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Regina Helena Alves Silva

Mil vozes dizendo mil coisas: a voz das ruas ou o piquenique da Maria

Esta foi uma semana completamente diferente de todas as que já vivi. Termino este domingo ainda sem saber muito bem o que fazer, o que conversar, o que pensar e como caminhar de agora para frente. Diferente de muitas coisas que já aconteceram ao longo de meus muitos anos de vida, agora tenho filhos. De repente, me encontro pensando nos acontecimentos que tomaram este país a partir dessa ótica: o lugar de mãe. Muda mesmo alguma coisa? Acho que sim.
No sábado da semana passada, quando foram convocadas as primeiras manifestações de Belo Horizonte, eu não acreditei muito que seriam como já havia sido em São Paul, quando a polícia foi extremamente violenta e a mídia ainda berrava aos quatro cantos que um bando de baderneiros haviam tomado as ruas da cidade. De lá pra cá, tudo mudou. Não existem mais baderneiros e agora os manifestantes são jovens preocupados com o futuro do país e pessoas contra “tudo de errado que tem aí”.
Mas naquele sábado eu fiquei com um gostinho de vontade de ir pras ruas. Tinha três convocações: uma na Praça da Savassi, outra na Praça 7 e outra debaixo das árvores que estão sendo cortadas pela Prefeitura. Se fosse antes, eu iria, sem pestanejar, para a Praça 7, onde estavam todos contra a Lei do Nascituro. Mas era no centro da cidade, sairia uma passeata e precisaria de andar um tanto. Isso me pegou. Como uma mãe-velha, fiquei pensando se daria conta de andar com duas crianças, mais a famosa sacola que toda mãe de crianças pequenas tem que carregar, mais minha bolsa e água, biscoitos, sanduíches, etc, etc...
Optei pela Savassi porque é mais perto de casa, tem banheiros mas fáceis e lugares para sentar quando as crianças se cansam. Acordamos e começamos a longa jornada de preparar duas crianças para ir pra rua. Demoramos um pouco. Aí decidi que iríamos para a Savassi e depois faríamos um piquenique debaixo das árvores na outra manifestação. Finalmente chegamos à Savassi e a passeata já descia a avenida Cristovão Colombo, quase chegando na rua Sergipe... Fiquei olhando de longe, com meus dois filhos perguntando: "Por que eles estão andando mamãe? Que legal!!!"
Como não consegui me organizar a ponto de achar um lugar pra estacionar, pegar tudo e as crianças e correr atrás da passeata, fomos direto para o piquenique. As crianças se divertiram muito com tudo por lá. Eu fiquei com um pouco de inveja de quem chegou depois, vindo das duas manifestações, que acabaram por se encontrar e caminhar até a Praça da Estação. Nesse dia, voltei pra casa pensando em como tudo tinha mudado... mal sabia que as coisas tinham e ainda estão mudando agora, o tempo todo.
Desde esse sábado, meus filhos estão sem entender o que aconteceu com a mãe deles, que fica horas e horas com a televisão e o rádio ligados e  o computador aberto, digitando sem parar. De vez em quando, eu saio e eles querem saber onde eu fui. Digo que fui lá, com aquele povão todo que eles viram na televisão.
No dia em que tentaram entrar na Prefeitura de São Paulo, ligamos a televisão e o Pedro ficou no colo da Silvia vendo aquelas cenas. Quando um rapaz tentava de todas as maneiras quebrar os vidros, a porta e jogava coisas nas pessoas dentro da Prefeitura, o Pedro olhava assustado e perguntava: "O que ele quer?". Foi um esforço diferente explicar para um menino de quase 4 anos a cena que ele viu. Foi um esforço também dizer para a Duda, com seus 2 anos e meio, que ela não podia brincar com o iPad naquele momento porque eu precisava ficar no Facebook. Ela perguntava: "Pra quê?"
Mas fui olhando para eles esse tempo todo e me lembrava de alguns dias da minha infância. Um dia que meu pai, policial civil, entrou em casa com uma metralhadora e a deixou em cima da cama. Nunca tinha visto minha mãe tão brava com ele... Fiquei olhando aquela coisa em cima da cama, tentando entender porque meu pai precisava de andar com aquilo. Depois disso, as coisas ficaram estranhas na minha casa. Meu pai mal aparecia e quando aparecia estava nervoso, com a barba crescida, os olhos vermelhos e cansado. Eu não gostei desse pai. Não gostei de vê-lo assim. Ele ficou bravo, sem paciência, gritava com a gente. Isso foi no ano de 1964.
Depois me lembrei de outra cena, essa em 1968, quando cheguei à casa de minha tia (que meu pai dizia que era uma pessoa “errada”) e ela estava com todos os seus amigos, na sala, chorando. No rádio dizia que tinham matado alguém, mas eu não entendia direito o que era isso. Me lembrei que meu avô, pai dessa minha tia e de minha mãe, havia sido assassinado por causa de ser “comunista”. E todos diziam que aquele moço que tinha feito minha tia chorar também era.
Eu precisei crescer um pouco mais para entender o que o meu pai significava e o que minha tia era. Quando tive maturidade suficiente para escolher, eu escolhi o caminho de minha tia. Esse foi um dos maiores conflitos de minha infância/adolescência: viver entre a direita e a esquerda.
Voltando a esta semana, eu me lembrava disso tudo. Porque eu e milhares de pessoas fomos às ruas com o entusiasmo de sentir que “ser de esquerda” era ir às ruas e querer uma série de coisas que sabíamos estarem presas na imensa estrutura de complexidade de relações socioeconômicas que este país virou. Fomos tanto às ruas, garantimos uma democracia e a estamos consolidando. Não fomos às ruas para pedir o fim de governos. Fomos às ruas para pedir o aprimoramento do que conquistamos. E se conquistamos a democracia como querer acabar com ela assim tão facilmente?
Dos meus tempos de criança até hoje, construímos um país infinitamente melhor. Mas de vez em quando, nas ruas ou na internet, eu vejo pessoas querendo a volta da ditadura, a volta dos militares, pessoas revoltadas contra direitos conquistados tão duramente. Não quero aqui neste espaço fazer uma análise do que acontece. Só quero aqui pensar nos meus filhos.
O Brasil, desde minha infância, cresceu construindo uma ideia de que não existe esquerda nem direita, que isso é uma falácia, que existe um todo homogêneo que “quer o bem de todos”. Lamentável engano, estamos vendo agora. O “bem de todos” quando não é nominado, quando não é dito com todas as letras, se transforma apenas em um pequeno amontoado de letras que não distinguem nada.
Agora, nas ruas, escuto milhares de barbaridades do tipo: “Bolsa-família é sustento de vagabundo” - quem grita isso não sabe nem quanto é a bolsa, nem nunca ouviu falar em renda mínima; “Tem que matar esses mendigos que estão nas ruas mesmo” - creio ser desnecessário comentar uma coisa dessas... só me espanta que ouvi isso da boca de pessoas que se diziam “cristãs”; "Esse governo quer nos obrigar a pagar as empregadas domésticas” - Como assim? Será que essas pessoas pensam que os seus patrões podem não pagá-las?
Com esse tipo de gente eu não vou pras ruas, eu não peço nada, eu não tenho nenhum tipo de identidade. Mas essas coisas me preocupam de forma muito mais complicada porque penso no futuro dos meus filhos. Não quero, de maneira nenhuma, para eles, uma parte da história que vivi. Não quero ditaduras, não quero restrições da liberdade, não quero repressão, violência e tortura como já vivemos. Não quero um estado sendo tomado de assalto e depois organizado de acordo com os interesses de grupos econômicos que não pensam no país.
O que quero dizer com isso: precisamos sair deste lugar que este país se enfiou, que é o de achar que direitos são privilégios. Quando é pra esse povo que sai as ruas gritando essas barbaridades, eles entendem que são direitos. Quando é algo para a população pobre, eles entendem que “o governo só quer dar privilégios pra vagabundos”. Outro dia, recebi um e-mail de um antigo colega do Colégio Estadual (estudei lá durante a ditadura) e ele dizia que os pobres do Bolsa-Família deveriam depois arrumar um emprego e devolver o que “ganharam” do governo. Eu perguntei a ele se já tinha devolvido ao governo tudo que havia gasto com a sua educação, já que ele tinha estudado em escolas públicas. Ele não me respondeu até hoje.
Eu vivi dois dilemas nesses dias: como ir para as ruas com dois filhos muito pequenos e como participar de tudo isso e não deixar que as ameaças que surgiram possam destruir o futuro de meus filhos. O como ir para as ruas foi substituído pela militância nas redes sociais (impactada nos dois últimos dias pela operadora, que resolveu que minha internet não funcionará nos próximos dias) através de debates, discussões, convocações e organização das manifestações. É uma pequena e pobre contribuição para alguém como eu, que gosta do mundo presencial e da disputa face-a-face. Mas é um dos meios descobertos nos últimos tempos e que agora, no Brasil, descobrimos que podemos fazer diferença se soubermos como usá-lo.
Com não deixar o lado “escuro” da força vencer e implantar de novo uma ditadura ou derrubar uma governante legitimamente eleita pelo voto popular? Isso é tarefa das mais urgentes pra esta mãe-velha aqui. Algumas pessoas começaram, no Facebook, uma convocação para um piquenique na Praça da Liberdade ontem (domingo, 23 de junho). Todas nós achamos uma ideia ótima, já que assim poderíamos ir às ruas com nossos filhos. Eu fiquei super feliz porque queria muito que meus filhos participassem disso tudo. Que eles fossem para as ruas também, para a praça. De repente, as discussões no Facebook começaram a ficar estranhas, todas as mães clamando pelo verde-amarelo, por bandeiras, por crucifixos, por rezas, por tantas coisas que não cabiam em um lugar que queríamos plural... De outro canto, uma convocação para uma passeata que iria para a praça também. Na convocação, diziam que iam “ensinar a BH como fazer manifestação ordeira e sem violência”...
Não gostei do tom. Ele me lembrou os tempos antes de 1964. Marchas da família com Deus pela Liberdade. Uma justificativa que a classe média deu a um golpe militar que destruiu nosso país. Muitas das coisas pelas quais estamos nas ruas são fruto da ditadura militar. Essa estrutura política, esses acordos e voltas, essa estrutura corrupta do estado, esse jeito de fazer política com trocas as mais espúrias. Devemos isso à ditadura e às suas formas de existir e terminar. Não conseguimos até hoje enterrar esse período terrível da nossa história.
Dito tudo isso e de forma muito rápida e rasteira (ainda mais para uma historiadora), chego ao ponto que quero. Ontem eu tinha prometido aos meus filhos que iríamos a uma festa na Praça da Liberdade. Eu tive que dizer a eles que não íamos mais. Meu Pedro ficou todo birrento perguntando: "Por que não?" Dizia que ele gosta da praça e eu não queria levá-lo. Ficou mesmo bravo comigo. A irmã não entendia muito e começou a chorar também. Eu, sem saber como explicar que eu não queria envolvê-los em algo que, eu suspeitava, não tinha nada a ver com a gente. 

A gente tinha outro programa que aconteceria depois da praça. Era um piquenique de aniversário de uma das grandes amigas deles: a Maria. Foi assim que consegui explicar que não íamos à praça, mas íamos encontrar a Maria. Fomos para o Parque das Mangabeiras e encontramos a Maria, sua mãe, a avó (uma pessoa divertidíssima que fez 100 potinhos de gelatina pra criançada), seus tios jovens, que ficaram sentados nas toalhas no chão discutindo os tempos atuais, seus amigos felizes e nossos pequenos filhos.
É impressionante a alegria das crianças quando se encontram e se sentem amigas, como elas se divertem, compartilham, brigam gritando “é meu, é meu” e correm pela grama pisando no pão de queijo e nos pedaços de sanduíche em cima das toalhas. Estavam ali muitas vozes, falando às vezes da mesma coisa e às vezes de coisas diferentes. Estavam ali várias gerações, dizendo de como queriam as coisas e como viam formas diferentes de conquistarem isso.
A felicidade daquelas quatro crianças em volta de um piquenique me deu a exata dimensão do porque devemos lutar por este país. Não quero um país só verde e amarelo, quero um país da cor de nossos filhos, da cor do Pedro, da Duda, da Maria e da Olívia. Quero um país melhor para que meus filhos possam ter amigos como esses que já tem. Que consigam conviver com a diferença, respeitando-a e não tentando extinguir o diferente, quero um país onde meus filhos cresçam sem serem discriminados por serem adotados, diferentes entre si e com duas mães.
Ontem de manhã, entendi que estou nas ruas (presenciais ou virtuais) para muito mais do que o que já me fez ir para as ruas em outros tempos. Estou nas ruas porque quero um mundo e um país como aquele piquenique da Maria.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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