Betzaida Tavares
Sobre amigo oculto, ou o que se entrega num presente
Há uns dois anos, um colega estava preocupado com o presente do amigo oculto da empresa em que trabalhava. Por mais que procurasse, não havia conseguido encontrar um determinado livro. Não entendi o porquê da preocupação, bastava escolher outro presente, que fosse outro livro. Foi aí que ele me explicou. O amigo oculto de final de ano acontecia durante a Convenção Nacional da empresa. O evento reunia funcionários de todas as partes do país. O sorteio era feito online e havia uma grande possibilidade de se ter que presentear um completo desconhecido, que em comum com a pessoa, só teria o fato de estar subordinado à mesma multinacional. Para evitar constrangimentos, todos os funcionários cadastravam os presentes que desejariam receber. Assim, se Maria de Sergipe, saísse com Olavo de São Paulo, cuja figura ela jamais havia visto, bastava pesquisar pelo nome dele no site da empresa para ter acesso ao que ele gostaria de ganhar: uma Camisa Polo Azul Marinho da Adidas. Assim mesmo: presentes detalhadamente especificados – cor, marca e modelo – para não haver risco de errar.
Achei aquele amigo-oculto uma coisa esquisitíssima e por mais que eu tentasse explicar, meu colega não conseguia entender meu assombro: “Mas esquisito por quê? É muito mais prático!” ele retrucava. Acontece que, no mundo em que fui criada, todas as vezes que presenteamos, entregamos também um pouco da gente. Na minha adolescência era comum presentearmos amigos com coisas que nos pertenciam. Não eram coisas que não queríamos mais, ao contrário: era aquilo de que gostávamos tanto que sentíamos necessidade de compartilhar com uma pessoa querida. O ato de presentear, para mim, sempre foi isso: entregar-se. Povos de culturas diferentes trocam presentes, não pelo valor material do objeto, mas sim como uma maneira de declarar: eu recebo e aceito seu modo de vida e espero que também receba e aceite o meu. (Por isso, quando um dos povos se sente em vantagem ao trocar espelho por trabalho, alguma coisa maligna e doentia já está instalada naquele encontro).
No momento em a prática se converte numa troca de objetos predeterminados, transforma-se em outra coisa. Nesse caso, o presenteador nada mais é que um encarregado de buscar aquilo que, de qualquer maneira, já pertence a quem o recebe: é um valor que já faz parte do seu mundo, do seu estilo de vida, não irá acrescentar nada, mesmo porque, senão houvesse essa obrigatoriedade do amigo oculto da empresa, ele mesmo iria até a loja comprar.
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Nesse clima comprador típico do fim de ano e com uma angustiante sensação de que a cada ano que passa a euforia pré-natalícia começa mais cedo (lojas enfeitadas com papai noel em pleno outubro é algo assustador!) pus-me a pensar sobre a prática de dar presentes. Não sei exatamente porque, mas em meio a essas divagações me veio a ideia de trabalhar com meus alunos uma atividade diferente, algo de que eu nunca tinha ouvido falar, não tinha ideia de como iria funcionar e sequer poderia prever se daria certo: propus à turma um “amigo oculto imaterial”. O que seria isso? Eu também não tinha muita certeza, mas pensei numa experiência onde se trocassem boas lembranças. Poderia, embora não fosse obrigatório, ser oferecido um objeto que se relacionasse a alguma recordação importante. O valor material do objeto, contudo, seria irrelevante. Ao apresentar a proposta, parte da turma gostou da ideia, alguns ficaram indiferentes e houve aqueles que claramente se sentiram incomodados:
– Que coisa chata “fessora”. Por que a gente não faz um amigo-oculto normal?
Apesar de uma ou outra reclamação, a turma topou a ideia e fizemos, então, o sorteio. No dia em que seriam feitas as “trocas simbólicas” fiquei um pouco tensa, não tinha ideia de como as coisas andariam. E se todos se esquecessem da atividade? O que aconteceu, no entanto, foi de uma diversidade riquíssima.
Alguns alunos realmente haviam se esquecido, mas isso não causou o constrangimento que costuma provocar em um amigo-oculto convencional. Ninguém se sentiu prejudicado, a grande graça da brincadeira era presentear. Dentre os que participaram, houve uma multiplicidade de objetos que revelou como são distintas as experiências dos alunos e a maneira como se sentem à vontade para partilhá-las: CDs e pen-drives com músicas gravadas, vídeos, um livro que o aluno havia lido aos 10 anos de idade (com a observação: foi o primeiro livro que li e gostei), uma pulseirinha de estimação, uma borracha que a aluna havia ganhado da irmã e muitas fotografias: impressas, em porta-retratos, dentro de um envelope. Dois alunos presentearam os colegas com crônicas que eles próprios haviam escrito e uma aluna revelou-se de um desprendimento maravilhoso ao oferecer à amiga-oculta um pingente que guardava como lembrança da avó, falecida há pouquíssimo tempo. E houve outra aluna, honesta como só é possível ser quando se é adolescente, que declarou: “eu queria muito dar de presente um objeto que tenho e que me traz uma lembrança boa, mas eu sou muito egoísta, não suportei a ideia de entregá-lo para outra pessoa. Eu espero que você não se importe.” E o amigo-oculto não se importou.
Eu também participei. Presenteei Ana Luiza com o DVD “A sociedade dos poetas mortos”, filme que fazia parte da minha coleção por ter marcado profundamente minha adolescência. E recebi da minha aluna Laryssa, um CD onde ela gravou músicas que lhe trazem lembranças importantes. “Lembranças boas e ruins”, explicou. É o CD que ouço enquanto escrevo este texto e é nele que encontro, numa feliz coincidência, estes versos do Charlie Brown Jr: “Podem me tirar tudo que tenho, só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz”.

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.
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