Betzaida Tavares
Museu dos Brinquedos
Fica no alto da Avenida Afonso Pena e se parece com uma dessas casinhas de bonecas. Melhor ainda: é a Casinha Feliz da cartilha em que aprendi a ler e onde moravam Vavá, Vevé, Vivi e Vovó. (Agora enquanto escrevo me ocorre: que método mais esquisito esse no qual fui alfabetizada).
A casa é o abrigo dos brinquedos enjeitados: Meu Bebê, Amiguinha, Emília, Fofolete, Moranguinho, Playmobil, Menina Flor. Móveis em miniatura, um cavalinho de carrossel do século XIX, piorra, pião, triciclo de 1950. Bonecas de porcelana de todas as épocas. “Essas que têm o rostinho triste é porque foram feitas durante a guerra”, explica a estagiária.
Adiante, está a casa da Barbie, à esquerda, uma exposição de carrinhos e à direita, a coleção de bonecos do He-man: o Mentor, a Tila, o Homem-Fera e a Feiticeira. Depois tem o Falcon, a Susi, o Forte Apache e o ET. E também liquidificador à pilha, geladeira de brinquedo, fogão, kitfrit e aquaplay.
Em um canto escondido, o passado mais remoto: uma máquina de costura de brinquedo, um carrossel inglês e uma caixa de soldadinhos de chumbo, todos enfileirados, menos um, aquele que perdeu a perna e se apaixonou pela bailarina.
Em todas as galerias dezenas de gavetas, em cada uma delas, a surpresa: bicho de pelúcia, boneca de tricô, índios guerreiros, videogames da década de 1980, jogos pedagógicos, carrinhos de controle remoto, ou rádio controle, como costumávamos dizer.
Nos fundos da casa há um pátio onde crianças e adultos podem jogar queimada, pular corda ou brincar com elástico (onde eu estava, meu Deus, quando as meninas deixaram de pular elástico?).
Ali, todas as épocas são uma coisa só, o menino que brinca de peão se encontra com aquele fascinado pelos jogos eletrônicos. Os dois se entendem muito bem. O mais velho não diz ao mais jovem “no meu tempo era muito melhor”, nem o mais jovem olha para os brinquedos antigos e diz “que coisa mais ultrapassada!”.
Da mesma maneira, a menina que traz nos braços o bebê de brinquedo que chora, ri e canta “parabéns para você” brinca junto com aquela que carrega sua bruxinha de pano. As duas conversam, fazem comidinhas e trocam suas bonecas.
No Museu dos Brinquedos, infâncias de diferentes tempos estão congeladas e misturadas num amálgama de cores, texturas e lembranças.

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.
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