Regina Helena Alves Silva
"Como mãe, no máximo você é a tia-avó deles"
Nesse último mês, foi ficando mais claro pra mim o que costumo dizer aos meus amigos que é ser uma mãe-vó. É assim que me sinto desde que meus filhos chegaram em nossa casa. Sou uma pessoa com meus 55 anos de idade que insisto em manter os cabelos grisalhos. Gosto deles assim, com essa aparência de cor nenhuma que pode ser de qualquer cor, dependendo da luz. Fico acompanhando o caminho lento que eles fazem, rumo à alvura dos cabelos totalmente brancos. Gosto de mulheres de cabelos brancos, com o rosto marcado e uma feição entre sarcástica e indignada. Quem me conhece sabe que tento trilhar esse caminho, que às vezes não é fácil.
A questão de me tornar uma mãe-vó começou logo na primeira vez que fui a um espaço público com meus filhos. Fui à Praça Nova York - a campeã de audiência das babás belorizontinas – e ficamos brincando na areia. Meus pequenos, é claro, me davam um baile, correndo por todos os lados, jogando areia em mim e nos passantes... E eu tentava dizer-lhes que não podiam fazer isso. Todas as babás olhavam para mim com um imensa pena, e tentavam me explicar o que eu devia fazer. Aprendi muito nesse dia sobre como é necessário um planejamento estratégico para levar duas crianças a uma pracinha que tem areia, grama e brinquedos de outras crianças, num ambiente envolto por uma rua por onde passam carros o tempo todo.
Quando já estávamos indo embora, uma das babás se aproximou e perguntou: "O que você é deles?". Fiquei sem entender aquela pergunta, mas depois achei que, pela falta de jeito que havia demonstrado, ninguém estava acreditando que eu podia ser mãe das crianças. Falei para ela que eu era a mãe. Rapidamente, ela começou a rir e falou: "Mãe??? Como mãe, no máximo você é tia-avó deles".Tia-avó foi uma coisa que nunca tinha me passado pela cabeça e olhei para ela, seriamente ofendida com aquilo. Por que alguém não queria acreditar que eu era mãe dos meus filhos? Ela me olhou e falou muito claramente: "Você não tem idade pra ter filhos tão pequenos!"
Assim começou a minha saga de mãe-vó. Vários fatos como esse tem acontecido desde então. Não mais com pessoas que ficam penalizadas com minha falta de jeito com as crianças, porque rapidamente consegui dominar a arte de levar pequenos para passeios ao ar livre. Mas a surpresa das pessoas em relação à minha aparência continua a mesma. Um dia fomos ao BH Shopping para comprar algumas coisas para as crianças. Fomos com nossa a amiga Carmen, que também adotou uma criança. Carmen é estrangeira e adotou Maria, uma pequena menina negra. Assim, eu, Sílvia, Duda, Pedro, Carmen e Maria entramos em uma loja de calçados para crianças. As atendentes da loja foram ótimas, todas extremamente solícitas, e como viram que não tínhamos muita experiência em comprar calçados infantis, nos ajudaram em tudo.
A total dissonância cognitiva em relação ao que éramos, no entanto, estava clara. As atendentes ficavam nos olhando e comentando baixinho sobre quem de nós seria o quê das crianças. Ao final, não tiveram dúvidas: Sílvia era mãe de Pedro e Duda, Carmen era um ET que falava enrolado e eu era avó de Pedro e Duda. E Maria? Maria sobrou, ninguém entendia.
Em um dado momento, uma delas se aproximou de mim e falou que era lindo ver uma avó com tanta disponibilidade para as crianças. Eu continuei a conversa falando da minha avó, de como ela nos criou, de como era comigo e com as minhas irmãs. A moça da loja comentou: "Deve ser por isso que você é assim!" Eu olhei para ela e perguntei: "Assim, como?" Ela respondeu que eu era uma avó atenciosa e ainda ia pagar os sapatos dos netinhos. Eu disse a ela que não era avó deles. Nesse momento, elas vieram todas para perto e não resistiram: "Quem são vocês e o que são das crianças? Aquela ali, apontaram pra Sílvia, é a mãe. Mas você e a outra, quem são? Eu falei: "Tem a Maria. Nós três somos as mães deles três." Nesse momento, elas desistiram de entender totalmente e nos deram os embrulhos e um balão pra cada um de nossos filhos.
Quando a Duda esteve no hospital, era muito engraçado porque fiquei lá por mais tempo e a Sílvia foi embora para cuidar do Dinho, providenciar o almoço e levá-lo a escola. Só depois de cuidar de tudo, ela voltou ao hospital. Em alguns momentos, ela saía para comprar alguma coisa ou falar ao celular com todo mundo da família que estava preocupado. À noite, quando a Duda teve alta, a Sílvia estava lá fora falando com sua mãe. O médico deu a alta e uma enfermeira chegou, muito sem graça, e falou: "Preciso falar com a mãe da criança". Eu respondi: "Sobre o quê?". Ela retornou: "Tem que cuidar da papelada do convênio e foi a mãe quem assinou a internação lá embaixo". Ela disse isso de um jeito muito constrangido e só aí entendi o porquê de tantas fuxicos das enfermeiras quando passavam perto da Duda. Deviam estar comentando sobre como a mãe dela era desnaturada porque ficava pouco tempo ali e a avó era um exemplo de pessoa humana. Eu perguntei a ela o que a mãe deveria fazer e ela prontamente indicou o lugar onde deveria ser vista a questão da documentação. Nessa hora, eu disse: "Sou a mãe dela". Um silêncio ensurdecedor foi feito e ninguém acreditou nisso, menos ainda quando a Sílvia, voltando do telefonema, ficou na maca com a Duda e eu fui cuidar dos papéis.
Depois disso, teve a festa de aniversário de um coleguinha da Duda. A família nos recebeu na porta do salão e a mãe disse, ao cumprimentar a Sílvia: "Esta é a mãe da Duda." Quando me viu, e ia me apresentar, a Sílvia disse: "Sou mãe da Duda e do Pedro". Aí, a pobre anfitriã fez uma gigantesca cara de paisagem, sem saber quem eu era. A avó do aniversariante, em certo momento, passando por mim, me cumprimentou e falou que a gente se conhecia mais porque éramos as avós que iam buscar os netos quase todos os dias. Na verdade, essa é uma questão interessante: a idade de ser mãe. Em um mundo onde as pessoas vivem mais, não se consegue mesmo ultrapassar determinadas convenções.
As mulheres vivem mais, têm mais possibilidades de ter filhos em idades antes impossíveis de se imaginar, mas basta uns cabelos brancos para que tudo isso seja inviabilizado. Mas é mesmo uma questão de idade, de capacidade física, de conseguir ter a quantidade de energia necessária para ser uma mãe presente. Conheço muita gente bem mais nova do que eu que não entende quando eu falo isso. Para mim, essas são mães da tercerização, aquelas que, para ter filhos e trabalhar, têm que estabelecer uma parceria público-privada entre escolas, babás e lugares públicos para onde levar as crianças.
Não é simples trabalhar e ter filhos, ter atividades, ter interesses, querer ter algo próximo a vida que tínhamos antes deles. Como sabemos muito bem o quanto nos custa fazer tudo isso, eu entendo que muitas mulheres me vejam como a avó dos meus filhos. Para elas, é muito difícil entender como eu posso tentar dar conta de tudo isso com a idade que tenho, ou aparento ter.
Na verdade, esse é o desafio de todas nós: como nos manter como indivíduos e dar conta dessa que, aparentemente, é uma “missão impossível”. Inês, minha orientanda de doutoramento portuguesa, fica sempre “absurdada” com as publicidades brasileiras e com o lugar onde colocam o papel da mulher. Como a mulher pode, além de ser “bonita e inteligente”, se animar com um produto que a ajude a “cuidar da casa” com eficiência. Em um mundo assim, onde já naturalizamos que precisamos de “ajudas” externas para darmos conta do que temos de fazer, é natural olhar para as mulheres mais velhas e só entendê-las apenas como avós: aquelas que já cumpriram sua cota e agora “ajudam” as filhas a darem conta.
Eu e Sílvia optamos por não termos babás ou “secretárias” (forma hipócrita-brasileira para denominar a empregada doméstica) para nos ajudarem a dar conta de nossos filhos. Mas temos a escola, a família, os amigos, enfim muita gente está ao nosso redor. Ironicamente, não podemos contar com as avós de nossos filhos para nos ajudar: nossas mães têm mais de 80 anos de idade e já não dão conta da imensa energia de Duda e Pedro. Assim, eles poderão ter uma mãe-vó, o que não é muita vantagem porque meu lado mãe não deixa a vó estragá-los.
Minha avó ajudou minha mãe a criar seus filhos. Desse modo, ficou um pouco neste lugar onde me encontro. Mas eu tive vó. E como tive! Meus amigos acham que eu ligo pra tudo isso por causa da idade. Mas os que me conhecem há mais tempo sabem que eu não ligo a mínima para a idade e que carrego com orgulho todos os meus cabelos brancos. No entanto, tenho uma pena às vezes grande de meus filhos não poderem ter avós como a que eu tive. Nossas mães têm sérios problemas de locomoção. Pedro, toda vez que fala com a vovó Victória ao telefone, pergunta: "Seu joelho tá doendo? E a banguela?" Banguela é como Pedro chama a bengala da avó. Meus filhos só vêem minha mãe sentada ou caminhando bem lentamente e tendo que parar depois de poucos metros para conseguir respirar. Ao mesmo tempo, acho legal porque as avós deles já são apenas mulheres calmas, sem a urgência das coisas dos tempos atuais. Estão mais perto de uma vida em que o tempo corre lento. Elas podem olhá-los e nos dizer para não termos tanta pressa, nem tanta preocupação. Elas podem nos dizer que conseguiremos dar conta.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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