Roger Andrade Dutra
O Valor da Família: uma abordagem tecnocientífica
Em 1923, J.B.S. Haldane publicou um pequeno texto chamado Daedalus, ou Ciência e Futuro (infelizmente, só disponível em inglês). Salvo engano, foi a primeira vez em que se falou seriamente sobre ectogênese, a condução de toda a gestação em úteros artificiais.Para Haldane, a ectogênese seria inevitável. Chegou a prever que, após o aperfeiçoamento técnico necessário, a França seria o primeiro país a adotá-lo oficialmente em escala industrial. “Por volta de 1968”, escreveu, “serão produzidas 60.000 crianças por ano” (a ênfase em “produzidas” é minha). As fazendas de úteros do Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, retomadas no filme Matrix, foram emprestadas de Haldane.
Foi um artigo que li em The Atlantic que me relembrou o Daedalus. Nele, uma recém-mãe conta quais as maiores dificuldades que enfrentou durante a sua primeira gravidez. E de que modos elas foram superadas com o emprego maciço de suas habilidades em...microeconomia. A autora é economista e o título do artigo é Thinking About Pregnancy Like an Economist – algo como Pensando Sobre Gravidez como uma Economista.
Terminada a leitura, pensei naquelas locuções ridiculamente engraçadas, frequentemente ouvidas em reuniões políticas ou debates acadêmicos, vinte e tantos anos atrás: “eu, enquanto homem, operário, estudante e espoliado...”. Estivesse em uma daquelas assembleias, nossa professora de economia daria início à sua intervenção mais ou menos assim: “eu, enquanto economista, professora e mulher...” (um dia, talvez, eu conte quando escutei, em um congresso acadêmico, uma expositora defendendo a equivalência entre o crescimento da barba masculina e a menstruação; atônitas, as más-línguas na plateia cunharam a sigla TPB, ou Tensão Pré-Barba).
Mas, voltemos à nossa economista. Logo que se soube grávida, escreve, procurou uma obstetra. “Perguntei à minha médica sobre o consumo de bebida alcoólica. Ela respondeu que um ou dois drinques por semana eram 'provavelmente bons'. 'Provavelmente bons' não é um número”, escreve ela, em um tom meio revoltado meio incrédulo. Eram perguntas simples, diz ela, mas os “números – os dados – para tomar as decisões” não estavam disponíveis.
Tomada pelo desamparo, sentia que as orientações sobre como se portar durante a gravidez eram ou contraditórias ou mal fundamentadas. Esgotadas todas as outras, restou uma alternativa: fazer o “trabalho básico de uma economista”. E saiu à caça dos números, meses a fio vasculhando papers acadêmicos.
Enquanto economista grávida, a falta crônica de “dados, números” a angustiava. Sem eles, ela pergunta, como uma grávida pode tomar decisões adequadas sobre a condução da gestação?
Solidário, mergulhei na questão quase seminal: como, diabos, a humanidade saiu da longínqua fase primata até atingir os atuais seis bilhões de indivíduos, se a aglutinação de séries numéricas, a construção de bancos de dados ou a compilação de estatísticas somente foi possível há menos cem anos?
Aterrorizada pela incerteza, nossa econogestante só encontrou tranquilidade quando pôde, finalmente, exercer sua profissão na sua própria gravidez. Aliás, o primeiro dos receios que ela mencionou foi o de que a gestação lha “tomasse” tanto tempo a ponto de inviabilizar o trabalho.
Essa fusão do vício pelo trabalho com crenças pueris no progresso tecnocientífico, tão característica de nossa época, resulta cada vez mais em pessoas incapazes de perceber o mundo de outras maneiras. Há pouco tempo ouvi, involuntariamente, pessoas discutindo sobre a duração máxima “cientificamente determinada” das paixões amorosas.
Mas, um pouco mais absurdo do que pensar em “bebês ectogenéticos”, ou produção industrial de bebês, é constatar que, na forma atual de sua visão de mundo, nossa economista estaria predisposta – ficaria descansada, até aliviada – se pudesse contratar sua gestação junto a uma corporação especializada em ectogenia. Afinal, seria um processo em ambiente controlado. Geraria números em abundância, avaliáveis em tempo real. Todas as necessidades do produto seriam satisfeitas just in time. Rigorosamente higienizado, o local seria organizado segundo os princípios milenares do feng shui. À exceção do Requiem, seriam audíveis, ao fundo e ininterruptamente, as obras completas de Mozart. Estas, como é notório, aumentam a inteligência e intensificam a capacidade de concentração.
Já imagino bebês de marca, tatuados com a logomarca da empresa que os produziu, cada um com seu número de série (óbvio direito da empresa, dirá um liberal médio; o liberal radical aplicará ao bebê o corpus dos tratados internacionais de proteção à propriedade intelectual). Nossa economista poderia até inaugurar um novo campo de estudos, algo como os “Princípios Inovadores em Branding Babies”. Em algum momento do futuro, assistiremos a Apple® reclamando direitos sobre a patente de um gene modificado que induz bebês a comer somente cereais certificados e preprocessados no iTunes®. Como o grau de inteligência será aperfeiçoado não apenas pelo som de Mozart – tecnologia do século XVIII, dirão os especialistas da BHTrans – mas também pela introdução, durante o período da confecção, de novos e aperfeiçoados algoritmos de consciência, terá início a disputa entre os defensores da consciência proprietária do bebê versus os defensores da consciência livre.
A informação sobre a música de Mozart é, mais que falsa, infundada. Anos atrás, apareceu em um artigo científico jamais corroborado. Porque caiu nas graças da imprensa irresponsável, alastrou-se viralmente. Em um mundo em que as pessoas ouvem Mozart para aumentar performances, e não para desfrutar a música, faz todo sentido.
Antes de me juntar ao inimigo, arrisco dizer que talvez chegue o dia em que teremos que proclamar um direito à gestação. Sim, porque, se maternidade ou paternidade, como já defendi em coluna anterior, não são condições biológicas inatas, restam poucas dúvidas, para mim, que a gestação biológica é necessária aos seres humanos. Ou, como sempre ditou, com algum horror, a sabedoria popular: “não sou filho de chocadeira!”
Não obstante tudo isso, sou uma pessoa da academia. Jamais gostaria de ser lembrado como o pai que infundiu em seu filho os valores da tecnofobia, contrários ao progresso. Ou como o pai que impediu seu filho de contribuir para o avanço tecnológico, lá, “onde nenhum homem jamais esteve”, nos rincões da ectogênese, dos tablets e das iCoisas.
Por isso, resolvi oferecer minha contribuição tecnocientífica à nova sociedade. Trata-se de uma fórmula inovadora (inovação está na moda) para o cálculo do Valor da Família (VdF). Antes, precisarei contar como cheguei a ela. Logo em seguida, sugerirei possíveis aplicações.
Calculando o Valor da Família (VdF)
Há alguns meses, vivenciei uma experiência curiosa. Era o começo de uma longa viagem aérea. Eu ocupava uma confortável poltrona na classe econômica, contente porque a cadeira ao meu lado permanecia vazia. Porém, meus planos de conforto transatlântico foram desfeitos quando fui arrochado em direção à janela por um corpo estranho.
Mal desabado, o libanês começou uma litania. Apontava o assento junto à saída de emergência. “Estou com toda a família no avião. Gostaria que você se mudasse para aquele lugar; é melhor, mais espaço para as pernas. Vá logo! Por que não vai? Ganhamos os dois, posso trazer para cá meu filho, cruelmente separado da família pela besta-fera do check-in”.
Lembrando que “o embarque estava em progresso”, recusei a oportunidade. Ademais, não entendia porque ele mesmo não sequestrava o assento. Se o privilegiado aparecesse, seria eu a encarnar o papel de amigo do alheio. Nesse meio tempo, outro usurpador fez em benefício de si o que o libanês queria que eu fizesse para proveito dele próprio.
A litania persistiu. Sob nova perspectiva, tornou-se repreensão: “está vendo? Outra pessoa veio, tomou o lugar...você deveria ter ido”. Ele continuou a reclamar, mas daí em diante xingava para dentro, falava consigo mesmo; eu ouvia, os impropérios eram para mim, mas não eram dirigidos a mim.
De minha parte, agradecia ao meu eu interior os longos anos dedicados à prática da meditação transcendental. Só com ela pude ignorar o meu eu exterior, isto é, os meus ouvidos. Isso e, claro, as quatro drágeas de Rivotril®. Uma antes da decolagem, três após o libanês.
Todavia, o sujeito não desistiu. Cintos desafiveláveis, levantou como um balão de hidrogênio e foi orbitar uma aeromoça (ele era que nem a lua, irregularmente redondo, irregularmente branco, o rosto coalhado de crateras). Falou e flutuou uns cinco minutos. Ela ouviu, sumiu, e voltou: “senhor”, falava comigo, “o senhor se incomodará se o pusermos em uma poltrona do segundo andar, na classe executiva?” E eu: absolutamente. Quinze centímetros depois, minhas pernas juntaram-se ao sono profundo do meu eu interior.
Mais tarde percebi que, agrupados, os dados empíricos permitiam determinar uma fórmula, a fórmula para o cálculo do valor da família. Só precisava eliminar as variáveis irrelevantes, o ruído como se diz em física – tais como o libanês, por exemplo. Tomando o a aeronave como ambiente controlado, cheguei a:
VdF=PPCE - Cpec
Onde VdF é o Valor da Família; PPCE é o Preço da Poltrona em Classe Executiva; e Cpec, o Custo da poltrona na classe econômica. É recomendável que as variáveis sejam expressas em Euros. Assim, ficam assegurados os valores futuros de compra e venda
Agora, vejamos algumas utilidades da fórmula. Se o VdF estivesse disponível seria fácil estimar o custo da catástrofe humanitária atualmente em curso na Síria. E nem seria necessário deslocar as famílias. Basta simular a partir do custo hipotético das poltronas de classe executiva e econômica entre Damasco e qualquer outro ponto no mundo. Como o custo aumenta em relação à distância que separa Damasco de cada cidade do mundo, entenderemos porque quase ninguém se importa com elas, as famílias. Só com eles, os custos.
As cidades próximas, ou já cancelaram os voos, ou os restantes não dispõem de classe executiva. Seu VdF é ou baixo ou não calculável. Daí, concluírem não valer a pena intervir para acabar com a guerra civil. Cidades distantes, em países remotos, digamos, Belo Horizonte, chegarão a valores absurdos, impraticáveis para economias que não crescem a ritmo chinês (como “ensinam”, diária e inconsolavelmente, a Leitão e o Sardenberg).
Já para os EUA, o custo do transporte de todas as famílias atingidas é menor do que o necessário para aquecer sua economia interna (ainda sofrendo, coitada, a crise da bolha imobiliária). Além disso, não beneficiaria Israel, já que atacar a Síria é também pretexto para atingir, indiretamente, o Irã.
Vejam que o VdF ajuda a explicar porque o resto do mundo fica imóvel enquanto os EUA lançam-se à carnificina.
O VdF é muito flexível. Como é um valor universal – afinal, toda família é um custo e, portanto, diria nossa economista, planilhável a priori – aplica-se a qualquer contexto.
Ou isso, ou nos damos conta de que o modo como estamos “vendo o mundo” tem algo de muito estranho. Será, talvez, que a reaparição de tantos fenômenos lamentáveis – como o racismo e o elitismo desavergonhados assacados contra os médicos cubanos; ou a revivescência de discursos autoritários, que imaginávamos enterrados com o fim da ditadura no Brasil – não estariam, de vários modos, vinculados à nossa mania de quantificar tudo?
Não sei ao certo. Só sei que, tal pergunta, número nenhum a responde.
P.S: a leitora ou leitor atentos, talvez nossa economista, poderão ter notado que saltei sem escalas do Daedalus às fábricas de bebês. A constatação é correta, mas o salto não foi leviano. A título de exemplo, cito três textos que tratam, já agora, no século XXI, das possibilidades e implicações da ectogênese e do já vigoroso mercado do “negócio dos bebês”. Há o livro The Baby Business: how money, science and politics drive the commerce of conception, de Débora L. Spar (2006). A coletânea Ectogenesis: Artificial Womb Technology and the Future of Human Reproduction, organizada por Scott Gelfand e John R. Shook (2006). Ou o artigo In Defense of Ectogenesis, de Anna Smajdor (2011), publicado na revista acadêmica Cambridge Quarterly of Healthcare Ethics. Há muitos, muitos mais. Se lembro alguns, é para frear o delírio dos leitores que imaginam que engoli mais do que cinco, ops, perdão, quatro drágeas do Rivotril® quando queria livrar meus ouvidos do libanês.

Roger Andrade Dutra é professor do CEFET-MG. É graduado em História pela UFMG, Doutor e Mestre em História Social, pela PUC-SP e pai do Lucas Cosendey, não necessariamente nessa ordem. É especializado em filosofia da tecnologia e das tecnociências, sobretudo em temas relacionados às biotecnologias e às novas tecnologias de informação e comunicação; pesquisa, ainda, sobre políticas públicas de cultura as diversas relações entre política, cultura e tecnologia.
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