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Cristina Silveira

Criança aprende ética?

Esta semana, em meio a tantas manifestações e insatisfações da população de um país inteiro, não me veio outro tema a ser abordado, a não ser a ética. Depois de receber o texto abaixo, de Elisa Lucinda, me atentei para a importância de conversarmos sobre os valores, os costumes e a ética de nossos jovens e crianças brasileiras .  

 

Só de Sacanagem

(Elisa Lucinda)

Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta a prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro. Do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta a prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e todos os justos que os precederam. 'Não roubarás!', 'Devolva o lápis do coleguinha', 'Esse apontador não é seu, minha filha'. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar! Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará! Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear! Mais honesta ainda eu vou ficar! Só de sacanagem! Dirão: 'Deixe de ser boba! Desde Cabral que aqui todo mundo rouba! E eu vou dizer: 'Não importa! Será esse o meu carnaval! Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos.' Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambal. Dirão: 'É inútil! Todo mundo aqui é corrupto desde o primeiro homem que veio de Portugal!' E eu direi: 'Não admito! Minha esperança é imortal, ouviram? Imortal!' Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final!

 

Quando se fala em ética, não estamos mencionando algo distante, escrito nos livros ou abordado em aulas de moral e cidadania nas escolas.  Estamos falando de algo próximo, que convivemos em nosso dia a dia. Um cotidiano composto de ações simples, mas que se estiverem alicerçadas nos valores e nas proposições positivas, poderão alimentar através dos  exemplos, o caráter daqueles que conosco convivem.

Mas como!?

Tendo sensibilidade e empatia, e sempre colocar-se  no lugar das outras pessoas, ou seja,  “fazer aos outros aquilo que desejamos que nos façam”. Ouvindo mais do que falando e respeitando a opinião dos outros,  lembrando que cada cidadão tem suas qualidades, virtudes, assim como também tem seus defeitos. O grande trabalho que temos como pais  é ensinar os filhos a lerem o mundo e respeitarem as pessoas,  antes mesmo de serem  alfabetizados.

Respeitar o que é do outro. Mostrar que o significado da  palavra amor é respeito, cuidado com o outro de sua convivência.  Acreditar e fazer acreditar no sentido da coletividade, nas ações filantrópicas, no trabalho voluntário, no compartilhamento .

Valorizar a educação. Porque é no educar que se inscreve, da melhor forma, a possibilidade da civilidade, da cidadania e da humanização.

Devolver o que foi emprestado, não acreditar naquele velho jargão de que “o que foi achado, não é roubado”, não trapacear para conseguir uma promoção, não praticar o bullying, a coerção pelo poder, a perseguição às minorias ou o assédio moral.

Porque crianças e jovens se espelham nos exemplos, nos modelos. E se estiverem alimentados com valores, no momento em que usarem  o aprendizado armazenado em seus subconscientes  para ações altruístas, eles vão responder com aquilo que foi nutrido em seus anos de aprendizagem cotidiana, vivenciados em sua  experiência.  Do contrário, será difícil exigir comportamentos morais desses jovens,  futuros  cidadãos, porque as pessoas agem em função do meio e das informações registradas no seu subconsciente e não através de frases soltas, desprendidas do exemplo.

É seguindo nessa esperança de que todos nós possamos nos manter coerentes, trilhando o caminho ético, senão for por um interesse coletivo, que seja pela vontade de ver os filhos nutridos de valores  e principalmente na crença da existência verdadeira do  amor.

 

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,

especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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