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Magali Simone de Oliveira

Ensaio sobre a visão

Assim como aconteceu em Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, um dia, sem que ninguém percebesse o porquê, milhares de pessoas passaram a enxergar que tinham que participar ativamente da vida de seu país verde a amarelo. Uma luz branca abriu seus olhos e elas foram para as ruas.

Mas essas pessoas não conseguiam enxergar a mesma coisa. Cada um com sua história e com seu currículo de vida enxergava um determinado foco, uma determinada necessidade ligada a seu histórico. Dessa maneira, conflitos entre formas de visão aconteciam. Mesmo assim, eles iam para as ruas juntos, embora distanciados, muitas vezes, por paradigmas inconciliáveis. E, unidos, tentavam mudar o Brasil

Tentei checar como Mariáh e seus amigos haviam sido afetados pela tal luz branca. Os jovens de classe média estariam enxergando as necessidades do Brasil, em meio à Copa das Confederações?

- O que você está achando de tudo isso?

- É, mãe. Tem que tirar esse cara hipócrita que está chefiando o setor de Direitos Humanos de lá. Esse tal de Marco Feliciano. Ele é nazista, não gosta de gays.

- O que mais?

- Tem que ter mais dinheiro para a educação. A gente precisa estudar, precisa de escola boa. Imagina se a minha escola fosse pública? Você ia ter mais grana para comprar os livros que eu quero ler, para ir ao teatro, ao cinema, para que a gente pudesse viajar e conhecer o Brasil.

Tentei brincar com o assunto e me dei mal.

- Mas você não vai pedir o fim das aulas de matemática que te dão tanta dor de cabeça, ou o fim da tabela periódica também não? -  provoquei.

-Não, mãe. Você não está entendendo. Nós queremos é mais aulas de matemática. E eu ainda não estudei tabela periódica. Ainda tenho que aprender isso. Se tirarmos a matemática, a educação vai ficar pior. Muito pior. Nem brinca com isso.

Fiquei orgulhosa. Gostei de vê-la pedindo para participar das manifestações, de sua vontade de ajudar a mudar o país.

- Eu quero ir para a rua mãe. Não vou ficar gritando, mas vou levar cartaz dizendo: Não é por R$ 0,20! É para esse povo parar de colocar dinheiro nosso na cueca!

- Tá certo, filha, tá certo!

- E é também para as pessoas aprenderem que uma faísca, só uma faísca já consegue incendiar as pessoas, uma faísca ascende uma revolução! - disse Willian Souza, um dos amigos de Mariáh - Eu quero ir para a rua. Eu quero protestar. A gente não pode ficar calado não.

Apoio. Apoio. Orgulhosa, apoio.

Já Hosana Franca – uma das amigas de Mariáh que, de tão vaidosa, jura ter bênção de Afrodite – riu, mas riu muito do anúncio de uma matéria de uma revista teen dando “dicas de beleza e moda para os protestos”:

- Só faltava essa! Moda de protesto. A gente não vai às ruas para desfilar. Tem que ser muito Pat para isso! Amei ela ter entendido a futilidade e o oportunismo da tal revista, banalizando esse momento tão acima das regras ditadas pelos estilistas de plantão.  

Mas, diante das imagens de violência, de depredação, de gente dizendo que o movimento é apartidário – QUANDO NÃO É – de gente querendo dar golpe, de gente depredando bens públicos e privados, vândalos e bandidos infiltrados, temo de verdade, pois acho que a tal luz branca do Saramago está me cegando.

E lembro, contrariada, que a violência era uma constante entre os cegos do escritor português. Tremo. Não quero ver cenas de intolerância, estupro, saques e luta pela sobrevivência de Saramago ameaçando esse novo olhar da sociedade.  Acredito que a tal violência é fruto da ação de gente grande, gente que está acordada há muito tempo. Gente que quer manipular quem acordou agora para a história.

Olho para o futuro e, como sempre, não tenho a mínima ideia do que vai acontecer. O tarô está cego e bêbado. Nas ruas, as cartas estão muito embaralhadas. Não sei se tudo é blefe ou se vamos ter uma canastra real de ás a ás com todos os problemas resolvidos no Brasil em breve.

Sob o meu nariz, gente que não perdia jogo da seleção está discutindo PEC, reforma política, discutindo a política de fixação de tarifas públicas, os salários dos políticos, etc. Querem mudanças. Que bom! Que maravilhoso estar viva para enxergar isso.

Mas há os golpistas que querem impeachment de Dilma, sem pensar no que aconteceria se Michel Temer assumisse o poder; há quem deseja o fim dos partidos políticos, e - pasmem! - o fim dos Direitos Humanos!

Eu me espanto de não conseguirem mais enxergar os avanços dos últimos anos, que os partidos – com todos os seus defeitos - e os direitos humanos (não dá para ser contra) são conquistas. Tudo isso faz com que a tal luz branca se torne amarela, vermelha, roxa, preta e comece a piscar, me cegando ainda mais.

Mariáh ainda quer protestar, mas teme a violência dos conflitos que estão acontecendo no meio das passeatas.

Como se sentar, para que a polícia identifique os vândalos, se eles estão atirando bombas? Nesse caso, não tem como ficar parado. Tem que correr, avalia a adolescente.

Digo a ela que vamos amadurecendo o assunto (o retorno às passeatas). Quero esperar a tal luz branca clarear os meus olhos. Por enquanto, acho que estamos vivendo um ensaio sobre a visão. Muitos que eram cegos, e eram mesmo, agora enxergam, mas seus olhos ainda precisam de colírio. Penso que não dá para usar óculos escuros agora.

O futuro finalmente chegou e está nas ruas. Acredito de fato nisso. Mas não podemos permitir que o amanhã se torne um passaporte para o passado. Porque isso seria um retorno à dor, a prisão, à tortura, ao medo e à morte de todos os sonhos que nos movem hoje.

 

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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