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Regina Helena Alves Silva

O aniversário do Pedro, ou porque não se pode ter médicos estrangeiros

1. Primeiro, uma indignação

 

Mais uma semana daquelas. Estranha como este mundo anda sendo nos últimos tempos. Machistas continuam a postar barbaridades no Facebook e alguns médicos brasileiros nervosos, atacando colegas que resolveram vir até este nosso brasilzinho para fazer o serviço que não fazem. Nunca vi nada tão esquisito: médicos são contra médicos serem... médicos.

Toda vez que vejo notícias sobre essa polêmica sem sentido fico me lembrando de quando meus filhos ficam doentes. Temos uma pediatra ótima, que é do meu plano de saúde. Eu a conheço há muitos anos. Mas vi que no meu plano tem poucos pediatras. Depois que meus filhos vieram para nossa casa, eu me preocupo com essa questão. E com os lugares que tem pronto-atendimento infantil aqui em Belo Horizonte. Pouquíssimos! Apenas um hospital infantil, em uma capital com milhões de habitantes.

O que acontece com as pessoas, os governos e as instituições quando não existem médicos e hospitais para crianças? Era sobre isso o que deveríamos estar discutindo e fazendo mobilizações: a escassez de médicos e a falta de hospitais. Sabemos disso, mas ficamos horas e horas discutindo e batendo boca se o que precisamos são médicos ou instalações médicas... Ora, precisamos de tudo e pronto!

Mas convenhamos que é absurda a situação de formarmos tantos médicos em universidades públicas, financiados com nossos tributos, e a grande maioria deles não querer determinadas especialidades ou trabalhar em determinados lugares. Há pouco tempo, vi na internet uma mobilização de mães em torno dessa questão. Muitos abaixo-assinados e manifestações na rua para exigir que nossos filhos tenham o mínimo.

Mas nós somos mães de capitais e grandes cidades, temos planos de saúde, temos melhores condições financeiras. Imaginem mães que vivem em lugares distantes ou nas periferias destas nossas cidades.Tudo é muito surreal (como dizem meus alunos) nessa história toda. Os médicos que estão por aí gritando que vão deixar a gente morrer se um médico cubano errar em algum tratamento, que vão se vingar dos políticos que permitiram a vinda de médicos estrangeiros, que vão isolar esses médicos, etc., pensam que podem o quê?

Ao mesmo tempo em que estão fazendo isso, nos grotões deste país o povo faz festa quando os médicos estrangeiros chegam por lá. A mim, isso só mostra uma coisa: essa história de que não podemos mais falar de classes sociais é uma falácia. Porque é disso o que se trata. Os médicos estão furiosos mas nenhum, absolutamente nenhum deles, pegou sua malinha e foi trabalhar um pouquinho que seja nesses lugares onde não existe nada. Nenhum deles falou: "Não venham não, seus gringos, porque eu tô indo pra lá..." Alguém ouviu isso da boca de alguma dessas criaturas enlouquecidas? Claro que não, já que para eles tanto faz o que passamos em relação à medicina neste país.

Nós, que temos mais recursos, lutamos com a escassez de especialistas em algumas áreas fundamentais. E os que não têm nada? Bem, esses continuam sem nada. Lamentável a atitude desses profissionais. Ao invés de terem estes surtos de arrogância, eles deveriam ter vergonha de um país como o nosso precisar de buscar médicos no exterior porque os nossos não querem atender a população no que ela precisa. 

 

2. A alegria

 

Me alonguei nessa conversa de médicos porque vi isso e fiquei pensando nos meus meninos. Nesta semana, os meus e vários filhos de amigos meus tiveram vários tipos de crises respiratórias por causa do clima seco de BH. Mas o acontecimento fundamental desta semana foi o aniversário do Pedro. Foi o primeiro de fato, desde que ele chegou. No ano passado, eles tinham acabado de vir pra nossa casa e acabamos fazendo uma festa de acolhimento dos dois.

Neste ano, o Pedro pôde ter sua festa mesmo de aniversario. Durante a semana, ele foi para a escola no dia do aniversário e só ficava perguntando se ia ter bolo e “lembrancinhas”. Neste primeiro ano de ser mãe, descobri que agora existe esse negócio de lembrancinhas. Ou seja, o aniversariante dá aos amiguinhos um pacote de “surpresinhas” que são uma mistura de brinquedinhos com as mais diversas variações de balas e chocolates. Quando eu descobri isso, achei tudo muito estranho. Foi uma amiga que falou para a gente, logo que as crianças chegaram, que agora o aniversariante dá muitos presentes.

Enfim, levamos um bolo para a escola do Pedro, mas não as lembrancinhas. Passamos muito tempo explicando a ele que, como teria uma festa em casa, as tais das surpresinhas seriam dadas neste momento. Ele não ficou nada satisfeito até o dia da festa, que foi neste sábado. No dia do aniversário, ele já ficou um pouco atrapalhado com toda a movimentação na escola em torno dele. Depois, não entendia muito bem que ia ter outra festa.

Ele dizia que era o aniversário da irmã, porque o dele já tinha acontecido. De sexta para sábado, ele, que não tem nenhum problema para dormir, é só cair na cama que dorme, ficou sem sono. Me disse que tinha uma coisa na cabeça dele, que era um “filminho” sem dormir. Filminho é como chamamos do sonhos dele. Ele falou que naquela noite o filminho tava passando, mas ele não tinha dormido.

Eu tentei explicar que ele estava ansioso. Ele riu e disse: "Essa é difícil, né mamãe?" É assim que nós falamos das palavras mais complicadas de falar ou entender... Mas chegou o sábado e, depois de passar um mega stress, quando descobrimos que um dos condôminos do prédio tinha “emprestado” as mesas do salão de festas e se “esqueceu” de devolver, montamos todo o aparato de uma festa infantil. Depois de tudo pronto, fomos buscá-lo e a surpresa que teve quando viu o bolo e depois a cama elástica foi impressionante. Parecia que ele não acreditava que tudo era para ele.

Mas a festa teve uma peculiaridade que eu não tinha pensado até então. A quantidade de crianças adotadas. Fiquei me lembrando dos tempos da minha infância quando falava-se que eram “filhos de criação”. Quando o profundo preconceito tratava essas crianças como seres de segunda classe, coisinhas da caridade, muitos eram pequenos serviçais das casas que os acolhiam. Muitos eram tratados como filhos por seus pais, mas jamais admitidos como membros da família pelos outros. Na festa do Pedro tinha meus filhos, tinha Maria, tinha Marina, tinha JP e tinha Gabriel, seis crianças com seus pais e mães todos adotados.

Todos eles nossos filhos, em meio a uma quantidade absurda de crianças de todos os tipos, tamanhos e potencialidade para a bagunça. Crianças brancas, ruivas, negras, mulatas, louras, magras, gordinhas, cabelos lisos, anelados, enrolados, passados, roupinhas caras, baratas, nem tanto, enfim, crianças, muitas crianças. Veio até uma ex-aluna minha que teve trigêmeos, três de uma vez e sem nenhum processo de fertilização... assim, nasceram três... Fiquei uma hora olhando de fora a festa, olhando a imensa diversidade de pessoas e crianças que ali estavam. Pensei que meu Pedro era um menino bacana porque tinha muitos e muitos amigos e que seus amigos eram todos de muitos e muitos jeitos. E nenhum tinha diferença nenhuma um do outro quando pulavam lá na cama elástica ou “vandalizaram” o maravilhoso bolo do Ben 10.

Minha Dudinha ficou mais atrapalhada porque não entendia que ela não ganhava presentes e que o parabéns não foi cantado para ela também. Mas chegou a Alzira, com sua sabedoria, e deu uma bolsinha para ela. E, desde então, ela não larga a pequena bolsa verde que carrega no ombro ou no ante-braço, andando pra lá e pra cá. Na hora de cantar parabéns, Pedro ficou no colo da Sílvia e a agarrava forte porque ficou emocionado quando viu uma quantidade enorme de pessoas à sua frente. Quando acabou, saiu correndo porque não aguentou a emoção de tanta coisa no mesmo dia.

Foi uma festa e tanto e, desde então, tenho pensado nessas coisas sobre os nossos filhos adotivos que têm tanta história a enfrentar, mas nos tornam suas mães e pais com suas experiências, que vieram de um outro lugar, mas trouxeram um mundo de amor para este que agora estão.

Quem me acompanha aqui nesta coluna sabe muito bem que não sou desse tipo de pegar a bandeira do amor de mãe ou pai e achar que ela explica tudo, mas ela pode dizer em alguns casos de uma falta.

Quase todos os amigos e coleguinhas de meu filho que foram convidados vieram a festa. No meio da festa, o Pedro me perguntou pelos que não vieram. Sei que alguns não vieram pelos mais variados motivos mas entre eles porque somos uma família “diferente”.

Fiquei pensando nisso, em como depois que crescemos viramos seres humanos que se esquecem do mais importante para a nossa vida: amor e amizade. Enfim, a festa foi uma festa e tanto e teve também tudo o que eles enfrentam no mundo em que estão vivendo. 

Algumas pessoas não aceitam o fato de meus filhos terem duas mães e outras não entendem que filhos adotivos são filhos como os biológicos. Essas atitudes não têm uma explicação que se baste, que seja suficiente, que possa ser compreendida por crianças de 4 anos. São coisas que nós adultos, enquanto vamos crescendo, passamos a acreditar que constituem um mundo melhor para nossos filhos. 

A quem pensa assim, tenho a dizer que estão profundamente errados e que seus filhos assim ficam pertencendo a um mundo pequeno, mesquinho e sem grandes doses de felicidade. Meus filhos vivem em um mundo onde compartilhamos nossas diferenças e isso nos torna uma grande comunidade, onde as possibilidades são infinitas. Essas pessoas estão criando seus filhos em um mundo pequeno, um mundo onde as pessoas cumprem o tempo todo regras de como não podem ser felizes. É o mundo dessas pessoas que não quer médicos para os mais necessitados, não quer educação inclusiva, não quer programas de renda mínima, não quer um mundo mais justo. 

É estranho que os pais possam definir para seus filhos um mundo tão pequeno e estreito, mas eles constituem este mundo e talvez não saibam que existem outros, onde podemos fazer uma mega festa, com muitas crianças se divertindo e todas compartilhando a experiência de terem umas às outras. Isso eu chamo de amizade e de amor. 

Digo a essas pessoas que elas sempre vão perder as festas. Festas como foi essa do meu filho Pedro, onde dezenas de crianças se divertiram com gente da “melhor qualidade”, porque são assim os nossos amigos e os amigos dos meus filhos. 

 

P.S: A propósito na festa do Pedro não tinha nenhum médico cubano convidado mas para o ano podem ter certeza que virão alguns.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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