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Magali Simone de Oliveira

Mães e filhas

Chego cansada e triste. Estou arrasada. Mais uma vez não tirei carteira. Mariáh vem correndo, com a bochecha rosada por causa do calor. Ela é muito clara, por isso, está sempre com o rosto rosado, como se alguém tivesse lhe acabado de apertar as faces.
-E aí, passou? Tirou carteira? pergunta ofegante, como se fosse comemorar e sair gritando. Só que não.
Não passei. Nem digo nada. Mas ela traduz o meu silêncio e só abre os braços para me confortar.
Abraço e desabo. Desabafo. Conto tudo. Onde errei. Por que errei. A sensação que tirar carteira é alguma coisa que não foi feita para mim.  De repente, vejo-me pedindo emprestado os ouvidos dela. Quero que ela, meninota de 14 anos, me escute e me dê conselhos. Por alguns momentos não sou mais a mãe. Sou a filha. E preciso de colo.
Ela me olha compreensiva.
-Mãe. Ô Mãe. Você já passou por coisas piores. Se desistir de fazer o exame, vai perder toda a grana que já investiu nesse seu sonho de tirar carteira. Não desiste não. Você consegue sim. Muita gente demora a tirar carteira. Fica tranquila.
Não é o suficiente para me tirar a sensação de fracasso das costas. Mas de repente, eu olho para o rostinho rosado e vejo que as bochechas estão mais magras, mas ela ainda se parece com o bebê que um dia entrou dentro do cesto, ou a menininha que passava o batom no rosto todo, menos nos lábios.
Abraço e agradeço. Fico orgulhosa de ver que ela está ao meu lado. É minha companheira. Vejo então que tirar carteira não pode ser algo tão impossível assim. Penso que – apesar das três tentativas frustradas – não fracassei. Consegui sozinha, sendo pai e mãe criar essa menina que, às vezes, é super criança e bebê, mas às vezes, é madura. Mais madura e mais focada na vida que eu.
Vejo que não é à toa que a Terra é redonda. Somos filhos de um planeta redondo. E azul. Que gira, gira, e gira. E nos presenteia com um dia atrás do outro. Para que a gente possa transformar as coisas. Para que a gente possa se levantar depois das quedas.
Um mundo fluído. Onde mães podem se tornar filhas e filhas podem se tornar mães.

magali simone, bh da meninada, crônicas

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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