Regina Helena Alves Silva
Conexão BH-Finlândia: O que a educação dos seus filhos têm a ver com isso?
Moro em um bairro de classe média que, segundo reza a lenda, é o bairro com o maior número de escolas de Belo Horizonte. Por morar em um bairro assim, sempre sofri os efeitos disso. O trânsito no meu bairro é insuportável: ficam milhares de carros parados em filas duplas e triplas, em cima do passeio, nas garagens, no estacionamento do supermercado, nas esquinas, enfim, em todos os lugares, por causa de crianças que “precisam” chegar à escola com seus responsáveis os arrastando em meio ao caos. Centenas de vans, correndo de escola em escola, tentando levar os alunos nos horários do início das aulas.
Aliado a tudo isso, temos as ruas estreitas, os carros que param dos dois lados, mais os ônibus, os caminhões das inúmeras construções de prédios que derrubam todas as casas e os milhares de carros que saem das garagens do milhares de prédios já construídos.
Tudo isso me faz pensar no papel da escola e da educação neste país. Antes dos meus filhos chegarem, eu ficava pensando: como alguém pode educar filhos agindo assim dessa maneira? Como escolas podem crescer tanto sem participar ou exigir algum tipo de planejamento para o bairro onde estão? Como formar cidadãos se o lugar onde circulam e estudam é tudo menos um espaço cidadão?
Pausa para uma de minhas historinhas:
Outro dia, estava eu voltando da escola dos meus filhos (que, por incrível que pareça, não tem fila dupla na porta). Um pouco antes de chegar à rua mais movimentada, um carro parou à minha frente, parou assim sem quê nem pra quê, bem antes da esquina. Esperei, esperei, esperei... Uns 5 minutos depois, dei um toquinho na buzina. Às vezes, no meu bairro, as pessoas param atrás de um carro, esperando um cruzamento, e começam a mandar mensagens no celular e se esquecem de que estão dirigindo. Pensei ser esse o caso. Mas nada... mais muitos minutos e nada ... Aí, buzinei direito. Nada... Já tinha uma fila enorme atrás de mim e todos começaram a buzinar e eu buzinei novamente.
Saiu do carro uma jovem de uns 14 ou 15 anos, com um uniforme escolar azul, me olhou e gritou: "Sua velha sem educação!" E começou, lentamente, a tirar do banco traseiro do carro uma mochila, um casaco, uma bolsa, um livro e sei lá mais o quê. Isso demorou mais ainda e a rua já estava em polvorosa. Todos buzinavam e gritavam. Eu falei: "Sem educação é quem pára assim no meio da rua". Ato contínuo, a garota começou a xingar mais alto ainda. Eu virei para a mãe dela, que estava ao volante, e disse: "Isso é o que dá mimar esses meninos. Eles viram esses monstros".
A mãe só se assustou nesse momento e virou o carro à esquerda, estacionando em uma vaga que havia ao seu lado desde o início de tudo. A menina subiu a rua, em direção à sua escola, gritando e balançando a mochila.
Fico tentando entender o que aconteceu em BH para que a enorme maioria dos pais de crianças dos ensinos fundamental e médio fosse acometida de uma necessidade insana de colocar os filhos em grandes escolas católicas. Não tenho nada contra escolas ligadas a instituições religiosas, mas é uma coisa muito estranha esse movimento em BH.
Meus filhos estudam em uma escola pequena, têm turmas pequenas e a atenção de uma professora e uma estagiária. Mas estão ainda no infantil e isso faz toda a diferença. Aconteceu neste ano uma pequena debandada na escola deles, que levou alguns alunos a uma grande escola perto de casa. A mesma escola da menina de uniforme azul.
Os pais desses meninos afirmavam que seus filhos precisavam se preparar para o vestibular, o da Federal, onde dou aula. Muito estranho uma professora da Federal manter seus filhos na escola e os outros, desesperados para que eles fossem meus alunos, os colocarem em uma escola tão grande, mas tão grande, onde não pensei colocar meus filhos.
Agora, nestes tempos, também saíram varias reportagens em nossos jornais e revistas sobre o ensino na Finlândia, país que sempre alcança o primeiro lugar em exames e provas internacionais.
Vou recortar três trechos de uma reportagem do jornal O Globo para poder comentar depois:
1. “Na Finlândia a educação é gratuita, inclusive no ensino superior. Só 2% das escolas são particulares, mas são subsidiadas por fundos públicos e os estudantes não pagam mensalidade. As crianças só entram na escola a partir dos 7 anos. Não há escolas em tempo integral, pelo contrário, a jornada é curta, de 4 a 7 horas, e os alunos não têm muita lição de casa. ‘Também temos menos dias letivos que os demais países, acreditamos que quantidade não é qualidade’.”
2. "Os professores planejam as aulas, escolhem os métodos. Não há prova nacional, não acreditamos em testes, estamos mais interessados na aprendizagem. Os professores têm muita autonomia, mas precisam ser bem qualificados. Esta é uma profissão desejada na Finlândia."
3. "Não gostamos muito de tecnologia, ela é só uma ferramenta, não é o conteúdo em si. Tecnologia pode ser usada ou não, não é um fator chave para a aprendizagem."
Então vamos tentar entender o que está acontecendo no Brasil e em Belo Horizonte. Não vou usar a Finlândia como exemplo porque eles mesmos chamam a atenção para nossas diferenças e dizem que não querem virar modelo. Mas vamos pensar a partir dos três itens que recortei.
A primeira parte diz da educação gratuita. No Brasil, a educação gratuita é mal vista, a escola pública é entendida como de pior qualidade, como impossível de levar o aluno a “um futuro melhor”. A escola pública se deteriorou enormemente no período ditatorial e nenhum governo até agora conseguiu reerguê-la. Talvez porque tenhamos passado de uma universalização da escola direto para tentativas desordenadas de conseguir melhorar as gigantescas redes públicas que foram se formando. Como a ditadura destruiu as formas de pensar a educação que existiam no país e foi implantando modelos importados dos EUA, ficamos com redes públicas de escolas completamente desguarnecidas de discussões pedagógicas que se efetivassem.
Após esse período, começamos a “importar” outros tipos de modelos de escolas que deram certo em outros lugares. E até hoje ficamos correndo atrás das Escolas da Ponte e congêneres, sem escutar os que entendem das nossas escolas seus professores, seus gestores, seus alunos...
Outra coisa que chama a atenção é o inverso do surto que temos no Brasil em torno da escola integral. A escola integral aqui parece a solução para tudo, inclusive a nossa falta de tempo. Tenho convivido com essa questão neste momento por causa dos nossos dois filhos. Como trabalhar e dar a eles tudo que necessitam não só como crianças que são, mas também pela condição de pequenos adotados, em fase de adaptação. Eu já tinha uma questão com essa coisa de escola integral. Como pequenas crianças aguentam 8 horas em um lugar, por mais coisa que tenham a fazer, por melhores que sejam seus professores, por mais legal que seja tudo? Antes dos meus filhos chegarem, eu ficava vendo aqui perto de casa uma escola municipal que é integrada. Sai dos portões um professor-comunitário aos berros, com mais de 20 crianças em fila, tentando não deixá-las escapar, atravessar a rua, sair correndo, enfim fazer o que muitas crianças juntas fazem. O professor sai arrastando uma fila de crianças pelas calçadas até alcançar a Mata das Borboletas, onde as crianças vão ficar no contra-turno. Mais tarde, a gente pode ver a mesma cena com as crianças cansadas, sujas e alvoroçadas voltando pra escola. Mas tenho também o exemplo da escola da menina de uniforme, que saiu do carro e me xingou. Lá os professores não arrastam os alunos pelas ruas, mas o tumulto que toda escola integral vira esta lá presente e pode ser sentido a léguas de distância. Resumo destas poucas palavras: mais uma vez ninguém quis entender como acontece a escola, implantam porque alguém disse que é assim em algum lugar e que isso é bom.
Colocamos nossos filhos na escola integral. Quer dizer, um deles, o Dinho, porque não havia vaga para a Duda. E ele está se ressentindo enormemente. Sei que tem a especificidade dele, mas é disso que se trata. Cada caso é um caso e as escolas não têm estrutura para aguentar a duplicação de seus alunos de uma hora pra outra. O que tem acontecido é, mais uma vez, um peso enorme para as escolas públicas e um surto de construções e procura de espaços alternativos pelas particulares.
Outra coisa é a idade de entrada nas escolas, cada vez mais rápido, cada vez mais cedo. Acho muito legal o que meus filhos aprendem na escola, mas às vezes fico me lembrando de como era na minha época, quando entrávamos na escola aos 7 anos. Não é saudosismo, é só tentar levantar questões para pensarmos...
Estudei no Grupo Escolar Barão de Macaúbas e depois no Estadual de baixo, pra ir no científico para o famoso Estadual de cima – como chamávamos.
Não se trata de discutir como o ensino de “antigamente” era melhor. Agora que sou mãe, lembro-me de como foram os dois Colégios Estadual. O que os separava era apenas uma rua e uma longa história de como pensar a educação de jovens.
No Estadual de baixo, o diretor era um coronel (estávamos na ditadura) e ele fazia questão do uniforme passado a ferro sem uma ruga e das meias suspensas sem nunca poderem cair no tornozelo. Não se podia fazer quase nada, muita prova, muitos professores que faziam a gente copiar 5.000 vezes:
+ com +=+
- com -=-
Ops, esqueci o resto......
Essa brincadeira é pra dizer de como era pensada a questão pedagógica no Estadual de baixo.
Quando fui pro de cima, a primeira coisa que fiz foi tomar uma bomba. Não estava acostumada a tanta liberdade, a não ser obrigada a entrar na sala de aula à força, a não ter que estudar o que não queria, a ver que a vida tinha outras coisas como música, cinema, dança, amigos e outras coisas...
O principal de tudo é que foi nesse lugar que aprendi a questionar, a brigar, a não engolir qualquer coisa como sendo o que eu deveria pensar sem discutir, a ter autonomia, a trabalhar, a dar valor a amizade, a lutar por liberdade e a odiar ditaduras e certezas absolutas.
Quando escolhi a escola de meus filhos, me lembrei disso. Lembrei-me dos milhares de alunos que já tive na UFMG e de como eles foram e são e onde estudaram.
Depois de fazer uma espécie de pesquisa de onde meus alunos vieram, me surpreendi ao saber que aqueles que eu sei que “terão um futuro melhor” e aqueles que já têm um futuro melhor vieram não das grandes escolas, mas de pequenas, de públicas ou de escolas de cidades do interior. Os mais criativos, questionadores, ativos, produtivos e “danados” vieram desses lugares. Os mais competitivos, individualistas, que só ligam pra nota, que acham que a vida é uma eterna “prova final” vieram dessas outras grandes e gigantescas escolas. Desses lugares onde eles não eram ninguém e, por isso, precisavam de um esforço sobre-humano para se destacar em um ranking que se encerra nele mesmo, que não leva nada a lugar nenhum.
Os alunos que formam grupos, empresas, ONGs e coisas assim não são os que ficavam lutando para decorar conteúdos gigantescos esperando um dia passar num tal de vestibular, que já não existe mais.
O Brasil, só pra discutir o item 3 da minhas citações, é um país que ouve falar que tecnologia na escola é importante e, então passa a comprar milhares de computadores, milhões de tablets e não sei mais o quê, apenas porque entende que a tecnologia carrega em si o “futuro melhor”.
Mas o principal, que eu vejo nos comentários sobre a Finlândia, é como esse país entende o papel do professor e sabe muito bem que provas não “provam” nada. Nas grandes escolas, os professores não têm autonomia nenhuma, não podem escolher métodos. As escolas grandes entendem que provas e mais provas “provam” que são boas escolas e que seus alunos passarão em todas as provas que encontrarem no caminho. Até passam em muitas...
Mas os tempos estão mudando. Os vestibulares nesse formato quase não existem mais. As entrevistas de empregos não querem saber se os jovens sabem fazer provas, querem saber de sua autonomia, criatividade e um tal de “empreendedorismo” ou se geram “inovação”. Todas essas coisas são incompatíveis com professores seguindo modelos pedagógicos que não discutiram e que não têm relação com seus alunos ou com a realidade em que vivem. Nada disto é compatível com o gigantismo dessas escolas e a total impossibilidade olhar para os alunos da forma como a educação do sec. XXI precisa. Mudamos de século e as escolas e nossa sociedade não conseguem entender que nosso modelo é totalmente falido. Lembro-me da polêmica em torno da Escola Plural e de como uma discussão séria virou jogada eleitoreira besta. E por questões politiqueiras medíocres, jogamos fora uma experiência de anos e ficamos discutindo se os nossos filhos tem que ser muito punidos com uma bomba a cada ano ou não.
Pais que acham que seus filhos têm que ficar repetindo um monte de coisas que nunca mais vão precisar pra nada são muito estranhos, muito mesmo. Mas políticos que usam isso para se eleger são muito irresponsáveis e medíocres.
Não tenho nada contra quem coloca seus filhos nestas escolas de 5 mil alunos, mas, por favor, parem de me perguntar se meu filho de três anos e meio já sabe ler. Tem pessoas que ficam me olhando preocupados se minha filha de dois anos e meio vai ter “um futuro melhor”.
Tenho a responder a todos esses que eu tenho um presente muito bacana e se meus filhos tiverem um futuro assim, serão felizes como eu sou. Terão realizado muita coisa legal, terão coisas materiais para uma vida digna, terão principalmente a maior herança que eu e a escola deles poderá deixar: questionar, brigar, discutir e nunca aceitar as coisas a primeira vista... e sempre brigar por liberdade e por direitos iguais a todos os diferentes.
Como final desta história de educação, uma outra historinha só que do meu pequeno filho Pedro:
Outro dia, voltando do psicólogo dele (crianças adotadas precisam de toda ajuda possível e o psicólogo dele é sensacional), íamos virar à esquerda em uma das ruas do Sion, onde estava parado um caminhão de lixo. Um outro carro que vinha pela direita tentou cortar o caminhão de forma a passar na frente dele, pra não ficar empacado atrás da lentidão do recolhimento do lixo na rua. Não deu... o caminhão não o viu e fez a curva. Fiquei atrás do carro e fomos lentamente entrando na rua, quando o rapaz que o dirigia começou a berrar enlouquecidamente e a buzinar feito um louco. Ele gritava pro caminhão sair da frente dele porque estava com pressa e não ia ficar preso atrás de uma tartaruga.
Enquanto a coisa estava assim, eu fiquei parada, olhando aquilo sem entender. De repente, o rapaz saiu do carro e começou a gritar palavrões e a ameaçar os lixeiros. Depois de uns 5 minutos disso, eu pus a cabeça pra fora do carro e perguntei se ele estava doido ou algo assim. Disse que meu filho estava no carro e ele não precisava de ouvir nem ver aquele monte de barbaridades.
O rapaz veio em minha direção gritando: "O que foi sua velha?" (não sei porque as pessoas pensam que chamar a gente de velha é um xingamento...)
Eu falei que meu filho não precisa ouvir aquilo. Nesse momento, vários passantes e os lixeiros já cercavam meu carro com medo do rapaz me agredir.
Meu filho abriu o vidro do carro, olhou pra ele e disse:
“Mas que falta de respeito! Eles estão trabalhando!”
Nesse momento, tive certeza absoluta que escolhi a escola certa para o futuro dos meus filhos.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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