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Betzaida Tavares

Facebook, o desenredo da rede

Quando Barbara se mudou para o prédio, eu tinha nove anos. “O prédio” é como até hoje chamamos o “Condomínio Grécia”, dois blocos de edifícios, cada um deles com vinte e um andares e um total de oitenta e quatro apartamentos.
 No primeiro dia em que ela e a irmã mais velha desceram para brincar, o clima foi hostil. À distância, ouvíamos as duas conversarem numa língua que não conhecíamos e, sabe-se lá porque, concluímos que estavam fingindo serem estrangeiras só para esnobar a gente. Começamos a debochar delas.
                Uns dois dias depois e todos nós já sabíamos que elas eram as italianas que haviam se mudado para o 1501 do bloco Atenas (o outro bloco, como é fácil deduzir, chama-se Esparta). Barbara e Amélia rapidamente se enturmaram com as dezenas de crianças que moravam no prédio. No início, falavam um português sofrível e quase não conseguíamos entendê-las. Mas a gente não se importava, conversávamos pouco e brincávamos muito. Não sei precisar exatamente quanto tempo depois Barbara e eu nos tornamos amigas inseparáveis: nas brincadeiras, nas reuniões de meninas para trocar papéis de carta, nas bagunças, nos piqueniques que fazíamos na praça e nas conversas. Principalmente nas conversas. Conversávamos sobre tudo, ou como dizem os italianos, “parliavamo del piú e del  meno”. Em pouquíssimo tempo, ela falava um português perfeito e sem sotaque.
                Três anos depois, sua família voltou para a Itália. Foi uma das perdas mais sofridas que tive. Passei mais de um ano numa profunda tristeza (a palavra depressão, embora eu já a conhecesse, ainda não fazia parte do meu vocabulário). Trocávamos cartas quase todo mês. As mulheres da agência de correios eram minhas amigas. Uma parte nada desprezível da minha coleção de papéis de carta cruzou o Atlântico para levar as mensagens à Barbara. Sua coleção também sofreu um desfalque. Passou-se mais um tempo e, como era de se esperar, perdemos o contato.
                Meu primeiro filho tinha acabado de nascer quando minha irmã, após escrever uma carta à Amélia, conseguiu o email de Barbara. Eu lhe enviei uma mensagem, contei que havia me formado em História e que acabara de ter um filho. Ela me respondeu e falou um pouco sobre sua vida: havia se tornado uma advogada e estava noiva há vários anos. Desaprendera boa parte do português. Por uma dessas coincidências, àquela época eu começava a estudar italiano. Resolvi responder a mensagem em sua língua materna. A resposta que me mandou em seguida tinha na caixa de assunto os dizeres: “Ad una vecchia amica” ou, “para uma antiga amiga”.  Então, durante alguns meses trocamos e-mails em italiano. Depois, os afazeres que nos consomem, a distância geográfica, a falta de um dia-a-dia em comum ou tudo isso junto e nos distanciamos mais uma vez.
                Até que um dia eu a encontrei no Facebook. Tratei de adicioná-la como minha amiga. Durante esses quatro anos em que estive conectada à rede social, nunca perdemos o contato. O que significa dizer: ela sempre esteve em minha página de amigos e eu na dela. Contudo, nunca trocamos uma mensagem sequer. Nada. Em um de seus aniversários tentei puxar assunto e escrevi em seu mural: “Buon Compleanno! Auguri!” Ela não me respondeu e eu a entendo perfeitamente. Era uma mensagem que não dizia nada e, além do mais, em tempos de Facebook, é fácil lembrar a data de aniversário das pessoas. Porque a gente não precisa recordar, é ele, o Facebook, quem nos avisa que precisamos dar os parabéns ao aniversariante, não importa se é alguém da família, um amigo, contato profissional ou desconhecido que por ventura veio a fazer parte da nossa lista de contatos. Barbara provavelmente não iria acreditar que eu nunca esqueci que ela nasceu no dia oito de novembro, sob o signo de escorpião.
Comecei então a pensar, não apenas em relação à Barbara, mas às outras amizades que por alguma razão tiveram de enfrentar a separação física. Por carta, ou mesmo por email, há sempre o risco de se perder o contato. Mas enquanto ele existe, existe de verdade. Porque só irá se sustentar se uma pessoa se dirigir a outra, seja pelas longas linhas manuscritas, seja por uma brevíssima mensagem eletrônica (ou o contrário também, um email longuíssimo ou uma carta de menos uma página). Não importa: para que o vínculo exista é preciso que de tempos em tempos um se dirija ao outro, um reconheça a existência do outro.
Na rede social acontece o estranho fenômeno de se estar em contato sem se reconhecer. A longa lista de amigos é, na maioria das vezes, uma galeria de sombras. Imagens que nos remetem vagamente à infância ou à adolescência, mas que não capazes de comunicar coisa alguma ao tempo presente. São imagens corrompidas e plastificadas, que ressecam e desencantam o tempo que passou. Prefiro mil vezes a fantasia que a memória edifica durante os anos ausência.
 

 

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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