Cristina Silveira
Educação inclusiva existe?
Nesta semana, em que estamos lançando, junto com o Dr. Walter Camargos, o livro Síndrome de Aspergers e outros transtornos do espectro do autismo de alto funcionamento – Da avaliação ao tratamento, onde escrevi sobre A realidade da inclusão escolar, não poderia deixar de comentar sobre isso.
Afinal, o que é educação inclusiva? Ela não se resume à matrícula do aluno com deficiência na turma comum ou à sua presença na escola. Precisa ser um espaço para a convivência, um ambiente onde ele aprenda os conteúdos socialmente valorizados para todos os alunos da mesma faixa etária, além de seu sucesso acadêmico.
Contudo, na nossa prática profissional, ainda nos deparamos com o despreparo e desinteresse de várias escolas para lidar com as necessidades que um aluno de inclusão escolar apresenta. Isso para não mencionar a recusa em recebê-los na escola, dificultando ao máximo o seu ingresso e a efetivação da matrícula. Com isso, o ambiente escolar que deveria ser considerado o principal espaço de socialização dessa criança, que deveria proporcionar a experiência do aprender, da vivência acadêmica e social em uma sociedade plural, passa a ser palco de perseguições, de bullying, de descaso e de desentendimentos que muitas vezes são levados ao Ministério Público ou à Defensoria Pública para serem solucionados. Dessa forma, muitas famílias são obrigadas a retirarem os filhos da escola por receio de perseguições e passarem por várias instituições escolares, expondo a criança a mudanças constantes, em uma verdadeira via sacra, sem a possibilidade da criação de vínculos e de uma rotina tão importante para os pequenos.
O que testemunhamos é que, embora algumas escolas privilegiem um discurso de aceitação à diversidade, na prática não se modificam para dar conta das especificidades de aprendizagem e desenvolvimento de todos os alunos, deixando aos profissionais especializados a responsabilidade pela resposta educativa a ser dada àqueles que apresentam necessidades educativas especiais. Ou seja, é só um discurso.
Então, a educação inclusiva existe? Existe sim, a priori, nas leis. Existem muitas leis e normas publicadas. Uma rica legislação está à disposição das escolas e das famílias sobre o assunto. Contudo, a legislação não está sendo praticada na maioria das escolas de BH. Pelo que pesquisamos, o mesmo acontece em outros estados do Brasil.
A implementação de um sistema de educação inclusiva exige que a escola reorganize sua estrutura de funcionamento, seu currículo, sua metodologia e seus recursos pedagógicos e, principalmente, garanta que seus professores estejam preparados para essa nova realidade. Sua implementação exige uma reviravolta em nível institucional, a extinção de categorizações e das oposições excludentes – iguais/diferentes, normais/deficientes. A lógica desse tipo de organização é marcada por uma visão determinista, mecanicista, formalista, reducionista e própria do pensamento cientifico que ignora o subjetivo, o afetivo e o criador, sem os quais não conseguimos romper com o velho modelo escolar, para produzir a reviravolta que a inclusão impõe. Afinal, são crianças que precisam do acolhimento de todos, de nossa humanidade, que coloca os nossos valores a toda a prova!
Para além de nossa aceitação, ou da imposição das leis para essa socialização, essas crianças são muito capazes. Podem ser profissionais de sucesso, podem ter uma vida plena de realizações SIM! Mas para isso precisam de técnicas adequadas na escola, de profissionais capacitados e principalmente, da boa vontade de todos!
Por acompanhar, diariamente, o sofrimento dessas crianças maravilhosas, amáveis e sensíveis, e de suas famílias, trago o assunto para uma reflexão de todos: O que cada um de nós realmente tem feito pela educação inclusiva?

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,
especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.
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