Magali Simone de Oliveira
Coisas de gente grande e de gente pequena
E Mariáh entrou de férias. Guardou a mochila e os livros didáticos no fundo do guarda-roupas e arrumou a estante.
-“Agora, vou ler apenas os livros que gosto, que eu vou escolher”, disse triunfante.
Olhei dois novos livros que as amigas lhe emprestaram. Um deles “A culpa é das Estrelas”. Pergunto de que se trata.
-De um adolescente de 16 anos que tem câncer. Estava louca para ler. Disseram que é muito triste, mas que é lindo. Im-per-dí-vel, diz, reforçando a separação das sílabas.
_Mas você não acha que esse assunto, câncer, é um assunto um pouco pesado para as férias? Por que você simplesmente não relê Percy Jackson?
-Porque a doença e a morte podem acontecer em qualquer momento da nossa vida, mãe. A doença e a morte fazem parte da vida. A gente tem que saber que a vida não é só coisa boa. Pode ser coisa ruim também. E, de mais a mais, eu estou só lendo um livro sobre a vida de outro adolescente com câncer, eu não estou doente nem nada... E, lendo, eu posso me tornar mais solidária, vou saber mais sobre essa doença e sobre tudo o que acontece com o doente e com sua família.
_ Mas esse livro é deprimente. Você não acha que vai chorar muito?
-- E por que eu tenho que ficar rindo 24h por dia? A gente tem que saber que o mundo não é uma palhaçada. Eu não sou mais criança. Já tenho maturidade para ler essas “paradinhas tristes”. Eu não sou nenhum bebê, disse sorrindo com as bochechas rosadinhas de bebê de 13 anos. Deu vontade de apertar e dizer “Gutti, gutti”, mas como sou adulta, tenho 42 anos e sou um pilar da maturidade, me controlei.
Realmente a vida é feita com roteiros muito complexos. Muitas vezes nos prega amargas surpresas. A vida pode ser uma comédia, pode ter beleza da poesia de Vinicius de Morais e as amargura das tragédias de Nelson Rodrigues. É uma aquarela de diferentes cores. Vislumbrar o arco-íris que desponta depois de uma grande tempestade, ou fingir que a vida é cinza para sempre é uma escolha difícil.
Qualquer que seja a opção será dolorosa e exigirá coragem. Depende da maturidade que temos e da nossa disposição em ser felizes de novo.
No fim da tarde, Mariáh liga para uma amiga para combinar a primeira tarde no cinema. Pensei que seria a primeira de muitas outras, mas depois, pensei que – como tudo no universo adolescente- as coisas não seriam bem assim.
-Mãe, você acredita que a Patrícia Clark não quer ver o Meu Malvado Favorito 2!?!
Como eu sou a primeira a adorar animações e desenhos animados não entendi o motivo da amiga de Mariáh. Ela me esclareceu.
-Mãe, ela falou que não assiste a filmes infantis. Ela disse que não é mais criança. Pode, mãe? Pode? A criatura fez 13 anos em março, nem vai fazer 14 anos esse ano como eu, e já acha que não pode mais assistir filmes infantis! Você não acha que isso é uma coisa infantil, coisa de gente imatura?
Ri. Acho sim. Até porque concordo. Aos 13 anos somos todos infantis. Mesmo que adolescentes. A infância não nos deixou. A maturidade ainda salta a nossa frente esperando que a alcancemos. Aos 42 também me sinto infantil às vezes. Não sei quando e como “nos tornamos adultas”.
-Não fica brava, Mariáh. È assim mesmo. Uma hora ela vai perceber que pode ir sem medo a filmes infantis. Que não estará pagando mico. E, aí, vocês vão ao cinema?
-Vamos assistir hoje ao Cavaleiro Solitário, com o Johnny Deep que ela disse que é lindo. Eu não acho. Sempre me lembro do “Piratas do Caribe” quando o vejo. E depois, tipo outro dia, lá no final das férias, vamos assistir Meu Malvado Favorito 2. Eu não vou desistir de levá-la.
Ah, então está tudo bem, penso. Acho que é difícil para essas meninas aprender que é preciso ser madura para ser feliz. É preciso muita maturidade para entender que a gente pode sim assistir filme de criança, comer brigadeiro na panela, pedir colo depois de ter mais de 30, 40, 50, 100 anos. A essência da infância permanece dentro de todos nós. É preciso aprender a cuidar bem desse menino e dessa menina que viverão para sempre dentro de nós. Às vezes necessário será levá-los para ver filmes como “Meu Malvado Favorito”, ou dar-lhe de comer pipocas e balas, ou deixá-los fazer peraltices como tocar a campainha alheia e sair correndo.
Porque na nossa vida, ora somos a princesa (e), ora somos a bruxa (o). Sim, por vezes somos cruéis. Não estou delirando não! Muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, somos maus com os outros e conosco. Exigimos de nós e dos outros a beleza perfeita, o peso ideal, a inteligência absoluta, o emprego e o salário dos sonhos, o casamento do tipo “felizes para sempre”. E, quando não conseguimos tudo isso nos castigamos e castigamos os demais com o desprezo e a solidão, com a depressão e a baixo-estima.
Talvez seja preciso aprender a chorar e a sorrir. Porque o choro e o sorriso nos deixam mais leves. E nos tornam corajosos o suficiente para entender que a vida não é sempre do jeito que a gente quer. Mas pode ser uma linda aventura quando tudo dá errado. Entender isso é coisa de gente grande. Gente grande de verdade.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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