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Regina Helena Alves Silva

Estamos aqui porque somos o lixo

Eu tentei, de todas as maneiras, escrever nesta semana um texto só sobre os meus filhos. Comecei um texto várias vezes e parei lá pela décima linha. Não tem jeito. Não consigo escrever nada que não seja sobre meus alunos e os jovens que estão presos aqui em Belo Horizonte desde as manifestações de 7 de setembro. Não consigo pensar em outra coisa, numa semana que tenho quatro bancas, três dias de aula de 14 as 18 horas e uma assessoria na quarta-feira inteira. Enfim, uma boa semana pra enlouquecer.

No entanto, comecei a semana com a notícia de que entre os presos está um aluno da História. Este texto é sobre todos os presos (muitos dos quais não conheço), mas todos eles estarão na figura do Leo – João Leonardo Martins.

A última vez que conversei com ele foi quando houve a ocupação do saguão da reitoria da UFMG, durante as manifestações de junho. Leo entrou no Facebook e perguntou se eu não poderia ir lá para conversar com eles um pouco.

Eram poucos alunos, o que restou de uma ocupação anterior que acabou por decidir sair do saguão e partir para aquilo que concebiam como outras formas de luta.
Para surpresa de todos nós, um pequeno grupo por lá resolveu ficar. Em um dado momento, perguntei a eles por que ficaram. Por que estavam ali, dormindo no chão? Um deles me respondeu: "Porque somos o lixo Lena, somos o lixo desta universidade".
Isso me fez entender tanta coisa naquele momento, que até hoje escuto aquela voz...
Olhei em volta e vi vários alunos negros ligados a coletivos negros, um casal de lésbicas, alguns jovens que já tinham sido meus alunos e que vinham de vários lugares da periferia da cidade. Não era um grupo de alunos “brilhantes”, bolsistas, que escrevem artigos com professores, que tiram boas notas. Era um grupo de alunos que até outro dia a universidade jamais aceitaria e agora estavam ali e sabiam que não eram vistos com bons olhos.
Fiquei tentando entender o que estudar em uma universidade poderia fazer a eles. Depois disso, vi esse grupo se organizar, estudar as questões da universidade, entender das diretrizes e decisões, analisar contratos com os quais não concordavam...
Naquele momento, compreendi que muitos de nossos alunos não se adaptam aos conteúdos que “decidimos” que eles devem estudar. No entanto, quando algo os toca, tornam-se os caras mais estudiosos e “aplicados” que já vi.
É isso o que tenho visto desde que começaram as manifestações de junho. Muitos de meus alunos, que detestavam estudar e ficavam com “cara de paisagem” durante as aulas, passaram a estudar e analisar situações 24 horas por dia. Vão para reuniões com gestores públicos e políticos e dão um baile nos caras. Formam-se para brigar pelo que acreditam.
Isso eu não via há tempos na universidade: envolvimento, pesquisa apurada das questões, discussão de textos, tradução de textos para distribuição, análise de documentações pública e privada e produção de relatórios e textos para embasamento e discussão.
Estes são os “novos alunos” dos movimentos. São engajados (palavra em desuso atualmente) e acreditam em suas ações.
Nós, os “velhos professores” os olhamos de longe. Alguns, consideram-nos ingênuos, outros entendem ser um desperdício de energia tanta militância. Muitos os olham com medo e acreditam que são demônios de máscaras. Esses que a imprensa e a polícia adoram dizer que são “vândalos”.
Leonardo Martins é desses militantes que às vezes nos irritam ou então nos fazem olhá-lo com cara de condescendência. Ele é daqueles que andam com orgulho do que são: tem uma enorme cabeleira cheia de dreadlocks, usa um grande óculos escuros e tudo isso mais um piercing e carrega sua cor.
Esse menino está preso, acusado de constituição de milícia armada. Quando fiquei sabendo disso não acreditei que a polícia e que um governador pudessem permitir tal arbitrariedade em pleno século XXI. Acusados de constituírem milícias armadas?
Convivemos com estes jovens todos os dias, ficamos ao lado deles na cantina, tomamos café e os vemos lá pelos lados dos centros acadêmicos do terceiro andar da FAFICH.
De onde alguém pode tirar que uma pessoa como o Leo participa ou organiza uma milícia armada?
Hoje foi um dia desses que a gente acha que o mundo ficou louco. Um dia que me dá vergonha de morar em BH e ter os governantes que temos. Só aqui manifestantes continuam presos e são indiciados em coisas absurdas como essas.
 Por que estes jovens estão dormindo todas estas noites na cadeia? Por que estão em celas com presos comuns? O que fizeram? Nenhuma resposta. Em seu lugar, uma quantidade absurda de impropriedades e todos os dedos apontados para aquele que foi escolhido como o vilão da vez: os Black Blocs
Eles existem há muito tempo em vários lugares do mundo, chegaram ao Brasil e não têm o patrocínio nem o monitoramento dos grupos que dominam nossa cena política “alternativa”. Porque são diferentes viraram os vilões da vez.
Um policial deu uma declaração à imprensa sobre os presos dizendo: um deles admitiu ser Black Bloc, como se nessa declaração estivesse toda a justificativa par as arbitrariedades da prisão e o indiciamento por “milícia armada”... inacreditável uma polícia tão medíocre!
Sei que estes jovens estão lá, dormindo na cadeia e eu acreditava que desde o fim da ditadura militar não veria mais presos políticos, pelo menos enquanto eu vivesse.
Mas é isso que eles são: presos políticos, presos da intolerância, presos do medo do desconhecido, presos das regras da FIFA que não admite manifestações enquanto ganha dinheiro fácil em país de trouxas. É isso o que são estes meninos que irão passar mais uma noite em uma cadeia de presos comuns.
Tenho cada vez mais pensado em ir para algum lugar onde meus filhos não precisem que conviver com tanta arbitrariedade e violência.
Não quero para os meus filhos o que o Leonardo está vivendo, mas também não quero que meus filhos não lutem pelo que acreditam. Não quero vê-los transformados em “coxinhas” que insuflam golpes na internet, convocam manifestações para detonar tudo e depois jogar a culpa nos Blacks...
Aliás, neste país, tudo sempre foi culpa de Blacks... Até hoje, décadas depois de Elis ter bradado com sua voz tão linda quanto potente que
Black is beautiful, continuam sendo tratados como o lixo.

 
Uma pena que algo que começou de forma tão interessante, diferente e com uma potência impressionante de vontade de mudança política acabe com a criminalização de um grupo e a prisão (ainda) de 13 jovens. Jovens que foram às ruas para protestar contra situações injustas... e acabaram vítimas da injustiça que combatiam
 
Peço desculpas aos meus filhos porque hoje não falei deles. Não tenho condições de me esquecer dos meus alunos, de me esquecer do Leo.
Impossível não lembrar que ele um dia me disse que não era mais o lixo da minha universidade. Digo aos meus filhos que hoje meu texto foi para o Leo porque não podemos deixar que a truculência, a violência e a arbitrariedade o joguem de novo no lixo.
Leo, cortaram seus cabelos, sei o orgulho que você tem deles... Mas não se esqueça nunca: nossos cabelos crescem novamente e sempre poderemos mostrá-los a todos como símbolo daquilo em que acreditamos. A polícia faz isso para que você volte para o lixo, mas o pouco que conheço de você me faz ter certeza de que para esse lugar você não volta nunca mais.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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