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Magali Simone de Oliveira

Mudança de paradigmas

Mariáh já não vai comigo para todo lado. Não tem medo de ficar sozinha. Está crescida. Não precisa mais ficar agarrada na saia da mãe, como ela própria diz. Gosta da solidão, momento em que invade mundos paralelos dos livros e dos games. Tenho saudade de quando ela me seguia para todo lado, dividindo comigo cada momento. Mas ela já toma suas próprias decisões e me cobra mais objetividade nas minhas.
- Mãe, se você não está satisfeita com tal entidade, porque não participa mais dessa instituição? Manda e-mail para eles. Entra no Facebook deles. Divulga suas ideias, vai à luta! - ela me cobra.

Ficar calada, chorando comigo, não vai resolver! As pessoas têm que se expor para mudar o mundo - incitou, dizendo o óbvio ululante, que eu me recusava ver.
Sou uma melancólica. Gosto dos papéis tradicionais, onde eu exerço o de mãe e ela de filha. Não gosto de mudanças de paradigmas. A mãe deve ensinar. O filho aprender. Mas aprendo todos os dias com Mariáh. Sinto que passei a me sentir mais adulta depois que ela nasceu e passou a me dar conselhos muito parecidos com os que minha mãe me dava.
- Não fica triste não, mãe. Você supera isso. Você é guerreira. Você perde agora, mas ganha depois. A vida é assim. Um dia você ganha, outro perde. Tente outra vez! Não desiste não - diz Mariáh, do alto de seus 13 anos.
O amadurecimento de minha filha me proporcionou a possibilidade de presenciar um novo comportamento: a tendência a compartilhar e a dividir tudo com a melhor amiga dela, Amanda Ox.
Vejam bem: eu sempre dividi tristezas, reclamações, histórias, amores, com as minhas amigas. Mas algumas coisas não eram objeto de divisão. Se minha mãe não me dava dinheiro para o lanche, eu simplesmente não lanchava. Não pedia pedaço para ninguém. Levava o que tinha em casa. Frutas. Em geral maçãs. Mas não é isso o que acontece com Amanda e Mariáh Ox.
- Você vai levar o quê? - pergunta Amanda Ox.
- Não tenho salgadinho, a minha mãe não gosta. Então vou levar os biscoitos de sempre.
- E refrigerante?
- Então, não vou levar refrigerante, mas tenho R$ 4. Se você levar mais R$ 4, a gente compra uma Coca Cola e...
- Um salgadinho? - intrometo.
- Não. A gente compra uma dessas comidas saudáveis que as mães que ouvem os papos dos filhos do nada querem que a gente coma.
-Ah, tá.
Finjo que acredito. Acho que as mães devem fingir um pouco. Caso contrário, tornam-se mais chatas que as bruxas dos livros que li quando era criança. As mães dos personagens preferidos de Mariáh e Amanda Ox são deusas. Não quero competir com elas.
O amor pelos livros faz com que elas também dividam o pagamento dos livros que “não podem deixar de ler”.
- Mas quem fica com os livros no final? - pergunto.
- Quem ler por último o livro, ora! - esclarece Mariáh.
- Mas e se a outra quiser ler o livro?
- Ela pede o livro e lê. Nós duas somos as donas. Dividimos o livro. Dividir é dividir, uai!
As coisas são bem naturais entre os mais novos. Eles não têm preconceitos. Bem, têm alguns sim, como me contou Mariáh. Preconceitos que quebram alguns paradigmas.
- Mãe, olha só, agora todo mundo faz bullying comigo só porque eu gosto de ler!
- Como assim, Mariáh?
- O professor está distribuindo as provas corrigidas. Aí, eu começo a ler. Do nada, os meus colegas me dedam mãe. Eles falam para o professor assim: "Olha só, olha só! Professor! Professor, ela está lendo. Toma o livro dela!" E o professor me xinga. Toma o meu livro e me xinga!
- Mas não está certo você ler durante a aula, a gente já conversou sobre isso. Você pode gostar de ler, mas não pode ler fora de hora. Na hora da aula, você tem que prestar atenção.
- Prestar atenção quando o professor está distribuindo as provas corrigidas? Para aprender como se faz para distribuir as provas? Eles não precisavam me dedar, né? Eles fazem coisa pior: conversam durante a sala de aula, cantam, brincam um com outro e eu não falo nada com ninguém. Agora, basta eu tirar o livro da mochila e eles me dedam mãe.
 - Mariáh, você pode ler no recreio, quando estiver indo para a escola na van, longe dos seus colegas.
 - Olha só, mãe. Eles cantam umas músicas chicletes e eu fico com essas músicas na cabeça. Eu não discrimino eles. Eu leio com os olhos. Eles não ficam com as histórias que eu leio na cabeça. E eu sou discriminada. Se as histórias que eu leio grudassem na cabeça deles como chicletes será que eu ainda seria discriminada?
Não sei responder. Me calo. Sou contra a mania de Mariáh ficar lendo em todo o canto. Principalmente na sala de aula. Mas a pergunta fica grudada na minha cabeça. Como chicletes.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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