Betzaida Tavares
Múltiplo e maravihoso: o mundo dos trigêmeos
Quando 2011 se iniciou eu era mãe de um único menino, o Pedro. Eis que a vida, com suas reviravoltas inexplicáveis e maravilhosas, tratou de multiplicar essa maternidade. Antes que o ano terminasse, eu já havia me tornado mãe de quatro garotos: Pedro, Bernardo, Felipe e Rafael. Uma gestação tripla mudou completa e definitivamente os meus rumos.
Falar sobre tudo o que tem de diferente em ser mãe de trigêmeos levaria uma vida inteira. Uma das coisas que tive de aprender, por exemplo, foi a lidar com a curiosidade alheia sem ser cair dos extremos da antipatia ou da permissividade. As pessoas querem saber como é viver num mundo tão múltiplo. Amigos, conhecidos, desconhecidos que me param na rua, as perguntas, em geral, são as mesmas – “Três??? Você fez tratamento pra engravidar? Choram todos ao mesmo tempo?” – e a mais recorrente de todas: “Qual foi sua reação quando soube que eram três?” Minha resposta varia de acordo com o grau de intimidade que tenho com quem me indagou. Se for um curioso que me para na rua, dou qualquer resposta-padrão e sigo meu caminho. Meu não: nosso.
De todas as vezes que fui indagada aquela em que fui mais sincera foi quando a mãe de Deborah, minha aluna, quis saber como me senti quando, deitada o médico do ultrassom anunciou que eram três embriões. Além da Deborah, ela tem duas filhas gêmeas, por isso senti que era mais uma pergunta cúmplice que curiosa. Então, sem pensar para responder, falei:
– Naquele momento, senti que um portal se abriu diante de mim e me levou para um universo paralelo.
– E levou mesmo! – Deborah, sagaz, completou antes que a mãe pudesse fazer qualquer comentário.
Engraçado, mas foi só a partir daí que me dei conta de que eu não vivia mais no mundo de outrora. Decerto, atravessei mesmo o tal portal, embora no começo eu não tenha me dado conta disso. O mundo dos trigêmeos é um universo paralelo. As coisas mais prosaicas passam a ter outro sentido, tudo é muito mais complexo. Acordar, escovar os dentes, sair de casa: a tudo isso são acrescentados detalhes inimagináveis. Tomar um café da manhã, por exemplo, é algo simples. No entanto, torna-se uma operação sofisticadíssima quando se trata de tomar um café com três pequenos ao seu redor, curiosos com aquele líquido preto que sai fumaça, querendo pegar a xícara quente e pedindo um pedaço do seu pãozinho. E sentar-se para assistir televisão com os três meninos querendo o seu colo? Nada simples.
No entanto, ao mesmo tempo, a vida passa a exigir que tudo seja simplificado ao máximo. Talvez seja essa a coisa mais preciosa que existe no maravilhoso mundo dos trigêmeos para onde fui abduzida há pouco menos de dois anos. Simplificar a vida não significa eliminar coisas importantes. Ao contrário, é reduzi-la ao essencial. No começo, não me dei conta disso. Feito os meninos do desenho animado, que querem deixar a caverna do dragão, passei alguns meses apegada à ilusão do mestre dos magos de que era possível “ter minha vida de volta”. Ainda não havia me dado conta de que o que tenho hoje é, de todas as outras, a experiência que mais merecidamente pode ser chamada de “vida”.
No começo com pesar, fui me desfazendo das coisas que considerava primordiais. Precisou de um tempo para que eu entendesse que estava simplesmente removendo entulhos. E quantos entulhos foram removidos para que eu pudesse habitar este universo múltiplo!
Dentre tantos penduricalhos sem importância que acumulei ao longo do tempo, os que primeiro abandonei foram a raiva, a pressa e o medo. Tornaram-se tão inúteis que o abandono se fez de forma quase natural.
Como, neste novo mundo em que vivo, há que se ter muito amor para dar, sem que eu percebesse toda energia de que meu corpo é capaz, foi canalizada para amar meus filhos. Os quatro. Daí a raiva foi embora, simplesmente porque me faltaram forças para alimentá-la.
Depois, deixei a pressa. No universo dos trigêmeos planos e projetos são apenas vagas referências. A regra é o imprevisível. Para se sair de casa, há que se cumprir todo um ritual, lento e cheio de detalhes: três banhos, três fraldas, três roupinhas, três mamadeiras, e uma bolsa para três bebês. Depois de tudo pronto, um faz cocô, o outro derrama leite na roupinha e o outro resolve se pintar com as canetinhas que encontrou dando sopa em cima da mesa. Então, todo o ritual deverá ser repetido. Inútil praguejar. Perdi a pressa que tinha, simplesmente porque eu não sobreviveria a essa rotina se vivesse oprimida pelo relógio. Mais um entulho que se foi.
Por fim, o medo. Mas para esse caso não há uma explicação lógica. Tudo o que sei é que, desde que eles nasceram eu, que sempre fui extremamente desconfiada, que sempre me preparei para o pior, simplesmente deixei te temer. Nem posso me gabar disso, já que não fiz o menor esforço para alcançar essa confiança que passei a ter na vida. Parece mais algo que me foi concedido que uma conquista minha. Compreensível seria se acontecesse o contrário. Três bebês prematuros, que passaram dois meses numa UTI, ficaram um bom tempo entubados, um deles passou por uma cirurgia cardíaca. Desde esse início complicado, nunca esperei pelo pior. Em momento algum tive dúvida de que fosse dar tudo certo.
É dessa natureza a transformação que a gestação múltipla operou em minha personalidade: uma mudança que deriva do abandono, do desapego, do lapidar persistente até que se encontre a escultura escondida na matéria-bruta. No momento em que termino de escrever sobre essa incrível travessia, lembro-me de um trecho de Roberto Correa dos Santos numa análise que ele fez sobre Clarice Lispector:
Aperfeiçoar-se, este termo insólito, distancia-se do acumular, do superpor, do acrescer. Talvez venha de uma outra ordem de sabedoria, a do reconhecimento: a capacidade delicada de ir aos poucos atingindo e conquistando, não propriamente o essencial, mas o inevitável.
A desconhecida viagem que empreendi no início de 2011, no fim, havia sido para isso: para que eu pudesse alcançar o inevitável.

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.
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