Magali Simone de Oliveira
Finally Lucy in the sky with diamonds
Com jeitinho, até o silêncio se cala e ganha ritmo. A mudez pode gemer como as guitarras virando eco dos barulhos que vêm de dentro da gente. O vazio pode se transformar em todo tipo de ruído produzido pelos fantasmas que gostam de assustar quem se perde dentro de si mesmo, gente que esbraveja sinos, choros, risadas, que grita enfim os retalhos da vida como Lucy in The Sky with Diamonds. É assim que percebo o rock. Um sussurro rouco que vem da legião de pessoas que vivem dentro de mim. E que me fazem companhia, mostrando o caminho que devo seguir.
Tento fazer Mariáh entender isso. Ela, dengosa, pede que eu lhe dê uma aula de rock'n roll. Estranhei. Na minha época, os filhos não tinham “aula de rock” com a mãe. Na minha época, rock'n roll era coisa de rebelde, coisa que mãe e pai não gostavam muito.
“É o fim dos tempos”, suspirei. Mas amei a ideia. Um pedido assim cheira a mutação genética, a mudança, a revolução. Tem tudo a ver com rock. Os monstros sagrados do rock finalmente invadiram minha casa. Aleluia, minha alma gritou feliz.
Há muito tempo, Mariáh vivia dizendo não gostar de rock. E as pedras rolavam na minha cabeça. Entrava em pânico. Por causa de uma depressão, passei muitos anos sem ouvir meus CDs. Minhas angústias calaram a boca de gente como Ramones, Janis Joplin, The Doors. E quando, aos 11, Mariáh anunciou que só gostava de pop, a culpa bateu.
Ela não ia gostar de rock por minha causa. Eu tinha falhado como mãe. Ela teve aula de piano, violão e flauta no conservatório, mas não tinha aprendido a gostar de rock. A adolescente que andava com roupas pretas, com correntes no pescoço, a jovem mulher que colecionava mãos saindo de túmulos nos cadernos da escola nos anos 80 havia falhado como mãe no século XXI: tinha produzido uma filha surda ao heavy metal. Lástima. Infortúnio.
Insensível aos meus apelos, Mariáh insistia em dizer frases sem sentido como “Lady Gaga é melhor que Madonna”! Eu só gosto de Katty Perry. Também adorava dizer que “os tiozinhos” do rock eram “estranhos” com aqueles “cabelos grandes”, aquelas “caras de maus” e “aquelas vozes finas”. Na primeira vez que ouvi isso, me irritei profundamente. Fiz uma coisa louca, reconheço (às vezes fico um pouco louca, mas isso é raro, sou muito desinteressante e normal, beiro a chatice). Por cinco minutos, fiquei falando sem parar: “Pink Floyd”. Era uma espécie de mantra. Queria que os deuses do rock nos salvassem da perdição.
Não deu certo. Não naquele dia. Ela se irritou. Acho que eu estava pegando pesado e começou a gritar: “Pink Explode, Pink Explode”. Ela não entendia como eu estava frustrada. Sempre quis ver Mariáh roqueira. Quando bebê, ela dormia ouvindo Beatles for the babies. Ninava minha filha com canções de Legião, Plebe Rude, Ira, Titãs, Barão Vermelho e outros monstros do rock nacional.
Aos dez meses, na casa de sua tia, ensinei-lhe a balançar a cabeça ao som de Led Zeppelin. Aos dois, ela mostrava os dedos mindinho e indicador (símbolo do heavy metal), para todos que lhe perguntavam quantos anos tinha. Aos sete, a fantasiei de roqueira... Mas aos 11, 12, tudo tinha ido para o lixo. Ela chamava meus ídolos de “tiozinhos estranhos”. E eu me sentia verde e mofada como um dinossauro. Eu queria morrer.
Quando ela me pediu, há poucas semanas, para dar essa aula de rock, me explicou que a amiga, Larah Ox, estava tendo aulas de rock com a mãe. A outra adolescente já tinha aprendido a gostar de ACDC, Scorpions e Whitesnake. Foi a minha deixa. Ela também queria gostar dessa gente “estranha”. Viva!
Por mais de duas horas, lhe apresentei dezenas de vídeos. Blues, Elvis, Beatles, Rolling Stones, Janis, Jimmi Hendrix, The Doors, Janis, U2, The Smiths, Nirvana, Alanis, Nina Hagen, Billy Idol, Ramones, Pink Floyd, The Police, ACDC, Scorpions. Senti que apertava a mão de antigos amigos que me ajudaram a chegar até aqui. E ela, a todo momento, dizia:
- Eu não sabia que essa música era rock. Essa eu já conhecia. Eu amo essa! Adiciona no favoritos? Vitoriosa, ao final, me pediu para ouvir Green Day, ícone do punk rock. Já sabia o nome de várias canções.
Perguntei:
- Mas você não disse que não gostava de rock, que não conhecia rock, que estava querendo aprender sobre rock?
- É, mãe. Estou mesmo. Mas há muito tempo gosto desses carinhas aí. De punk rock eu gosto.
- Há muito tempo?, insisto boquiaberta, com a sensação de que tinha perdido um capítulo dessa história.
- Lembra da Fantástica fábrica de chocolate?, ela me questionou, rindo.
Lembrei-me. Foi um pesadelo. Ela tinha uns cinco anos quando saiu essa nova versão de A fantástica fábrica de chocolate. Fiz de tudo para ela “querer ver”. Mas Mariáh foi enfática:
- Não vamos assistir isso, mamãe. Isso é filme de menino.
Na época, fiquei frustrada. Queria muito assistir esse filme, mas não tinha coragem de ir sozinha. Afinal, filmes assim são coisa de criança. E eu sou adulta. Muito adulta. Só não gosto de perder. Então apelei e fiz uma coisa feia: tentei subornar Mariáh.
- Se você for comigo, te dou sorvete. Muito sorvete. Um sundae com cobertura.
- Não, mamãe. Não quero sorvete. Não vou assistir a este filme porque é coisa de menino e menina não gosta de ver.
Derrotada, tive que esquecer A fantástica fábrica de chocolate. Por meses, não pensei no assunto. E, eis que ela, um dia, me pede para alugar o DVD.
- Mas não é filme de menino?, questionei.
- Não, mãe, é um filme muito bom. Menina também gosta da Fantástica fábrica de chocolate.
Agora, ela dizia que rock era como A fantástica fábrica de chocolate. Não entendi. Perguntei o porquê.
Ela sorriu, mais uma vez, vitoriosa.
-Você já reparou que toda vez que sou rebelde com você acabo pagando língua? Foi assim com Os incríveis, está sendo assim com o rock. Descobri que não só gosto de rock, como gosto de punk rock. Muitas dessas músicas, eu já gostava. Mas adoro irritar você. Você fica linda fazendo beicinho.
Tive que vingar. Apertei as bochechas de Mariáh com força. Mas senti que abraçava a mim mesma. Quantas vezes, dei uma de rebelde só para não ser boazinha, só para ser eu mesma. Quantas vezes ouvi rock super alto, de rebeldia, só para escutar a minha mãe gritar: "Abaixa esse som aí!"
Eu precisava me sentir diferente, precisava me sentir incompreendida. E o rock falava a linguagem da minha incompreensão. Percebo assustada que continua falando. Cazuza, então, sussurrou no meu ouvido: “O tempo não pára”. E os monstros do rock gritaram: "The rolling stones and, finally, Lucy will ever be in the sky with diamonds".

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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