Regina Helena Alves Silva
O Papa, o Galo e o Museu, ou quem manda em nossos corpos e corações
Semana agitada essa que passou. Aqui em Belo Horizonte e lá no Rio de Janeiro, parece que grande parte da população ficou nas ruas o tempo todo. Em cada lugar por um motivo e não foi pelas manifestações que tomaram as ruas nos últimos tempos. Em BH, a torcida do Galo que não pára de comemorar e no Rio mais um dos tais megaeventos que é a Jornada Mundial da Juventude. São dois eventos e cada um deles mobiliza e traz para as ruas de formas diferentes.
Em cada uma dessas formas, aconteceram fatos que me fizeram pensar muito nas crianças dos tempos atuais. A vitória do Galo em uma final inacreditável fez com que muitos torcedores saíssem às ruas durante dias comemorando. Me fez lembrar muitos anos atrás, muitos mesmo... quando eu era criança e o Galo vencia algum campeonato.
Meu pai era atleticano doente e comemorava de todas as formas possíveis. Cansei de ficar com ele na Petisqueira do Primo, comemorando com os amigos junto com outras pessoas que eram cruzeirenses ou de outros times. Tinha brincadeiras, tinha provocações, musiquinhas de uns com outros, mas tenho certeza absoluta que ninguém mandava ninguém “chupar” nem ir tomar em lugar nenhum. Os bares na cidade tinham fotos dos times campeões, eram mais frequentados por uns e por outros, mas o nível de agressividade beirava o zero. Às vezes, um bebia um pouco mais e passava dos limites...mas nunca vi violência ou agressões quando tinha crianças presentes.
Nesta semana, eu vi e ouvi coisas as mais tenebrosas sendo ditas entre cruzeirenses e atleticanos, mas o que mais me espantou foi que o grau de agressividade era também com e entre as crianças. Que tipo de adulto chama uma criança de isso ou aquilo ou a mandar tomar em algum lugar? E que tipos de pais respondem a esse tipo de agressão da mesma forma e na frente dos filhos?
Que tipo de pais geram tal grau de agressividade em seus filhos que faz com que eles ajam dessa maneira entre eles?
Fiquei feliz porque meus filhos passaram essa última semana de férias na colônia do Museu dos Brinquedos. Eu nem sabia que tinha colônia de ferias pra crianças...rsrsrs
Coisas de mãe-velha aprendendo...
Mas eles foram para lá, se divertiram horrores, compartilharam um monte de brincadeiras, e entre todos, crianças e pais com camisas do Galo e nenhum grau de agressividade ou provocação entre eles. Isso diz que não é nostalgia quando me lembro de como era na minha infância, porque tem lugares onde conviver com a diferença é possível. Um lugar que recebe tantas crianças e que consegue fazer isso quando a cidade toda parece ter enlouquecido, merece um destaque nesses meus escritos.
Mais do que isso, nos diz que o que temos visto entre as crianças ultimamente é muito mais por causa de como nós adultos nos relacionamos na frente e com eles do que resultado de algumas das milhares de “síndromes” que andam inventando por ai.
Fiquei bastante chocada com algumas coisas relativas à Jornada da Juventude e a vinda do Papa. Este é um Papa que, segundo analistas, veio para tentar conter a sangria de fiéis e de respeito da/para com a Igreja Católica.
Alguns não-católicos tinham uma certa expectativa de que esse Papa fosse um pouco mais “moderno” ou, devo dizer, mais “avançado” e que acompanhasse melhor as questões contemporâneas ligadas aos direitos sociais e culturais e porque não dizer ligadas aos direitos humanos.
Chegou um Papa simpático, jovial, alegre e com frases e tiradas bem humoradas. Um contraponto ao anterior, tão pouco afeito a esse tipo de demonstrações. Um Papa que a imprensa tanto gosta de mostrar como “despojado”, “desprendido” e nada condizente com a imagem de corrupção que uma ala da igreja de Roma andou revelando nos últimos tempos.
Mas ao mesmo tempo que o Papa aparece dessa forma na mídia a organização do evento distribui milhões de cartilhas e panfletos com a igreja que todos julgávamos que esse Papa ia tentar mudar um pouquinho.
Como historiadora, nada que a Igreja Católica faça me choca mais, sabemos de como atuou ao longo de sua história e das atrocidades que cometeu ou acobertou ao longos de seus muitos anos de existência.
Mas nos tempos atuais, em pleno século XXI, algumas coisas me deixaram estarrecida. Fico aqui no meu canto, vendo um pouco de televisão, lendo um pouco de jornais e revistas e usando o tal do Facebook. Acordei um dia e liguei o computador para dar de cara com uma imagem assustadora: era um bonequinho minúsculo de criança nas mãos de alguém. Olhei com mais atenção e vi que era um feto de plástico com um pequeno panfleto do lado onde estava escrito: "#EscolheAVida". Em um primeiro momento fiquei sem entender o que poderia ser aquilo. Depois entendi que era uma “campanha” da tal Jornada da Juventude contra o aborto.
Depois vi notícias sobre milhões de cartilhas que foram distribuídas durante esse evento. Nessas cartilhas, a Igreja põe em xeque a saúde mental de crianças cujos pais sejam homossexuais. O texto vincula o desenvolvimento da criança a uma estrutura familiar de pai e mãe: “Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe.”
Como assim? A procriação desde o inicio da humanidade e, portanto, muito antes da constituição da igreja católica, necessita de um óvulo e um espermatozóide. O fato de nascermos com corpos diferentes tem significados social e culturalmente constituídos portanto não existem regras definitivas e nunca existiram.
Mas a cartilha continua:
“Ter um filho não é um direito! O filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais. Embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reivindicação dos lobbies homossexuais não é legítima. É preciso um homem e uma mulher para gerar um filho. Querer ignorar essa exigência biológica é um forte indício de que a reivindicação não é justa. E se houver algum direito a alegar, seria o direito da criança a ter pai e mãe para poder constituir a sua personalidade”, diz o texto.
De onde alguém pode tirar a ideia de que um filho é um bem de consumo? Como uma instituição pode dizer que alguém quer um filho como quer um par de sapatos?
Ainda sobre filhos criados por pais ou mães homossexuais, o manual diz que "é essencial ser amado pelos pais, mas não basta". "Criar, educar um filho ultrapassa o lado afetivo, embora todos os componentes se misturem (...) A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver", reforça.
Fico pensando em como alguém pode cunhar uma coisa dessas. Beira o ridículo uma frase como essa. Se assim fosse, a grande maioria da população do mundo não se desenvolveria porque a imensa maioria das crianças neste mundo não tem pai e mãe para criá-los. A imensa maioria das chamadas “famílias” atuais são compostas por mãe e filhos.
Mas, se amar não basta e só vale se tiver pai e mãe para se desenvolver, aí a questão ficou absurda. E todos, absolutamente todos os que não tiveram pai e mãe? Eles não se desenvolveram?
Às vezes, temos que ter cuidado com os argumentos que buscamos para justificar coisas que por si já são injustificáveis. Negar a maternidade a qualquer mulher é totalmente injustificável, mas dizer que sem pai e mãe não é possível alguém se desenvolver. Na verdade eu não sei qual o significado de “desenvolver” aí nessa frase.
Eu poderia ficar aqui por muitas linhas discutindo isso, mas ando tendo um cansaço monstruoso com esse tipo de argumentos. Quer dizer, tenho um cansaço tremendo quando contra-argumentamos e as pessoas dizem que é uma questão de fé, de crença.
É claro que é. E por isso mesmo não tem lógica querer impor sua crença a do outro. Ou querer impor o que é uma crença, uma fé à legislação de um país e à vida de cada um. Essas mesmas pessoas ficam indignadas com determinadas práticas de outras culturas e religiões e de como tratam as mulheres. Mas acham que podem decidir sobre o corpo de outra pessoa.
Para além disso, achar que podem impor uma lei que proíbe pessoas de adotarem crianças que foram abandonadas ou retiradas de suas famílias, onde sofriam violências de todos os tipos, é absolutamente desumano.
Aventar a hipótese de que alguém pode querer um filho por vaidade ou modismo é tão triste que não necessita comentários.
Sei disso tudo que esta semana me fez ficar pensando nas crianças, nestas que não falam nestas cartilhas, estas que usam imagens lamentáveis de bonequinhos de plástico para ser contra o aborto.
Nossas crianças que, ao invés de terem um mundo onde o futebol é uma alegria e a vitória uma comemoração, vivem em um onde um adulto ou o filho dele as agridem porque não torcem pelo mesmo time.
Nossas crianças que não podem ter só mães ou só pais. Olho para meus filhos e fico pensando: que tipo de problemas posso causar a eles pelo fato de ter comigo uma outra mãe?
Podemos causar muitos “males” a nossos filhos, todos nós podemos, todo e qualquer tipo de pai-mãe, pai-pai, mãe-mãe, mãe, pai. Mas o fato de sermos duas mães não produz nada de diferente em nossos filhos.
Fico profundamente mobilizada quando dizem que tenho um desvio, uma doença, uma maldição ou sei lá mais o quê... não entendo porque algumas instituições têm que ser firmar com ódio, intolerância e preconceito com a diferença com a diversidade. Entendo menos ainda quem passa a vida dizendo lutar contra isso não conseguir enfrentar uma instituição que se afirma na fé dessas pessoas. Quando entram as igrejas em cena, essas pessoas se calam ou justificam tudo em nome da crença e de dogmas.
Eu respeito profundamente as crenças e os dogmas dos outros e, portanto, espero e tenho que ter o mesmo respeito. Não considero uma pessoa doente, amaldiçoada ou desviante por ela ter escolhido professar essa ou aquela religião. Então, por que quem diz ter fé e crença precisa de se auto-afirmar nessa fé e nessa crença por sobre as escolhas dos outros?
Nenhuma fé, nenhuma crença e nenhuma escolha de hobbies ou diversões justificam agredir e violentar o outro que não fez estas escolhas.
Podemos até nascer católicos ou evangélicos ou de outra religião qualquer. Podemos até nascer cruzeirenses ou atleticanos. Mas a vida nos dá a oportunidade de depois escolhermos e irmos ao encontro do que acreditamos ou do que nos diverte. O que não podemos, em hipótese nenhuma, é impor uma religião ou um time de futebol ao outro.
É claro que não estou comparando as duas coisas, sei muito bem que religião não é time de futebol. Mas o que sei é que todos nós temos o direito à escolha e a fazer nossas opções. E cada vez mais no nosso mundo tentam nos roubar o direito a sermos o que somos para tentar nos tornar um monte de mais do mesmo.
Assim são os tempos atuais, onde nossas crianças são criadas. Tempos de variadas violências físicas e simbólicas. Tempo de discursos fáceis para a mídia e ações arbitrárias e discriminatórias.
Nossos filhos crescem e vivem no meio das nossas intolerâncias, da falta de respeito, da incivilidade, do autoritarismo, da prepotência e dos preconceitos que nós adultos impomos a elas.
Não nascemos assim, não nascemos prepotentes a ponto de nos permitir anular um gênero em privilégio de outro. Não nascemos achando que as mulheres são meros repositórios de espermas para reprodução. Não nascemos achando que o Galo ou o Cruzeiro são importantes a ponto de violentarmos uns aos outros. Não nascemos colocando a intolerância e o preconceito acima do amor. Principalmente, não nascemos hipócritas a ponto de impor censura ao outro sobre aquilo que fazemos as escondidas mas em público dizemos ser pecado. Não nascemos para impor ao outro o crime de uns, a ponto de obrigá-lo a suportar as consequências de sua violação.
Mundo difícil o que meus filhos vão enfrentar. Às vezes, acho mais difícil do que o que enfrentamos porque é mais violento, mais intolerante e mais hipócrita. Mas nosso mundo também cria lugares como o Museu dos Brinquedos, um lugar onde as crianças podem e devem ser diferentes enquanto brincam todas juntas, um lugar comum, um lugar em comum.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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