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Cristina Silveira

Limitar, sinônimo de amar

Hoje vou comentar sobre um assunto que venho abordando há algum tempo com as pessoas:  a falta de gentileza dos nossos jovens e adolescentes.
Meu interesse nesse assunto aumentou após comentar uma publicação de um blog de notícias da internet, intitulado “Ignorância e falta de educação são as marcas de uma geração de adolescentes” e notar o grande numero de compartilhamentos do post e da concordância de todos sobre o que comentei. Vale a pena conferir e se entristecer com o relato de um renomado pianista brasileiro, André Mehmari, sobre sua experiência em um teatro municipal de Campinas, no estado de São Paulo, onde tocou como convidado especial de um projeto musical educacional  para uma plateia  de jovens de escolas públicas, de 10 a 12 anos.
O ocorrido foi duramente criticado pelo autor do texto, Regis Tadeu, que registrou em seu texto duras críticas sobre o assunto. Mas, reparem nas palavras do renomado pianista, o protagonista que viveu essa experiências junto aos adolescentes:
“Ao som de berros e injustificáveis vaias irracionais, ouvi toda sorte de grosseria: ‘Sai daí, f.d.p.!’ ‘Vai tomar no ...!’, Vai se f....!’. Fiquei um tanto cabisbaixo, mas segui quase firme. Com muito orgulho, falei um pouco dessa música. Acompanhado por um supermúsico amigo - o percussionista e compositor Caito Marcondes -, toquei desconcentrado e ainda estupefato uma suíte de maxixes ‘nazarethianos’ abraçando uma ária de opera. É, eu queria falar para eles desta coisa bonita da música, de não ter fronteiras, a não ser na cabeça de medíocres e preconceituosos. Mas a fronteira ali estava tão antes de qualquer pensamento, de qualquer diálogo. Tudo tão aquém de qualquer desenvolvimento, que abaixei a cabeça e levei mecanicamente a apresentação até o final, acreditando que se tocasse para um único par de ouvidos férteis, naquela plateia de 600 jovens pessoas, já teria valido meu esforço, minha confiança na vida. Sei bem que educação é sempre desafio e que o Brasil encontra-se muito longe de ter estrutura e pessoal adequado. Meu apelo aqui fica para os pais, que acreditam que a educação de um filho se dá na escola. Ela se dá principalmente em casa, nesse nível fundamental da formação do caráter de um ser humano. Não coloquem filhos no mundo se não estão aptos e dispostos a dar uma formação cuidadosa e apaixonada a esses novos seres.”
Bom, depois de ter lido esse texto, me vieram algumas lembranças,  cenas que lembram   comportamentos parecidos,  em outros contextos.  Na minha opinião, infelizmente, o relato do artista espelha a verdade, na maioria dos casos. Quem lida com crianças e adolescentes em consultórios, escolas ou outros ambientes, já vem percebendo esse fato preocupante há alguns anos. Já discutimos muito sobre esse assunto, e já escrevi sobre isso inclusive.
Quando montamos o movimento Resgatando a Infância, há dois anos, foi  justamente por conta dessa percepção. Quando leio um texto desse, sobre o depoimento de um artista sensível e preocupado com a adolescência, fico triste, mas fico também aliviada ao saber que, apesar de trágico, as pessoas começaram a se preocupar com o assunto e estão divulgando o problema.
O artista está coberto de razão quando cita a família no contexto. Muitas crianças e adolescentes atualmente estão sofrendo um verdadeiro abandono psíquico, emocional e educacional de seus pares parentais. O que vemos são crianças com agendas lotadas, sendo arrastadas de um lado pro outro, sendo valorizadas porque são "bonitinhas", pelo que estão vestindo, pelos locais por onde viajaram ou porque têm comportamento "maduro" e se comportam como adultos. Crianças não brincam mais, a não ser com seus jogos eletrônicos em computadores, tablets, telefones com seus fones de ouvido isoladas da cultura, da literatura, sem nutrição cultural e o que dirá psíquica. Nossos consultórios estão lotados de famílias desorientadas, sem saber como fazer o filho estudar, ou como fazê-lo comer, ou como lidar com as suas birras. Famílias tão fragilizadas que não conseguem colocar simples limites. O resultado são crianças depressivas, com pânico, oprimidas porque têm que apresentar resultados, vivendo sob uma pressão desumana. Ficam completamente soltas, vivendo num ambiente “bambo”, sem "modelos", sem "contenção social". E dessa forma ficam agressivas, opositoras e acabam se enveredando por caminhos tortuosos, ou  buscando limites na sociedade: na policia, na justiça ou trilhando o caminho das drogas.
Estamos vivenciando isso em muitos casos atualmente. Sem querer ser pessimista, na minha opinião, tudo é fruto de abandono. Abandono de valores, falta de limites dentro de casa, falta de tempo para acompanhar, para corrigir ou nutrir os filhos psiquicamente. E se não há falta de tempo, é falta de interesse para dispensar energia para acolher e limitar os seus filhos.  Porque dar limites dá trabalho, cansa, estressa, tira você do foco em muitas ocasiões. Os jovens “testam” os seus pais consecutivamente e exaustivamente até terem a certeza de que serão contidos, suportados e amados. Para conter a psique de um jovem, os pais vão em busca de seus próprios valores, se alicerçam em suas próprias estruturas internas. Não, não está fácil educar filhos nesse mundo contemporâneo. Mas é necessário porque nossos filhos confiam que seus pais conseguirão suportá-los. Cumprida a missão, eles se vão. Vão viver uma vida espelhados nos valores apreendidos em casa.
Mas alguns pais, fragilizados, se entregam:  Limitar pra quê? É melhor comprar um presentinho e pagar o analista do que se estressar e dar ao filho a maior prova de amor: limites.

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,

especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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