Betzaida Tavares
Marcovaldo, Edu e a natureza
Não faz muito tempo e descobri uma nova doença. Chama-se Transtorno de Déficit de Natureza. Trata-se de uma patologia, com sigla e tudo – TDN – com a qual são diagnosticadas as crianças que vivem entre o asfalto e as paredes de um apartamento, carentes de um pouco de terra para sujar as mãos e de um canto verde onde possam se descansar das brincadeiras. Os sintomas são obesidade, falta de atenção, ansiedade, dentre outros. E o tratamento? Qualquer pessoa razoável haveria de supor que a “doença” pode ser controlada, ou até mesmo extinta, com excursões periódicas a parques ecológicos ou idas eventuais a cachoeiras. Não. Como todas as enfermidades dos nossos dias, o TDN precisa ser tratado com psicotrópicos. Mais uma vez optamos por dopar nossas crianças para curá-las de um mal que não está nelas. É mais fácil que repensar o espaço urbano que se tornou insalubre e a rotina doentia à qual submetemos nossos filhos. Dá menos trabalho.
A notícia dessa nova doença me fez lembrar de um homem e de um menino, ambos potenciais transtornados em função do déficit de natureza. O homem é um personagem criado por Calvino. Marcovaldo, operário nostálgico da vida no campo, vive a percorrer a cidade em busca de alguma natureza residual: cogumelos que brotam perto do ponto de ônibus, minúsculas folhas que crescem em meio à poluição, gatos de rua e as aparições efêmeras da lua nos curtos intervalos em que se apaga um letreiro pisca-pisca. Maravilhosamente transtornado pela vida na cidade grande, sua busca obstinada e inocente é a narrativa poética de Calvino. Vivesse Marcovaldo em nossas cidades e ele iria parar em algum posto de saúde onde lhe seriam prescritos ansiolíticos encontrados na Farmácia Popular. Nenhuma busca, nem poesia.
O menino é Edu, garotinho de quatro anos que vive num apartamento no centro da cidade. Passa as manhãs brincando em um pátio de ardósia do prédio onde mora sob os olhares vigilantes da babá, Teresa. Corre em círculos, grita e depois, entediado, senta-se num canto, aborrecido por não ter mais o que fazer. Depois, caminha olhando pelo chão, como se procurasse alguma coisa muito importante. De repente, seus olhos se iluminam e ele grita:
– Tetê, vem ver! Encontrei uma natureza!
É um pequeno mato que, persistente, conseguiu crescer entres as brechas das pedras e desponta heroico e imperceptível aos olhares cimentados pela vida na cidade.
Edu continua, percorre o pátio, atento como um detetive e examina cada detalhe do chão duro.
– Outra natureza, Tetê!
Era uma formiguinha que ele tenta cercar com as mãos. Mas ela escapuliu correndo por uma brecha que havia entre seus dedinhos e o menino a acompanhou com o olhar até que ela desaparecesse por alguma fresta de ardósia.
Corra também, Edu. Fuja dos diagnósticos e das prescrições com que os adultos de hoje em dia querem cercar as crianças. E nunca deixe de acreditar que os matinhos crescidos nos cimentos podem se transformar em bosques cheios de flores e de árvores a oferecer sombra e paz para os moradores das cidades. Só as crianças e os poetas creem nisso. Mas dessa crença depende a possibilidade de um espaço mais habitável para todos nós.

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.
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