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Betzaida Tavares

O que você quer ser quando envelhecer?

Isabel tem cinco anos. Está naquela fase da vida em que a maioria das pessoas lhe parecem grandes. Uma criança de nove anos, por exemplo, é “um pouco grande”. Já sua prima, Elisa, com quinze anos, “é meio grande... e linda”. E assim Isabel organiza o mundo das pessoas maiores que ela com categorias que variam do “um pouco grande” ao “grande mesmo”. E grande mesmo é vó Beatriz, vizinha que mora no apartamento em frente ao seu e que lhe ensinou a recitar versos antigos e a tocar Cai cai balão ao piano, velho piano de cauda que ocupa quase toda  a sala do apartamento da  senhora.

É com essas categorias, tão cuidadosamente criadas, que a menina aprendeu responder a embaraçosa pergunta que os adultos vira e mexe lhe fazem: “O que você quer  ser quando crescer, Isabel?”.  No começo ela se aborrecia, fechava a cara e respondia: “Não quero ser nada, não!” Era difícil entender porque os adultos se importam tanto com um tempo que ainda está tão longe.

Depois, resolveu pensar no assunto e começou a gostar da brincadeira. Sendo ainda tão pequena, é tanto tempo que tem pela frente que ela pode sonhar à vontade. Por isso, quem lhe fizer essa pergunta vai precisar ter paciência para ouvi-la traçar toda a trajetória de seus sonhos, feito um memorial às avessas.

– Quando eu for grande, primeiro vou ter cabelo comprido e usar esmalte vermelho, igual à Elisa. Depois vou ser professora e andar de moto, que nem a tia Janaína. Mas quando eu for grande, grande mesmo, vou tocar piano e escrever poesia para o pão. Vou ser igual à vó Beatriz.

É que a vó Beatriz, além de tocar piano e fazer bolo de cenoura com cobertura de chocolate, escreve versos.  E o dono de uma grande rede de padarias, querendo inovar, acrescentou às embalagens de pão, juntos com desenhos de trigo que ilustram os pacotinhos, os poemas de Beatriz. E Isabel, que ainda não sabe ler, acha das coisas mais importantes ter uma vizinha que escreve poesias para o pão.

Ao ouvir os planos de Isabel, eu me lembro de um conto que escrevi em que dizia que os sonhos nos abandonam na medida em que envelhecemos. Não é verdade. Não é a velhice que extermina as expectativas que cobrem nossa vida de sentido. É a ruptura do elo entre as gerações, fruto dessa sociedade tão bem dividida em setores, tão perfeitamente categorizada. Tão estilhaçada. Para cada fase da vida, um lugar temporal bem definido: as crianças pertencem ao futuro, pessoas adultas ao presente e os velhos são jogados num passado que perdeu todo o valor nesses tempos que cultuam o progresso e a velocidade.

A pequena Isabel, ainda jovem demais para ter passado pela inevitável cisão entre a menina, a mulher e a velha, anima-me a recolher os pedaços do que fui, do que sou e de tudo o que um dia quis ser. Junto tudo e torno a ser uma só. E assim, inteira, volto a sonhar. Eu também, Isabel, um dia vou ser grande mesmo. E quando eu for grande, quero ser uma velha bruxa, que adivinha o futuro nas cartas de tarô e conhece as ervas que curam doenças do corpo e da alma. 

Betzaida Tavares é historiadora e escritora. Menção honrosa no Prêmio Literário Cidade do Recife (2011), categoria Romance, com a obra O fundo e a luz. Ministra cursos voltados para a relação entre história e literatura e oficinas de produção de texto. É professora de história no Sebrae e mãe de quatro meninos.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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