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Cristina Silveira

Mãe cria filho para o mundo?

A citação circula pela internet, atribuída ao escritor português José Saramago, embora não seja dele: "Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo".
Quando se é mãe, concordar com essa colocação e praticar o desapego em relação aos nossos filhos parece impossível. Criar os filhos para o mundo?  Mas como?  Contudo, essa é a maior prova de amor que uma mãe pode oferecer ao seu filho. E é necessário.
O que deve ser feito por nós, mães, é, sem dúvida, oferecer uma “moldura psíquica” e subsídios aprendidos através do modelo, para que a criança tome as suas próprias decisões. Conversar com ela sobre as suas dificuldades e tentar apoiá-la a achar formas de resolver os seus próprios conflitos, sem ficar tentada a interferir e resolver o problema por ela. É claro que quando você fica sabendo de uma situação de preconceito, uma amizade não correspondida ou até uma tirada de sarro com uma pitada de maldade, tão comum nas crianças, você se pergunta: “Será que eu me intrometo?”. O coração vai mandar você fazer qualquer coisa para a história terminar logo. Mas a razão vai levar você a outro destino: é na experiência que ele aprende a se defender. E assim você estará cuidando para a formação do caráter de seu filho.
Pode ser duro assistir às dificuldades que surgem na vida de seu filho, mas, se elas não existirem, ele vai deixar de desenvolver certas habilidades e se fortificar para as lutas cotidianas do mundo real. Momentos de solidão e de tensão são imprescindíveis para as crianças aprenderem a pensar por si próprias e se tornarem adultos independentes e conscientes. Para enfrentar o mundo é preciso experimentar, mesmo que se erre algumas vezes.
É como quando eles eram bebês indefesos, dependentes, quando tínhamos que dar a papinha, trocar as fraldas, colocar as roupinhas ou ajudá-los a dar os seus primeiros passos. Com o passar do tempo, a criança já caminha sozinha, deixa as fraldinhas e já escolhe as próprias roupas. Passou mais um pouquinho e já está querendo ir ao cinema sozinho com os amigos. Pode parecer que tudo passou muito rápido, que ainda é muito cedo, mas o curso natural do desenvolvimento infantil é esse: sempre em frente! E esse comportamento é sinal de saúde psíquica. As mães das crianças que buscam a independência podem ficar satisfeitas e aliviadas, porque é sinal de que foram “suficientemente boas”,  como dizia o psicanalista Winnicott. Ou seja, foram mães amorosas, que cuidaram dos seus filhos com zelo, sem, contudo, aprisioná-los emocionalmente. Caso contrário, seriam crianças dependentes e inseguras.
Mas, lembre-se: essa “independência” saudável, citada aqui, não se parece nem de longe com o abandono psíquico que algumas crianças enfrentam hoje em dia. Essa independência é construída com a presença e o amor dessa mãe que acolhe, mas liberta. Mãe que está sempre presente, como um porto seguro, para quando a criança precisar repousar em seu colo ou apoiar em sua psique, possa certificar-se do seu amor e de seu cuidado permanente. Para, em seguida, continuar seu caminho.

Cristina Silveira é psicanalista, psicopedagoga e educadora,

especialista em neuropsicopedagogia, arte-terapia e psicologia do trabalho. Tem formação em educação inclusiva (TDAH, autismo, Síndrome de Down) e atualização em artes plásticas e saúde mental. Idealizadora do Movimento Resgatando a Infância.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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