Magali Simone de Oliveira
Parques e máquinas
Mariáh está fazendo um “cursinho” comigo para aprender a pegar o ônibus sozinha para ir até a escola. Até o ano passado, ela ia de van porque estudava à tarde e a aula acabava às 18h20. No inverno é escuro e eu ficava preocupada. Como tinha 13 anos, eu a achava muito nova para andar sozinha pelas ruas à noite– embora ela estude em um colégio muito próximo ao bairro onde moramos.
A princípio, fiquei com um pouco e medo de ela errar o número do ônibus, ou passar do ponto, mas ela deu um baile. Já no primeiro dia foi e voltou rapidamente sem ter nenhuma dúvida. Sei que isso não é uma prova da genialidade dela, mas fiquei mais tranquila e um pouco orgulhosa. Há alguns anos eu a ensinava a andar. Agora, estou a estimulando a descobrir o mundo sem mim.
Pode parecer ridículo essa necessidade de treinamento – medo de mãe neurótica – mas como ela anda com a cabeça baixa o tempo todo mandando mensagens pelo celular fico insegura, com medo de ela atravessar a rua com o sinal fechado ou dar alguma bobeira, enquanto está em trânsito conectada ao Facebook.
Recentemente tive que proibir o uso do celular nas refeições. Era uma garfada e uma digitada. Não comia e – penso eu - não conversava direito com seus ciberamigos. Revoltada com essa dependência eletrônica também parei de conversar com Mariáh quando ela dialoga comigo mandando mensagens por celular para seus amigos. Sempre que percebo que isso está acontecendo fico muda. Acho falta de respeito não parar para me ouvir por um minuto que seja.
- Para com isso mãe. Eu faço o dever de casa e estudo conversando com os meus colegas, ouvindo música, dando uma olhada nos “animes” e passei direto com notas boas. Só vocês “mais velhos” é que precisam fazer uma coisa de cada vez. O que tem de errado em falar com várias pessoas ao mesmo tempo?
Em um desses treinamentos, acabamos visitando aquele parque próximo à Assembleia. Era a primeira vez que ia lá com Mariáh. Por alguns minutos, ela se esqueceu do celular e o guardou na bolsa. Como quando criança quis explorar e experimentar cada um dos equipamentos de ginástica disponibilizados para os visitantes do parque. Descobrir cada cantinho daquele pequeno refúgio da vida urbana.
Por cerca de meia hora, pensei ter voltado no tempo e reencontrado a minha menina sapeca que gostava de brincar, correr, explorar tudo com uma vontade insaciável de entender o mundo. Ali, aos 14 anos, ela era uma criança diferente. É claro que não sentamos no chão, mas tiramos o sapato e andamos no pequeno espaço de grama ali existente.
Brincamos juntas nos aparelhos de ginástica, e rimos de uma senhora que, minutos antes de experimentarmos um equipamento que simula caminhadas, desdenhou feio dessa academia popular.
- Isso daí não vale nada. Essas máquinas são uma espécie de brinquedo para “inglês ver”. Esses exercícios daí não valem nada. Eu prefiro a minha caminhada em volta da praça, disse vestida como atleta.
Logo que deixamos o equipamento por ela havia criticado, estava ali triunfante se esforçando para agitar as pernas. Eu e Mariáh rimos muito e, pela primeira vez em muitos dias, ela conseguiu dialogar comigo sem teclar. Li outro dia que essa dependência de celulares, smartphones, iphones, ipeads não tem volta. Em pouco tempo estaremos todos assim.
Sou um dinossauro que, aos 14 anos fazia aula de datilografia. Estou lutando com todas as forças para me adaptar a esse novo mundo de conversas intermediadas por computadores. Lembrando-me de 2001 o filme de Stanley Kubrik tive a impressão que a máquina venceu.
Nossa vida está conectada a ela. Compras, pagamentos de contas, pesquisas, estudo à distância, início e término de namoros, conversas entre pais e filhos, está tudo ali, dentro daquela telinha que não conseguimos desligar. Nossa vida depende dela. E já não podemos fazer uma coisa só de cada vez. Como podemos abrir várias “janelas” ao mesmo tempo, o normal é executar várias atividades ao mesmo tempo. É ser múltiplo, embora eu tema não conhecer profundamente nenhuma das Magalis que estão ali produzindo e reproduzindo conteúdos que – muitas vezes – não dizem nada para a mulher que sou fora da rede.
Mas ali, naqueles poucos minutos, naquele parque - recanto silencioso de uma BH tão barulhenta - observei que sem o celular conseguimos voltar um pouco o tempo. Deixá-lo mais lento. O desligamento da rede pode ser mágico. Em vez de mantermos relacionamentos fragmentados simultâneos, podemos descobrir que as pessoas são únicas. E que é isso o que é legal nelas.
A minha Mariáh voltou a ser naquele instante “só minha”. Não a senti como a adolescente que, ao mesmo tempo em que é tão falante na web, é muito tímida pessoalmente. Porque ao vivo, é difícil ouvir a voz da minha filha. Os cumprimentos são ligeiros, e, geralmente, são acompanhados por um rubor nas faces que me recorda as heroínas dos romances do início do século XIX. As risadas e as conversas só acontecem com as amigas.
Pensei então que deveria haver o aplicativo “parque” no celular. Um dispositivo que transportasse o usuário para recantos silenciosos, com cheiro de grama molhada, onde todos pudessem explorar espaços e interagir tendo a sensação de pisar na terra e de conhecer pessoas com quem conversassem calmamente, com uma de cada vez.

Magali Simone de Oliveira é mestre em Letras pela UFSJ, jornalista, professora universitária, poeta, contista de textos não publicados, dona de casa e mãe de uma adolescente linda chamada Carolina.
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