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Magali Simone de Oliveira

O fog e o mundo das escolhas

“Uma escolha se torna um sacrifício. Uma escolha se torna uma perda. Uma escolha se torna um fardo. Uma escolha se torna uma batalha. Uma escolha pode te destruir.” É assim que a escritora Veronica Roth convida seus leitores com espinhas nos rostos a submergirem pelo universo de Insurgente, um dos best-sellers que está encantando a garotada teen.
Ao perceber os olhos gratos de Mariáh quando compro o livro - sei ela irá devorá-lo em poucos dias -, penso em como é árido o mundo literário dos adolescentes como essa menina-moça! Os heróis dela e de suas colegas vivem em mundos apocalípticos, em sociedades cheias de conflitos geopolíticos, guerras, fome, sangue e violência, muita violência.
Os heróis dos best-sellers infanto-juvenis como os das trilogias Jogos vorazes, Divergentes, Starters, ou até mesmo Percy Jackson e  os olimpianos advertem nossos jovens leitores de que nossa sociedade é constituída por uma espécie de névoa, um tipo de fog que ilude as pessoas e faz com que todos nós - adolescentes, adultos e crianças – tenhamos dificuldade em “enxergar o mundo”, e passemos a aceitar sem questionamentos situações que deveriam ser consideradas inaceitáveis como a fome, a desigualdade social, a miséria, o preconceito e tudo o que faz com que aceitemos numa boa que uns merecem morrer para que outros possam brilhar.
Em alguns livros, o fog é uma substância colocada na água, em outros é um tipo de veneno colocado no pão, em outros, como Jogos Vorazes, é o espetáculo, a sociedade do espetáculo a que estamos acostumados. Uma sociedade que nos vende a tortura e a morte e a possibilidade de nos vingar da tortura e da morte, torturando e matando.
Esses mesmos heróis juvenis dos best-sellers de Mariáh e suas amigas demonstram que há sempre pessoas – em geral de 16 anos – que podem nos mostrar como destruir esse fog e aprender a ser “divergente”. Que nos ensinam como pensar de forma diferente do que a sociedade teleguiada quer que pensemos.
Para isso, precisamos fazer escolhas. Precisamos optar por deixar nosso conforto e nos jogar rumo ao caos. Provavelmente, vamos sair feridos. É quase certo que vamos ficar sozinhos. Há muita chance de sermos abandonados por quem mais amamos. Mas no final, mesmo que em cacos, venceremos. Se é que há vencedores em uma guerra.
Quando Mariáh leu Filosofia de Jogos vorazes, a princípio, do alto dos seus 13 anos, ficou chocada com informações sobre o que a fome pode fazer com uma pessoa, tipos de armas usadas nas guerras, e outras crueldades presentes no mundo. Afinal, até bem pouco tempo atrás, eu não permitia que ela assistisse nada que pudesse deixá-la nervosa ou com medo.
Também fiquei apreensiva. Por que ela precisa ler essas coisas aos 13 anos? Não seria melhor que se preocupasse com amenidades como bandas, músicas e cores de esmaltes? Por que permitir que minha Mariáh se debruce sobre questões tão áridas, tão complexas e tão deprimentes, propostas por mundos apocalípticos e sociedades distópicas? Eu não acredito em apocalipse.
Mas eu vivi em uma sociedade apocalíptica. Vivo em uma. Lembro-me bem que aos 13 anos, em 1984 - ano que é emblemático por ser o nome de um dos livros mais importantes da minha vida, escrito por George Orwell -, eu vivia em um mundo ameaçado por bombas atômicas. Um mundo dividido entre capitalismo e socialismo. Um mundo prestes a desaparecer. O golpe de 1964 ainda não havia terminado, e notícias sobre torturas, desaparecimentos e mortes chegavam aos meus ouvidos em meio a sussurros sobre Cia e KGB.
Quando as Diretas-Já vieram, veio a certeza de que esse fog iria desaparecer. Estávamos dando boas-vindas à democracia! Teríamos o fim dos desaparecimentos, das mortes, das torturas! (Elas continuam acontecendo) A queda do muro de Berlim, os abraços entre as pessoas das duas Alemanhas - Oriental e Ocidental - selariam um mundo sem divisões. ( O mundo continua dividido) O fato de não termos morrido em 2000, de termos sobrevivido ao 11 de setembro, a melhoria da situação financeira no Brasil, a emergência das classes C, D e E, tudo isso me fez sentir segura. O mundo apocalíptico tinha acabado. Só que não, como Mariáh gosta de dizer.
Talvez só os adolescentes e seus heróis infanto-juvenis percebam que a ameaça de lideranças apocalípticas ainda nos espreita. É engraçado que, nesses livros, os jovens só percebam esse fog aos 16 anos, idade em que muitos defendem que deva ser a da maioridade penal.
Penso, no entanto, que o fog ainda está embaçando as nossas vistas. Se diminuirmos para 16 anos a maioridade penal, adolescentes de 15 anos não se tornarão como os de 17 são hoje: o bode expiatório para crimes cometidos por maiores? Não deveríamos estar preocupados em aumentar a pena dos maiores envolvidos em crimes que envolvam menores?
Não deveríamos estar mais atentos à falta de apoio que famílias desestruturadas encontram para se estruturar? Como fazer com pais que se acham no direito de abandonar seus filhos? Que se acham no direito de ser negligentes, ou que são negligentes porque não têm estrutura econômica, psicológica e física para ensinar seus filhos menores de 16 anos a enxergar em meio ao fog da criminalidade que também cega quem dela se alimenta? Como virar as costas para pais alcoólatras, drogados, mães solteiras e abandonadas que não têm como educar seus filhos porque vivem no fog da exclusão dos invisíveis?
Penso nas frases de Veronica Roth: “Uma escolha se torna um sacrifício. Uma escolha se torna uma perda. Uma escolha se torna um fardo. Uma escolha se torna uma batalha. Uma escolha pode te destruir”. Sim. Pode sim. Quem escolhe divergir da maioria, mesmo que seja no Facebook, vai ser sacrificado vivo. Vai perder amigos, vai ver sua escolha se tornar um fardo porque se verá no meio de uma batalha inglória, onde será destruído. Divergir e insurgir são verbos perigosos hoje, nessa sociedade “democrática” em que todos devemos optar por vivermos felizes, em paz e sem dor.
Embora queira mais do que tudo que Mariáh viva feliz, em paz e sem dor, me lembro de porque a incentivo a continuar lendo esses best-sellers. Por que quero que ela saiba da existência do fog. Porque acredito que ninguém é tão feliz quanto no Facebook, embora eu também adore divulgar frases de autoajuda. Eu que também quero tanto ser feliz e viver em paz e sem dor. Mas que, no fundo - embora tente esconder até de mim mesma -, ouça um sussurro assustador. Um sussurro que ainda que me chega baixinho, tímido, nervoso como as notícias da ditadura chegavam. Esse sussurro diz à minha consciência que ainda vivemos em uma sociedade apocalíptica. Mesmo que eu insista em não acreditar em sociedades apocalípticas.
Mesmo torcendo para estar errada, espero que Mariáh se prepare bem e esteja atenta ao fog que insiste em nos fazer acreditar que é preciso ser feliz acima de tudo. Quero que ela saiba fazer escolhas e assumir as consequências dessas escolhas. É preciso saber que ninguém faz escolhas seguro de que está certo. A escolha é fatal justamente porque ela nos lança ao desconhecido que rirá de nós se estivermos errados. E desejo muito que ela seja forte quando fizer uma escolha errada. Se é que há certo e errado no mundo das escolhas.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.

 

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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