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Regina Helena Alves Silva

Mais um protesto: uma cidade para as crianças

Mais uma semana de agitação política no Brasil. Continuo acompanhando e pensando no que tudo isso pode mudar o futuro para os meus filhos. Fiquei pensando na imensa diversidade de bandeiras e cartazes que vi nas mãos das pessoas que foram às ruas. Falava-se de tudo, mas algo ficou de fora. O que eu acho que faltou?

Me veio a ideia de escrever o que aqui está quando vi nos jornais a entrevista de uma juíza, falando dos “vândalos” que foram presos e que eram menores. Um pouco mais de 50 meninos foram presos. É claro que, como tudo neste país, os meninos de classe média eram citados como tendo sido “aliciados”, ou seja, “influenciados” por outros. Quanto aos outros meninos, a reportagem apenas dizia que “já eram fichados” e foram recolhidos nos locais apropriados.

Na reportagem, falavam de crianças de 12 anos de idade. Claro que os de classe média estavam acompanhados dos pais. Muitos ou todos sequer sabiam do conteúdo dos cartazes e faixas. Isso me fez pensar em quais seriam seus cartazes, se eles soubessem que é possível pedir e reivindicar também. Não sei mesmo como responder isso, não posso me referenciar na minha infância, que foi em outra Belo Horizonte, uma cidade de muitos anos atrás, que ainda permitia brincadeiras nas ruas.

Então fiquei pensando na cidade que ando conhecendo nesse último ano, desde que meus filhos chegaram. Não vou falar de segurança e coisas desse tipo. Acho que meus filhos teriam primeiramente outras reivindicações, já que ainda não entendem muito bem dessas questões. Pediriam coisas simples, fáceis de resolver...

A primeira coisa com que eles implicam demais são as calçadas. Eles são pequenos e começaram a andar maiores distâncias (tipo uns quatro quarteirões) há pouco tempo. Eles tropeçam o tempo todo, têm que ficar pulando buracos, pedaços de cimento e pedras soltas. Eles são tão pequenos e não conseguem andar um trecho pequeno sem ter que ficar olhando para o chão o tempo todo. Como podemos criar crianças que não podem olhar para a frente nem para os lados? Que não conseguem ver as pessoas à sua volta? As crianças desta cidade não podem fruir a rua, não podem entendê-la, não podem olhar o céu.

Daqui sairia o primeiro grande cartaz: “Queremos andar na cidade e olhar o céu... sem tropeçar!"

A segunda reivindicação deles seria um pouco mais de educação da cidade para com seus lugares. A pracinha em frente ao nosso prédio é bem pequena, mas meus filhos a adoram. Tem grama, árvores, passarinhos e uma parte de cimento, onde eles gostam de andar de carrinho. Então, o que ela tem de errado? Qual seria o cartaz que eles gostariam de pregar no poste para que todos nós lêssemos? “Atenção: quem tem cães, por favor, não os deixem sujar nossa praça.” Os animais não sabem que estão sujando a praça das crianças, mas seus donos sabem disso muito bem. Eles os levam para fazer xixi na grama e cocô debaixo das árvores e nos cantos da praça. A praça fica uma sujeira, as pessoas não limpam e, o que é pior, deveriam levar seus cães para fazer suas necessidades em um lugar que não fosse tão usado por crianças. As pessoas não têm consideração com os outros, pensam apenas nas suas demandas. Saem com seus animais e resolvem tudo no lugar mais perto, sem entender que os espaços da cidade são de todos. Mais um cartaz sairia dessa demanda: “Todos nós temos direito aos espaços da cidade."

A terceira seriam os parques. Belo Horizonte tem muitos pequenos parques agora. Parques grandes são poucos, mas os pequenos existem em muitos bairros. Esses parques e as praças maiores têm poucos espaços e equipamentos para crianças pequenas. Os brinquedos, em muitos deles, são de madeira pesada ou muito grandes e não tem coisas menores, pequenos equipamentos para as crianças de 2 a 5 anos. Em alguns parques, não se pode usar a grama, todas as lixeiras são pequenas e não há estrutura para piqueniques. A oferta de alimentos (quando tem) é péssima e nada apropriada para refeições ou lanches de crianças. A grande maioria não tem estacionamento e os que têm pontos de ônibus na entrada não têm lugar para os pais sentarem direito, não têm lugar de parada de carrinhos e nenhuma ajuda para que os pais subam com toda a tralha necessária e mais as crianças nos ônibus, quase sempre lotados. Esta seria a faixa maior da passeata das crianças: “Parques e praças para as crianças”.

Outra coisa que sempre fazemos com nossos filhos é sair no sábado de manhã pra dar uma volta na rua. Antes deles chegarem, nós saiamos no final da manhã para dar uma passada na Savassi, olhar as livrarias, as lojas dos amigos e encontrar todo o mundo para tomar uma cervejinha. Agora saímos com as crianças, aproveitamos para andar um pouco na rua com eles, entramos nas livrarias e eles ficam fuçando nos livros infantis, olhamos as lojas de roupas e calçados de crianças e depois nos sentamos em um dos bares para almoçar com os amigos. Depois que a Savassi foi “revitalizada”, os quarteirões fechados foram ampliados e tem muito mais espaço sem carros. Mas nesses lugares não tem nada para crianças. A tal “revitalização” não pensou em nenhum instante que ali também seria um espaço para as crianças. Criou bancos que parecem tumbas de cemitérios, com encostos esquisitos onde não dá mais para brincar. Tirou árvores e não tem grama para brincar, Enfim, é um lugar insípido, frio e mal projetado para ter vida. E criança não gosta de lugares que não permitem a vida.

Outra experiência foi ir à Avenida Bernardo Monteiro, no piquenique do Fica Fícus. Além da retirada das árvores, aquele lugar ficou sem grama... essa cidade da minha infância meus filhos podem ainda ter. A cidade que tinha vida, árvores, grama... a cidade que permitia a vida não só nos espaços reservados pra isso, mas em toda a cidade. Esta seria a faixa de fechamento da passeata das crianças: “Temos direito a cidade!

Tantas outras coisas eles querem, além dos espaços. Querem tempo. Tempo de atravessar nas faixas, tempo fora dos carros e ônibus, tempo pra brincar mais. Querem atenção e cuidado, querem espaços e lugares só pra eles.

A grande ação, que sempre falta, é a de olharmos para o que as crianças exigem dos lugares onde habitam. Elas exigem vida e vida só se tem com respeito ao que nos é comum. Uma cidade para as crianças seria, sem dúvida, uma cidade melhor para todos nós. As crianças deixam explícitos seus conflitos, exigem o que querem para si, pedem e pegam o que entendem como possibilidade. As crianças experimentam o espaço, exigem dele mais condições de uso e se apropriam das coisas de formas inimagináveis para nós, os adultos.

Isso tudo me lembrou dois momentos de três anos atrás, quando fiquei fora do Brasil fazendo meu posdoutoramento. Eu já estava há um mês em Coimbra (Portugal). Uma cidade ótima, tranquila, perfeita para estudar. Muita gente tinha me dito que eu não ia “aguentar” morar lá justamente por ser muito “parada”. Eu me adaptei muito bem à cidade e não senti falta de nenhum “agito”.  Só tinha alguma coisa lá no fundo que dava uma sensação de vazio. Um dia, descendo até a “baixa”, vi um grupo de crianças do outro lado da rua, entrando em uma escola... era isso o que faltava na cidade: crianças! Portugal é um pais de poucas crianças, a gente mal as vê pelas ruas das cidades. Crianças são um som, um ruído que todas as cidades precisam para serem cidades.

A outra cena foi no inverno, um frio intenso, quando fomos viajar pela Itália. As ruas das cidades todas tinham muitas pessoas, mas como minha pesquisa era sobre “centros históricos”, eu passava a maior parte do tempo nesses lugares das cidades que visitava. Num sábado de manhã, para manter a tradição de sair as ruas para caminhar, ver livros e tomar café, desci do hotel até o centro de Padova. Muita gente com muito frio, mas todos andando ou conversando em grupos pelas ruas fechadas com muitas, mas muitas crianças correndo e andando por todos os lados. Não existia um “espaço kids”, como é comum agora nos lugares das cidades. Eram a rua, a praça, as esquinas, enfim, a cidade, e muita gente nas ruas com suas crianças no sábado de manhã.

Essa é a minha principal reivindicação como mãe recente: "Quero uma cidade para meus filhos!"

Uma colega que ocupou durante anos um cargo na prefeitura de Belo Horizonte, um dia, em uma audiência publica com o atual prefeito falou que gostaria mesmo era de ver uma audiência pública com as crianças da cidade. A partir disso, cedi um espaço nesta coluna para o seguinte comunicado:

A Assembléia Infantil Horizontal, em reunião permanente, tem as seguintes reivindicações de emergência ao Sr. Prefeito:

-  uma cidade mais alegre, mais feliz;

- a volta das árvores de onde foram arrancadas;

- muito mais árvores e grama e flores e frutas e pássaros;

- que se deixe as capivaras nos jardins do Museu da Pampulha porque elas eram uma parte da nossa felicidade;

- que a tarifa dos ônibus seja zero para as crianças, adultos, idosos e todos;

- que as ruas sejam lugares de parar, conversar, gritar, brincar, circular e andar sem tropeçar ou cair em buracos;

- que os parques e praças tenham muitos, muitos e muitos brinquedos para todas as nossas idades;

- que o algodão doce e a pipoca voltem para todas as praças, parques, esquinas e ruas;

- que a comida dos lugares públicos seja tão gostosa quanto a da nossa casa;

- que os micos, quatis, pássaros, passarinhos e abelhas e joaninhas e tudo mesmo que for bichinhos possam viver nas ruas com a gente;

- que o zoológico volte a ser um lugar bem legal, que seja limpo e com calçadas, caminhos e ruas arrumadas e espaços para piquenique;

- que nunca mais nossas festas juninas sejam proibidas por causa de uma tal de Copa de futebol;

- que nossa cidade seja um Belo Horizonte.

E é isso, por enquanto, e, se o sr. não atender nossas reivindicações não ocuparemos a Câmara Municipal (onde estiveram nossos irmãos mais velhos), mas ocuparemos todas as ruas da cidade e as faremos muito, mas muito melhor do que o sr. tem feito.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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