Cristina Silveira
A importância da literatura para a criança
Quando comemoramos um mês dedicado à literatura infantil, devemos pensar sobre a importância da leitura para o desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança. Por isso, hoje minha coluna será sobre algumas impressões que tenho sobre o assunto, numa abordagem psicopedagógica e psicanalítica.
Neste mundo contemporâneo, em meio a tantas tecnologias, redes sociais e jogos interativos que consomem, em alguns casos, até 12 horas do dia de uma criança, existem poucas oportunidades de suscitar o seu imaginário e, em consequência, a elaboração de suas ideias e de seus conflitos internos. Jogos não elaboram conflitos, porque, na maioria dos casos, são violentos e sem nenhum valor psíquico.
Nesse contexto, a literatura é um dos mecanismos que podem contribuir para o seu desenvolvimento psíquico saudável, favorecendo o desenvolvimento de um indivíduo crítico, atuante e inteirado na sociedade, auxiliando-o na expressão de opiniões, no desenvolvimento do vocabulário e na aprendizagem como um todo.
Em se tratando de literatura infantil, sabemos que as histórias infantis facilitam o desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança. Quando a criança escuta uma história, ela trabalha problemas existenciais típicos da infância, como medos, inveja, raiva, dor, perda e frustrações.
Em uma análise psicanalítica, sabemos que os contos de fadas proporcionam maneiras de elaboração de conflitos e angústias. O real da criança pode imprimir-se no imaginário da história, que, por sua vez, pode ajudá-la na resolução do problema. Por exemplo: se a criança sente um medo angustiante de algo que a perturba (imaginário ou real) quando escuta a história do Lobo Mau, ela pode apresentar um terror ao ouví-la. Deve concluir-se, então, que o medo já estava nela, numa profunididade angustiante, antes mesmo que aparecesse o lobo na história. O lobo é o sintoma que revela o medo e não a sua causa. Nesse caso, a astúcia dos personagens que venceram o lobo (os porquinhos ou o caçador) podem trazer, em alguns casos, um alívio e uma elaboração desse medo. Da mesma forma, a criança que escuta a história do pequeno polegar, abandonado na floresta com os irmãozinhos, pode concentrar toda a sua atenção na esperteza do minúsculo herói. Ou seja, ao analisarmos as histórias mais conhecidas, todos os problemas e ansiedades infantis, como a necessidade do amor, do medo e do desamparo, da rejeição e da morte, são colocados nos contos em lugares fora do tempo e do espaço, mas muito reais para as crianças. A solução, geralmente encontrada na história, quase sempre leva a um final feliz, indicando uma maneira para se construir um relacionamento satisfatório com as pessoas e situações reais dessa criança. Lidar com a fantasia nos contos de fadas é um recurso fundamental no processo do desenvolvimento humano porque favorece a comunicação através de imagens simbólicas, com as dimensões mais profundas do psiquismo.
Lembra a psicanálise que a criança é levada a se identificar com o herói bom e belo, não devido à sua bondade ou beleza, mas por sentir nele a própria personificação de seus problemas infantis: seu inconsciente desejoso de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e proteção. Ela pode assim superar o medo que a inibe e enfrentar os perigos e ameaças que sente à sua volta, podendo alcançar, gradativamente, o equilíbrio interno.
Como psicopedagoga, devo lembrar que, durante o processo de leitura de uma história, a criança faz um esforço para compreender as palavras que a compõem, estabelecendo analogias entre elas, efetuando deduções, alargando e corrigindo um significante, um sinônimo, e a influência de um adjetivo. Realiza ainda uma interpretação desse texto. Enfim, amplia o contato com a língua portuguesa, com as palavras, suas formas e suas estruturas, beneficiando sua expressão verbal e escrita.
Além do comprovado desenvolvimento psíquico e da promoção de uma maior autonomia intelectual já comentados aqui, uma infância rodeada de livros e brinquedos educativos favorece a formação da estrutura do cérebro, segundo estudo da Sociedade para a Neurociência dos EUA. Investigação liderada pela neurocientista Martha Farah, da Universidade da Pensilvânia, aponta para um “período sensível”, no início da vida, durante o qual o desenvolvimento do cérebro é fortemente influenciado por fatores ambientais. À medida que o cérebro se desenvolve, produz mais sinapses ou conexões neuronais, que são necessárias para a aprendizagem e memorização. As conexões neuronais não utilizadas são eliminadas num processo conhecido como “poda sináptica” (synaptic pruning), altamente dependente da experiência pessoal. Concluindo, esse estudo confirma que a infância é um período de “extrema vulnerabilidade” e que os pais podem ajudar as crianças a desenvolver suas habilidades cognitivas, proporcionando um ambiente estimulante.
Mas, para que a criança se beneficie desse maravilhoso mundo literário, é preciso dedicação e exemplo da família, além de estímulos na escola e em outros meios sociais onde ela convive. A criança segue modelos. Isso é fato. Se em seu ambiente houver estímulos e hábitos de leitura, certamente ela adotará esse hábito e se tornará um adolescente e um adulto que valorizará a literatura e todos os seus benefícios. Além disso, nos momentos de leitura, principalmente durante a contação de histórias, a criança se interessa porque pode manter o adulto perto dela. Geralmente, a mãe que trabalha e o pai que aparece e desaparece segundo um ritmo misterioso, fonte de repetidas inquietações para a criança, podem ficar à disposição de seus filhos, interagindo e vivenciando um momento importante da vivência psíquica dos pequenos. Raramente o adulto tem tempo para brincar com a criança como ela gostaria, ou seja, com dedicação e participação completas, sem se distrair. Mas na contação de histórias é diferente. Enquanto ela durar, os pais estão ali, inteiros para a criança, numa presença duradoura e consoladora, que fornece proteção e segurança.
Fica a dica!

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,
especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.
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