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Roger Andrade Dutra

O menino maluquinho, a síndrome coletiva de Déficit de Atenção e a infância medicalizada

Abordarei o tema de hoje com os instrumentos do pesquisador e professor, mantendo o máximo possível a ótica de pai. Tentei ser conciso, evitando citar as referências acadêmicas que me balizaram. Caso alguém tenha interesse por elas, basta solicitar.

Para a compreensão das síndromes psicossociais, o papel do contexto é tão determinante como os indícios somáticos clássicos. Por exemplo, há quem alegue, sofrer desconfortos causados pelas antenas do sistema de telefonia móvel. É um nexo ainda não comprovado mas, se existirem pessoas com esse perfil de intolerância, isso não significa que elas, ou sua doença, apareceram repentinamente. Nesses casos, a alteração ambiental precipitou, em perfis somáticos que existiram desde sempre, uma intolerância que não teria se manifestado de outra forma.

Não é raro ler que o TDAH, o deficit de atenção e hiperatividade, ou a fibromialgia, seriam “coisas da nossa cabeça”. Contextuais ou ambientais, sua realidade física, somática, não é menos real do que a de qualquer outra das patologias tradicionais.

O aumento no diagnóstico de TDAH em crianças, acompanhado na elevação no consumo do metilfenidato, a ritalina, tem sido denunciado como o que seria uma injustificável medicalização da infância. Já que o aumento das prescrições é fato incontroverso, fala-se de uma epidemia de diagnósticos. O cerne das controvérsias reside em compreender tudo isso, no intervalo demarcado pelas alterações ambientais e pelos perfis somáticos que interagiriam negativamente com elas.

Frequentemente, a culpa pela medicalização é distribuída entre um universo bem determinado: laboratórios gananciosos, médicos não especializados, psicólogos, pedagogos e psicopedagogos. As medicalizações não são novas, basta lembrar como a gravidez foi absorvida quase in totum pelo aparato médico-hospitalar. Há lugares em que a corporação médica sente-se tão à vontade, que passa a tratar parteiras como meras charlatãs.

Mas esse não é o meu tema. Minha intenção é a de associar o aumento da hiperatividade na infância e adolescência a um processo social mais abrangente, que afeta indistintamente a todos nós e que exibe características estruturais semelhantes àquelas do TDAH regularmente diagnosticado nos indivíduos. Antes de ingressar no tema, mais alguns esclarecimentos:

a) sou, eu mesmo, um portador do TDAH (há cerca de sete anos, lendo um artigo científico que descrevia os sintomas, me autodiagnostiquei; em seguida, procurei uma psiquiatra); por isso, não sou, não pretendo e nem é possível ser, um observador neutro;

b) não creio que o TDAH seja unicamente mera invenção da indústria farmacêutica;

c) a indústria farmacêutica é, SIM, capaz de inventar síndromes, não tem o mínimo escrúpulo em relação a isso, algo que está fartamente documentado em livros e artigos científicos;

d) as relações atualmente predominantes entre médicos e laboratórios são, SIM, preocupantes, havendo uma aura de suspeição em tudo que reúna ambos os grupos;

e) as escolas concorrem igualmente para a medicalização infantil; isso decorre de sua incapacidade estrutural crônica para apreender, como fenômenos não-estáticos, os modos de ser da infância e da adolescência.

Consoante isso tudo, ainda assim, há simplificações demais: um complô da indústria farmacêutica, médicos e psicólogos mal preparados, escolas que desaprenderam a lidar com a infância etc. Todos esses fatores são verdadeiros, em alguma medida. Reunidos, todos pressupõem as crianças como seu objeto inicial. Por outro lado, muitos críticos da medicalização tratam as crianças como vítimas de um sistema impiedoso, mas apresentam como contraponto uma imagem idealizada e nostálgica do “ser criança”, tão indefensável como a crença de que tudo se resuma a maquiavélicas articulações entre a corporação médica e a indústria farmacêutica.  Eu me lembro bem de quando eu, criança, morava em uma rua de terra batida da periferia de Belo Horizonte, sem água ou esgoto tratados, lia os gibis da Turma da Mônica querendo compreender como o bairro do Limão podia ter tanta árvore, praça, lagos e córregos. Patologizar a infância é tão inaceitável como idealizá-la.

Feitas as ressalvas, o que sugiro aqui é ampliar a compreensão desse contexto. Se atentarmos para a maneira como se descreve o que é a síndrome de desatenção, me parece ser bastante possível afirmar que há uma síndrome coletiva similar, no sentido de que as pessoas comportam-se manifestando, coletivamente, os mesmos sintomas da TDAH.

Não sei se alguém já tentou estabelecer o nexo que vou sugerir, mas eu o vejo como bastante plausível: o aumento do TDAH coletivo (e só então, infantil) acontece em correspondência direta ao incremento dos canais de informação eletrônica (internet banda larga, celulares, smartphones, tvs por cabo etc.). Assim, quanto mais conectada uma comunidade estiver, maior será a tendência para que toda ela seja “desatenta”.

Digo “comunidade”, para afastar a ideia de que o lugar primário em que ocorre o fenômeno é lá onde estão as crianças e adolescentes. Em geral, as pesquisas sobre o tema, já nascem estruturadas por esse pressuposto. Isto é, partem, do fato consumado de que o aumento dos diagnósticos constitui evidência per si de que a hiperatividade seria um transtorno típico daquelas faixas etárias. Há, claro, as estupidezes, do tipo “nosso cérebro está se modificando” com a internet etc. Mas isso é outro tema, o do alarmante crescimento dos cientistas que não conseguem ver nem a árvore, nem a floresta porque estão muito ocupados com o próprio Lattes (Lattes é o nome científico atribuído à ocorrência de umbigos em barrigas de cientistas).

Raramente falamos em responsabilizar os pais pela intensificação, senão pelo próprio surgimento, da síndrome de desatenção em seus filhos. Se isso faz algum sentido, antes de pensar em como os filhos de nossa geração tornaram-se repentinamente desatentos, seria preciso escrutinar a organização do ambiente familiar. Não terá se tornado, ele próprio e como um todo, o lugar em que a desatenção, a descontinuidade e a simultaneidade são, mais do que favorecidas, encorajadas? Será que as crianças não estarão sendo vítimas de suas casas, em primeiro lugar?

Eu já elaborava este texto, quando li semana passada a coluna da Regina Helena. A certa altura, ela escreve:

Todo esse tempo o telefone tocava [era o começo da noite], o celular fazia barulhinhos de torpedos caindo e o iPad fazia milhares de sons de emails, mensagens no Facebook e chamadas no Skype. Eu tinha marcado com um monte de gente várias coisas: orientandos que não moram em BH; projetos com grupos de pesquisa no exterior que precisavam ser finalizados; alunos querendo trocar ideias sobre textos; bolsistas querendo saber da reunião do dia seguinte; pareceres que precisavam ser mandados naquele dia; textos que precisavam ser finalizados para publicação, etc, etc, etc...Eu vivo plugada, não desligo nem um minuto, vivo escrevendo ou lendo algo.

Citei a Regina Helena, mas poderia ter citado qualquer um dentre meus vários amigos e conhecidos que, manifestando orgulho ou não, declaram todos os dias que “não têm tempo”. Consomem tanta energia buscando serem máquinas de simultaneidade (uma impossibilidade lógica, diga-se de passagem) que, como o tempo é finito e a quantidade de informação deglutível infinita, o esgotamento psíquico é inevitável. Todo acréscimo de eficiência (computadores mais rápidos, celulares multitarefa etc.), que objetiva economizar tempo, resulta, inversamente, na percepção crescente de que o tempo tornou-se mais escasso, um tempo que “passa mais rápido”, uma época acelerada. Quantas vezes não temos dito, ano a ano, “como este ano passou rápido”? Ou seja: quanto mais consumimos informação, parecemos dispor de menos tempo e isso se manifesta não ao dizermos que nos falta o tempo mas, sim, quando dizemos que ele parece “passar” cada vez mais rápido (em sentido amplíssimo: a mera posse de um smartphone, por exemplo, mesmo desligado, já é consumo de informação).

Se há uma maneira de falar de convergência na modernidade é aquela em todas as novas tecnologias convergem não uma para a outra, tecnicamente falando, mas para as mentes das pessoas, perpetuamente autoconvocadas a jamais perder o contato (a bestialidade do tal networking não passa de uma ponta disso).

Nosso ambiente familiar está, como nunca antes, atravessado por profissionais do relacionamento, que pretendem nos ensinar as banalidades do cotidiano. Não por acaso, querem ensinar fazer banalidades com mais eficiência para... economizar tempo. Há um livro – muito ruim, diga-se - que pretende ensinar como ficar em estado de ócio. Como criar os filhos está em dezenas de programas de TV; assim como casar, se separar ou se reconciliar.

Tudo isso complementa o fenômeno da valorização social da “pessoa que não tem tempo”, aquele nosso orgulho indisfarçado em dizer, en passant: meu dia hoje está cheio! E, na hora de produzir o cotidiano - como organizar meu armário? como fazer a festa do meu filho? - corremos a ver o que a TV oferece para o aprendizado das banalidades.

Como sempre, crianças e adolescentes crescem mirando-se em seus pais como exemplo. Mas exemplo no sentido que sugeri na coluna passada: os que oferecemos voluntaria e involuntariamente. Se você não tem tempo “para nada” porque se ocupa “de tudo”, simultaneamente - o exato diagnóstico de um TDAH típico - é grande a chance de que seus filhos tomem isso por exemplo. Daí, vão lhe copiar. Óbvio. Agirão assim na escola. Lá, cercados de professores sem tempo, chegarão aos psicólogos que memorizaram o protocolo de diagnóstico até finalmente desembocarem nos médicos, caneta em punho, prontos para prescrever o remédio. Note: como responsabilizar o médico, o laboratório, o professor, o psicólogo ou o perfil somático de seu filho “desatento” se você o ensina diuturnamente, pelo exemplo, que ser desatento e simultâneo é que é o “certo”?

O que o Menino Maluquinho tem a ver com isso, quem chegou até aqui já está se perguntando? Bem, meu filho nasceu em 1991. A internet só entrou em nossas vidas no fim da sua infância. Antes dela, ele se divertia vendo Castelo Rá-Tim-Bum (e uns desenhos japoneses horríveis). Lá pelos sete, oito anos, compramos o VHS do filme O Menino Maluquinho. Lucas assistiu ao filme tantas vezes que decorou TODAS as falas de TODOS os personagens. É uma coisa mesmo muito desimportante, pelo menos para quem não é o pai daquele filho, do meu filho. Entendi isso em 2002, quando encontrei o diretor Helvécio Ratton em Belo Horizonte. Orgulhoso, contei sobre a criança que gostara tanto do filme até o ponto de sabê-lo inteiro. Ele ouviu e não disse nada, foi indiferente (os dois piores sofrimentos psíquicos, para mim, decorrem da impotência e da indiferença: não poder fazer algo necessário ou fazer algo que não importa a ninguém).

E daí, quem lê continua a perguntar. Ora, na nossa escala de valores, assistir a um filme dezenas de vezes não passará de...perda de tempo. E se minha experiência paterna vale alguma coisa, sugiro: vendo seu filho absorto, ocupado com algo desimportante, não o interrompa, sobretudo se seu pretexto paterno for o de fazê-lo “empregar melhor o tempo”. Se ele estiver explorando as várias combinações possíveis entre pedaços de papelão rasgado, é a grande a chance de que ele esteja desfrutando do tempo dele mais proveitosamente do que você.

Não introduza seu filho cedo demais ao universo da eficiência. Porque a eficiência é o axioma da tecnocracia e o mundo dos tecnocratas é o mais inóspito, o mais degradante, o mais aviltante dentre todos os que já criamos para nós mesmos. Adie o máximo possível: ensine-o a perder tempo. Ou reaprenda com ele, se for o caso. Como perguntou Fernando Pessoa: “por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?” Se você for um pai, seu espetáculo é seu filho.

Roger Andrade Dutra é professor do CEFET-MG. É graduado em História pela UFMG, Doutor e Mestre em História Social, pela PUC-SP e pai do Lucas Cosendey, não necessariamente nessa ordem. É especializado em filosofia da tecnologia e das tecnociências, sobretudo em temas relacionados às biotecnologias e às novas tecnologias de informação e comunicação; pesquisa, ainda, sobre políticas públicas de cultura as diversas relações entre política, cultura e tecnologia.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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