilidade. Inicialmente as renúncias são impostas pelo ambiente externo. Os primeiros educadores da criança são os modelos que ela vai copiar e que passarão a fazer parte da sua personalidade, ou seja, os pais e responsáveis. À medida que a criança vai introjetando os preceitos de seu ambiente, gradativamente ela mesma passa a exigir-se comportamentos baseados na civilidade.
 
Na adolescência e vida adulta, a educação escolar, do trabalho e das relações sociais irão complementar os valores internalizados na infância. Quando Einstein perguntou a Freud o que se poderia fazer para evitar aos humanos o destino da guerra, este apontou a educação, para que a vida instintiva seja submetida ao domínio da razão, argumentando que as modificações psíquicas que acompanham a evolução cultural são notáveis. Mas se o ambiente inicial da criança não pratica a consideração pelo outro e o respeito às leis, isso será introjetado e repetido por ela.
 
Ou seja, as agressões sofridas na infância : violência física, violência psicológica ou negligencia são determinantes no desenvolvimento posterior do adolescente e do adulto. Fatores que podem culminar em seres violentos, inescrupulosos e agressivos, se não houver interferência a tempo.
 
Mas, como lidar com a criação dos filhos num ambiente violento?
 
Como disse, as crianças se espelham inicialmente em seus modelos parentais e em seus valores e comportamentos. A criança estará introjetando esses valores familiares. Se ela tem internalizado esses valores, caberá à família e escola proporcionar-lhe um ambiente acolhedor, onde essa criança possa prosperar e desenvolver suas capacidades cognitivas , emocionais, morais e criativas com segurança.
 
Mas em algum momento, possivelmente, em vários momentos de suas vidas, essa criança,   adolescente ou adulto, irão lidar com a agressividade e a violência alheia, vindas de pessoas que não tiveram a oportunidade do acolhimento e da compreensão ambiental, nem mesmo quando eram bebes. São pessoas que já adultas, necessitam de ajuda profissional, e que em muitos casos, já se enveredaram pelos caminhos tortuosos das drogas, da criminalidade e da violência. São aqueles que queimam ônibus, matam mendigos, que matam pessoas por qualquer coisa e qualquer motivo.
 
Infelizmente, não podemos privá-las do convívio social. Impedi-las da convivência social seria privá-las de seu próprio desenvolvimento emocional e do seu processo de amadurecimento humano. Protege-las demasiadamente, trancando-as numa redoma seria prejudicá-las demais, tornando-as cidadãs e cidadãos inseguros e incapazes de lidar com a sua realidade. Pessoas frágeis, impedidas de construírem o seu destino e sua realização pessoal e social.
 
Devemos ter a certeza de que a nutrição psíquica dada às nossas crianças pelo ambiente foi suficientemente boa,  remetendo a elas essa certeza, sem hesitação. Podemos orientá-las em relação aos perigos do mundo concreto, aos cuidados necessários para se evitar uma exposição desnecessária, à solicitar ajuda quando necessário. E principalmente a se defender.
 
Além disso, devemos confiar em nossa capacidade de criar cidadãos do bem, corretos, justos, solidários e humanos. Porque depende deles o futuro de uma nova geração. Depende deles talvez, o cuidado para com o outro, que não teve uma oportunidade de acolhimento e de cuidado. Cabe a nós, pais, educadores, profissionais, governantes e a toda a sociedade essa missão: criar uma geração mais justa e mais nutrida de amor.

 

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,

especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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