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Regina Helena Alves Silva

Quando meus filhos se tornaram meus

Semana passada, abandonei vocês. Fiquei sem escrever por absoluta falta de inspiração. Ando um pouco desacorçoada com tudo e com todos. Mais uma semana e muitas mudanças.
Mas uma coisa ficou na minha cabeça desde a semana passada: eu fico me perguntando o que torna uma criança adotada um filho. Muita gente não vai entender o que estou dizendo. Muita gente diz que é a mesma coisa um filho biológico e um adotivo. É verdade no sentimento, mas tem questões que os tornam diferentes.
Um filho adotivo sabe que não foi gerado por nós. Muitos deles se lembram dos pais ou, quando crescem, querem saber porque foram abandonados.
Os meus misturam ainda cenas do início da infância “na outra casa” ou “no abrigo”. Fico olhando pra eles, tão pequeninos, e já com tanta complexidade, tantos lugares, tantas pessoas...
Demorou para eles entenderem que agora têm uma casa e que não vão precisar sair dela. Na primeira vez que viajamos, eles ficaram muito atrapalhados e custou para fazerem distinção entre casa e hotel. Quando chegamos a um hotel na praia, eles olhavam pro quarto com uma carinha muito engraçada e Pedro me perguntou porque nossa casa tinha mudado. E assim foi na primeira vez que fomos ao sítio.
Estamos voltando dele agora, fomos passar o feriado do dia 15. Antes não tínhamos dormido lá, mas desta vez resolvemos ficar. (Nossa casa está sendo construída e ficamos no sítio vizinho, que também esta em reforma). O Pedro, desde que dissemos que íamos dormir lá, ficou apreensivo, dizia que não queria ficar. Pedro tem muito medo... medo do escuro, da porta entreaberta, do barulho que não conhece, dos lugares que não entende. Ele ama o sítio, mas tem medo do que não conhece ainda.
Dormimos numa espécie de chalé que nossos amigos construíram no sítio vizinho, um grande quarto com banheiro. Pedro ficou numa cama e Duda num daqueles berços portáteis. Os colocamos pra dormir e ficaram apreensivos quando Sílvia saiu do quarto e eu falei que também ia sair. Fomos para a varanda e eu senti o medo do Pedro gritando, mas na hora falei com ele: “Filho, tô aqui fora, tá me ouvindo?” Depois de um pouco de algazarra com a Duda, ele dormiu tranquilamente.
Isso só é possível agora... agora que ele entende que esta protegido, que nós não vamos embora, que não vamos deixá-lo sozinho.  Outro dia, eu estava sentada na mesa, jantando com ele, Duda tinha voltado da escola dormindo e Sílvia estava no andar de cima. Pedro pegou minha mão e falou: “Eu te amo, mamãe”.
Putz, fiquei pra ele sem saber o que dizer... Vocês não imaginam o que significa ouvir isso de um filho.
Alguém pode dizer que foi neste momento que Pedro passou a ser meu filho, mas acho que não.
Esse caminho é lento, vai sendo trilhado muito devagar entre os pais e os filhos adotivos. Passamos pelo desconhecimento, por ter em um mesmo espaço de casa cada um de nós procurando o que tínhamos antes e com medo do que poderíamos ter depois.
A confusão na cabecinha deles, que não sabiam o que era uma mãe. Sabiam que durante o tempo dos abrigos eles tinham algumas muitas pessoas que cuidavam deles: davam comida, trocavam as fraldas, davam banho, escovavam os dentes, brincavam, etc, etc.
Duda chegou na nossa casa chamando todas as mulheres que por ventura cuidassem dela de “mãe”, podia ser um copo de água que transformava quem o deu em mãe.
Ela demorou um tempo pra nos chamar de mãe. Duda é desconfiada e entendeu que eu e Sílvia éramos diferentes na vida dela. Primeiro ela aprendeu nossos nomes e depois passou a nos chamar de “mãe Lena” e “mãe Sílvia” e, de uma hora pra outra, ela passou a nos abraçar bem apertando e dizer “mamãe”.  Ela fala assim e aperta os olhinhos com uma carinha com um sorriso bem maroto.
Tudo isso é a parte “bonitinha” das crianças, porque filho mesmo é igual a Duda aqui às 23h23, pulando no meu colo e gritando que não vai dormir de jeito nenhum. Ou o Pedro, que quando acordou hoje de manhã, eu entrei no quarto e perguntei se ele queria levantar. Ele respondeu que não. Perguntei se queria fazer xixi, ele também respondeu que não. Então fui tratar de mim e fazer o café da manhã dos dois. Quando voltei ao quarto, ele estava com a cara mais safada do mundo e disse que queria levantar... fez xixi na cama inteira incluindo os bichinhos que dormem com ele.
É assim que os filhos adotivos chegam, quando perdem o medo da gente e passam a nos testar não mais para saber se vamos devolvê-los, agora o teste é de resistência.
Meia noite e Duda não dorme, agora canta a plenos pulmões no meu ouvido a musica favorita dos dois: “... agora, é a hora do show das poderosas......”
É assim que os filhos ficam mais filhos da gente, quando entram em casa com coisas que jamais deixaríamos entrar...
Os filhos adotivos vão chegando de mansinho, a gente vai tentando entendê-los.  Vamos construindo uma casa e uma família mais devagar porque já existiu uma outra. Eles têm que trocar algumas coisas de lugar e nós, as mães e pais adotivos, temos que entender esse tempo sem achar que se trata de uma recusa ou uma escolha. Na verdade, a escolha que temos (e que raramente é pensada por pais biológicos) é ficarmos juntos ou não. Um pode recusar o outro, para as crianças é mais difícil nos devolver, mas muitos pais adotivos devolvem as crianças que foram morar em suas casas.
Esse é o período de perigo, um tempo em que se pode desistir. Um tempo que é dado a relação de adoção que muitos desistem de ter aquela criança como filho. Quando olhei para o Pedro e a Duda naquele abrigo pela primeira vez, eles eram desconhecidos. O primeiro instante é de susto, como para os pais biológicos. Mas o segundo instante é de um silêncio ensurdecedor, algo que nos cala bem fundo e quase paralisa. Olhamos para crianças que já andam, falam, comem, têm vontades e principalmente têm uma história da qual não fazemos parte.
Dá medo, muito medo do que nos é desconhecido, do que não fizemos, do que não somos parte. Assim ficamos por um tempo, os pais adotivos e suas crianças. Mas um dia eles chegam, chegam até um lugar na nossa história.
Pedro outro dia descobriu que os bebês nascem das barrigas das suas mães. Chegou em casa e ficou olhado para nossas barrigas. A minha logo o encheu de dúvidas. Ele perguntou: “Mamãe, tem um bebê na sua barriga?”
Tinha muito tempo que eu não ria tanto... Sílvia, muito séria, disse que ele tinha nascido da barriga da mamãe dele, mas que ela não havia podido ficar com ele e a Duda e por isso eles tinham ido para o abrigo e foi lá que os encontramos. Ele sabe disso, lembra disso, mas ficou muito tempo olhando pra minha barriga meio desconfiado de que poderia ter que brigar com mais um além da Duda.
Um dia, conversando com a gente ele chegou à conclusão de que nasceu de nossos corações.  Também alguém pode pensar que é nesse momento que eles se tornaram nossos filhos.
 
Mas foi quando meus filhos conseguiram dormir, sem nenhum medo, naquele quarto desconhecido no meio do mato, porque ouviram minha voz do lado de fora, que foi selado nosso caso: somos definitivamente mãe e filhos.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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