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Betzaida Tavares

Ainda sobre meninas e princesas

Algumas princesas me aborrecem: aquelas que estão enclausuradas no alto da torre, imersas num mundo de sonhos, vítimas resignadas ou tolas que se deixam iludir pela maçã envenenada. Vivem à espera do príncipe. Quando ele, finalmente, aparece, a história se encerra. Ou alguém por acaso já teve notícia sobre que fim levou uma princesa depois do casamento em que “foram felizes para sempre”?  Na verdade, eu já tive! Estava com quinze anos e uma colega de sala, de argúcia incomum para a idade, escreveu uma redação em que a Cinderela se divorciava do príncipe. Mas regra geral, princesas só existem enquanto esperam.
Contudo, nem todas são iguais.  Gosto, por exemplo, daquela que era de uma sensibilidade tão refinada que ao dormir numa cama com vinte colchões empilhados sobre uma pequena ervilha sentiu uma tremenda dor nas costas. Fresca? Não creio. É que somos tão embrutecidos que sequer percebemos quando um pequeno mal-estar, do tamanho de uma ervilha, instala-se em nossa vida para depois criar um estrago enorme, que nem um hipopótamo seria capaz de fazer. É nobre conseguir notar as coisas pequenas, sejam elas boas ou más.
A princesa de que vou falar aqui não é daquelas que vivem isoladas numa floresta ou adormecidas num sono secular. Menos ainda do tipo submissa que aceita resignada as humilhações da madrasta, enquanto espera que um príncipe desconhecido a liberte. Eu a conheci por acaso, no meio de estrofe de uma música do João Bosco. Bastaram dois versos para que eu me encantasse: “Sou bem mulher, de pegar macho pelo pé, reencarnação da princesa do Daomé”. Era possível então ser princesa sem ser besta. Agarrar pelo pé, ao invés de ficar eternamente à espera. Desnecessário dizer que eu, como muitas outras, desejei profundamente ser a reencarnação de tão nobre mulher. Infelizmente, soube há pouco tempo, essa possibilidade não existe. A princesa do Daomé reencarnou em Gabriela, garotinha esperta e faladeira, que usa trancinhas multicoloridas nos cabelos. Anda de ônibus com a mãe e o irmãozinho. Gosta de se misturar aos plebeus da nossa terra, pessoas lutadoras e determinadas como aquelas do reino de onde ela veio. Já a nobreza daqui não a agrada muito: é feita de uma gente chata e sem iniciativa. Nessa encarnação, ela filha de um fotógrafo e, com o pai, aprendeu a ver as coisas bem de perto. Sua sensibilidade para os detalhes faz lembrar a princesa do grão de ervilha. Gabriela sabe que só um olhar aguçado consegue perceber as variações mais sutis da paisagem: “Verde não é tudo igual, olha lá... Tem verde com brilho e sem, aveludado, macio, quase marrom, mas ainda é verde”.
Apesar de ser uma menininha conversadeira não é a qualquer um que conta sobre sua nobre linhagem. Contou para minha amiga Martha, outra princesa disfarçada de gente comum que, ao seguir de ônibus para o trabalho, sentou-se ao lado da menina.
– “Eu sou a princesa do Daomé” – Gabriela se apresentou ao mesmo tempo em que revelava um segredo.
Martha, que além de princesa é contadora de histórias, tratou de escrever um livro sobre a menina do ônibus. E eu, quando peguei aquelas páginas cheias de cores e de vida, lembrei-me das princesinhas de hoje em dia, com opacos vestidos cor de rosa, sapatinhos de salto e aulas de boas maneiras.  Tive pena dessas meninas, precocemente enclausuradas em salões de beleza e butiques infantis. Queria poder lhes dizer: “Fujam! Corram enquanto é tempo.” Elas precisam saber que príncipe nenhum irá lhes restituir a identidade. Príncipe não, mas quem sabe...
Quem sabe uma princesinha, vinda do Congo ou de Benin ou ainda daqui bem de perto poderá resgatá-las. Uma menina como elas, com trancinhas no cabelo e miçangas coloridas que descerá de um ônibus e as fará compreender que aproveita melhor a vida que anda com os pés descalços e a cara lavada.
                

 

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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