top of page

Regina Helena Alves Silva

Mães S/A: Maternidade e trabalho

Sentada aqui, pensando em como abordar o tema que escolhi para esta semana, vejo a notícia de que a GloboNews ganhou o Prêmio Sebrae de Jornalismo com o programa Mãe S/A. Nunca vi esse programa, mas me chamou a atenção porque eu estava pensando no que significa ser mãe e trabalhar ao mesmo tempo. Como pesquisadora da universidade, já vi, li e discuti milhares de vezes a dupla jornada de trabalho da mulher, a questão feminina e a maternidade, ser pesquisadora e ser mãe, enfim um monte de coisas relacionadas a isso.
Na noite anterior, eu tinha visto um pedaço do Profissão Repórter, na Globo, que era sobre mães pobres que saem pra trabalhar e como deixam suas crianças durante todo o dia sozinhas ou com vizinhos. E a luta delas por uma vaga nas creches.
O tal do Mãe S/A olhei aqui na internet e descobri que é sobre “mães empreendedoras", aquelas que criam seus negócios e podem ficar mais tempo com os filhos em casa. Bom, fico aqui pensando: e a mães que não são empreendedoras? Que trabalham fora e que gostam do seu trabalho. Falo desse tipo de trabalho que a gente carrega pra casa. No meu caso, com o agravante de ter me tornado mãe aos 55 anos de idade, exatamente no momento em que já posso aposentar... mas ainda não decidi se é isso o que quero agora.
Escolhi o meu trabalho e adoro o que faço. A vida na universidade não anda lá muito boa, mas eu gosto do que faço. Minha rotina, por anos, foi em torno do meu trabalho. Eu pensava quase 24 horas por dia no meu trabalho.
Há muitos anos, uma amiga ficava me azucrinando, dizendo que minha vida não tinha rotina, e eu ficava pensando no que ela chamava de rotina.
Eu ia para a universidade, tinha reuniões, aulas, orientações, pesquisas e administração e tudo com horário, com demandas e com rotinas e mais rotinas, horários e mais horários. Mas eu dormia na hora que queria, saía à noite no dia que não tinha aulas, viajava nos finais de semana, namorava bastante. Nada me prendia muito, a não ser o tal do trabalho.
Hoje olho para estas duas coisas: mães empreendedoras que trabalham em casa e mães pobres, que têm que sair às 6h de casa e só voltam às 20h, para pegar os filhos na vizinha, após um dia inteiro. Quando eu e minha companheira resolvemos adotar, muita gente me dizia: você vai adorar ser mãe, ainda mais que já esta com a vida ganha! Eu nunca entendo o que significa essa fala. O que seria uma vida ganha?
Com certeza, eu não seria uma mãe empreendedora do tipo do programa da GloboNews que tem pet shops ou lojas de doces. Não tenho o estilo Sebrae de ser. Também não sou uma mãe pobre, mas entendo muito o sofrimento delas e a angústia de não poder ficar com os filhos porque precisam trabalhar para que seus filhos possam ser filhos delas.
Sou uma mãe angustiada, que acha que fica pouco com os filhos. Quando escrevi aqui na semana passada sobre a escola integral, algumas amigas me disseram que seus filhos estão na escola integral desde sempre e ficaram pensando quando leram o que escrevi.
Aliás, aconteceu uma coisa engraçada há algumas semanas. Eu tinha um seminário na UFMG, com muita gente envolvida. Eu apresentaria uma parte de uma pesquisa junto a uma mestranda, com relato de um professor do Rio. Tudo isso porque estamos escrevendo um livro em conjunto e o seminário era para discutirmos e formatar o livro com consistência. O que aconteceu? Minha filha ficou doente e o meu menino ficou todo atrapalhado mais uma vez, já que ela tinha mais atenção do que ele. O que eu fiz? Deixei todo o mundo na universidade a ver navios e fiquei com os dois. A pobre aluna, a me mandar torpedos perguntando onde eu estava e eu... respondia como podia, ou seja, estou com minha filha.
Muita gente me perguntou: e a Silvia, onde estava? Ora, ela estava comigo e com os nossos filhos. É claro que agora estou de férias-prêmio (ainda sou do tempo que professores federais tinham esse direito) e minha escolha não era entre eles e a aula, que é a coisa mais importante pra mim. Mas isso são escolhas e, desde que virei mãe, entendi que tem necessidades que não são minhas e escolhas que não são por mim. Então, o trabalho passou para o segundo plano.
Um segundo plano que é o da necessidade, o do cuidado e da atenção que uma criança exige. Crianças não entendem o que é trabalho. Eles apenas sabem que é o que nos tira de perto deles. Então, sair para trabalhar ou trabalhar em casa para eles dá na mesma, se não damos a atenção que eles demandam.
Isso me fez pensar no que as Mães S/A fazem para trabalhar em casa. Os filhos  estão na escola, é claro, igual aos das que trabalham fora.  Mas elas, em casa, conseguem de forma bem melhor cuidar da rotina da vida com crianças.
E agora, só agora, eu sei o que é esse tipo de rotina.
Pensando nisso tudo e na relação mãe /trabalho, vou fazer um pequeno relato de uma parte do meu dia: saio de casa perto das 17h30 e chego na escola dos meus filhos. Depois de umas três voltas no quarteirão, consigo uma vaga. Entro na escola e vejo sempre meus dois filhos correndo enlouquecidamente na quadra. Espero um bom tempo porque quanto mais eles correm, mais eles dormem à noite e isso é fundamental porque trabalho de noite e preciso do tempo para fazer o que tenho de fazer. Eles vêm pro meu lado  perguntando: "O que tem hoje?" A gente sempre leva um lanchinho pra eles no final da aula.
Volta pra casa, banho e jantar. Todos os dias, a Silvia dá banho neles e eu preparo o jantar. Num dia desta semana, ela teve uma reunião à noite e eu dei o banho e depois o jantar. Meu filho, sabendo que tudo estava diferente, resolveu fazer a maior de todas as pirraças que consegue fazer: olha para o prato de comida, olha bem... e pára. Ele às vezes faz isso e olha pra mim, esperando que eu perca a paciência. Resolvi não perder.
Meu filho tem uma necessidade incrível de que a gente fique ao lado dele, segurando a mão dele enquanto come. Se não fizermos isso, ele não come. Então, o que fazer? Deixar que ele fique “viciado” em querer a atenção só para ele? Quando ele faz essas exigências, ele não quer que ninguém dê atenção à irmã, que a gente coma junto, nada disto, ele quer a atenção total. Isso demanda tempo e atenção. Isso demanda não pensar no trabalho quando estamos com ele e com minha menina.
Nesse dia, fiz tudo o que é necessário fazer: jantar e sobremesa; brincar de experiência maluca; filminho no DVD; pintar e colorir, brincar de “poinga-poinga” (que consiste em pular enlouquecidamente em cima do colchão da nossa cama – só eles é claro); escovar dentes, fraldas e cama. Cantar musiquinhas, contar histórias e finalmente vê-los dormir. Tem também um ritual que me esqueci: eles esperam o caminhão de lixo e pulam para a janela do quarto porque amam ver os lixeiros-laranjas jogarem os sacos pretos no caminhão. Só depois disso, aceitam deixar e dormir.
Todo esse tempo o telefone tocava, o celular fazia barulhinhos de torpedos caindo e o iPad fazia milhares de sons de emails, mensagens no Facebook e chamadas no Skype. Eu tinha marcado com um monte de gente várias coisas: orientandos que não moram em BH; projetos com grupos de pesquisa no exterior que precisavam ser finalizados; alunos querendo trocar ideias sobre textos; bolsistas querendo saber da reunião do dia seguinte; pareceres que precisavam ser mandados naquele dia; textos que precisavam ser finalizados para publicação, etc, etc, etc...
Fico pensado nas mães que trabalham fora, saem às 6h e voltam as 20h. Nada disso é possível a elas. Só é possível cuidar correndo da casa e dormir para acordar de novo e começar tudo de novo. As Mães S/A podem se organizar durante o dia e, quando os filhos voltam pra casa, podem ter uma rotina mais “ampliada” com eles. Isso se o trabalho tiver ficado no tempo delas sem os filhos, porque se eles estiverem junto é o quase caos diário que eu vivo em casa.

Às vezes eu olho para todas as tarefas de mãe e tudo o que as crianças demandam e penso com meus botões: ninguém tinha me dito que era assim, ninguém tinha me avisado que eu ia quase enlouquecer com coisas como uma pirraça de um filho olhando para um prato de comida; com uma filha dizendo “não faço, não faço” para qualquer coisa que você pediu a ela para fazer. O mundo lá fora me chamando e eu, neste dia, sem saber o que fazer com uma criança de três anos e 9 meses que olha horas para um prato de comida.
Mas existem trabalhos e empregos, trabalhos e formas de gerar renda, existem trabalhos que a gente ama fazer, que não são só para a sobrevivência ou para nos organizar nesse imenso mundo do consumo. Eu tenho o privilégio, como já disse, de ter o trabalho que escolhi.
Eu sempre tenho algo a fazer em casa além do que faço na universidade, sempre tenho trabalho atrasado. Passo o tempo todo pensando no meu trabalho, nas aulas, nos textos que tenho que escrever, nas pesquisas e nos textos de meus orientandos.
A vida acadêmica virou uma “empresa-empreendedora” que tem que produzir, produzir e produzir. Mas a qualidade da produção não interessa, interessa o quanto publicamos e o quanto “captamos” de verbas de pesquisa. Essa virou nossa moeda e essa virou nossa vida, um produtivismo sem sentido Hoje tenho tantos orientandos que confundo os projetos de uns com outros. Antes diziam que não era visto com bons olhos vocês ter mais de duas pesquisas e que o bom mesmo era ter uma e de longa duração. Agora, quanto mais pesquisas aprovadas melhor e quanto menos elas durarem melhor.
Uma colega de universidade, há um tempo, respondendo a uma pesquisa sobre discriminação/preconceito no ambiente acadêmico, que perguntava porque existia um número bem menor de mulheres entre os bolsistas produtividade CNPq, dizia que era incompatível tanta “produtividade” e ser mãe. Na época, fiquei um pouco em dúvida com relação à resposta mas hoje... como a entendo!!!
Vivo nessa vida, nessa roda viva.
Eu vivo plugada, não desligo nem um minuto, vivo escrevendo ou lendo algo. Meu filho já se senta ao meu lado ou da Silvia e pede pra ler junto com a gente, mas os livros que nós lemos...
No geral, se tudo corre bem, por volta das 21h meus dois filhos já dormiram mas nesse dia somente às 22h20 eu consegui que eles dormissem. Depois de colocar a roupa do dia na máquina de lavar, arrumar a cozinha deixando as coisas preparadas para o café da manhã, eu pude tomar um copo de água de coco. Calmamente me sentei no computador para enfim com três pessoas que me esperavam online há horas terminar o projeto da Capes de intercâmbio com a França... o prazo terminava à meia noite.
Será que devo me aposentar?

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

© 2012 by Daniela Mata Machado Tavares. Todos os direitos reservados

contato@bhdameninada.com

bottom of page