Regina Helena Alves Silva
Passado, presente e que dia é meu aniversário?
Minha amiga Daniela outro dia me cutucou, dizendo que precisa da consultoria de um(a) historiador(a). Ela anda preocupada com o surto enlouquecido de todos com o passado. Sim, o passado, este tempo que já passou. Esse do qual parece que todos tem saudades e querem um retorno imediato. Esse que todos querem preservar, salvar e resgatar.
Respondi a ela com minhas ironias de sempre. Sendo historiadora, fico absolutamente enraivecida quando me falam de resgatar passados, salvar culturas moribundas ou simplesmente congelar pedaços de pedras ou de “imateriais” em fotos, vídeos, livros, CDs, DVDs, sites, redes, cartões, universos paralelos de metadados enlouquecidos esperando o grande deus “arquivo” que a todos vai salvar.
Um dia um nipo-americano resolveu decretar o fim da história em um livro pouco lido e pouco relevante mas muito citado por todos que queriam decretar o fim do comunismo no mundo. Sim, do comunismo isso que jamais existiu efetivamente mas sempre considerado o vilão do século XX.
Na verdade, o que faleceu definitivamente foi a nossa certeza de que teríamos um futuro grandioso, faustoso, desenvolvido, de progresso, com muita fartura e como diria meu ídolo Dorival Caymmi: uma redinha. Isso, deitar na rede e fazer nada o tempo que quisermos.
Estou aqui a ironizar, mas na verdade grande parte dos últimos tempos sonhou um futuro meio que pré-definido.
Agora não sonhamos mais. Outro grande ídolo já disse há tempos que o sonho acabou.
Mas o rapaz Fukuyama dizia que o capitalismo e a democracia burguesa eram o coroamento da história da humanidade……
Assim todos ficaram mesmo foi desorientados e perderam literalmente o trem da história. Perderam porque todos achavam que o trem andava só para frente e na verdade os trens andam por onde existem trilhos.
Pausa para o cafezinho. Um colega do Colégio Estadual,que não vejo há mais ou menos 35 anos, postou no facebook Joe Cocker no Woodstock cantando With a Little Help…
Todo o cuidado do mundo é necessário quando isso acontece nos tempos atuais. Porque como minha amiga Daniela falou, é capaz de alguém vir correndo querer tombar imaterialmente a múica, ou criar um museu virtual à distância para preservar Woodstock. É bem provável que já exista, ainda bem que nunca vi.
Minha filha Eduarda, a Duda, não tem tempo. Pra ela tudo é agora e é dela. Ela vive o presente absoluto das suas vontades. Ela acabou de aparecer aqui com a guitarra do irmão. Adorou a música, está pulando mais que o Cocker. Minha nostalgia se encerrou na hora e comecei a tocar com ela. Pedro veio correndo e... nada como dois filhos que adoram rock...
Voltando ao fim da história e ao surto de passado que nos assola, ontem fui ver uma exposição da minha sobrinha lá na Casa do Conde. Sentei num banco do lado de fora dos galpões e fiquei olhando para aquele espaço todo, o casarão, os galpões e as reformas que andam acontecendo por lá.
Nasci ali na frente, bem atrás da casa do tal conde. Quando era criança, eu e minhas irmãs descíamos a rua e vínhamos brincar na linha do trem e invadir aqueles espaços que agora são do IPHAN, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Engraçado isso... eu e minha irmã nos lembrando da infância mas sem nostalgia porque ao mesmo tempo Pedro corria por todos os cantos do lugar sem dar sossego para nada nem ninguém. O pobre do segurança da exposição só sabia ficar desesperado a cada vez que a corrida louca entrava galpão adentro. Parecia que tudo acontecia ao mesmo tempo, que eu e minha irmã corríamos ali juntas com o Pedro.
De repente ele parou e viu a locomotiva do outro lado bem em frente ao casarão. Ficou completamente siderado e berrou: eu quero, eu quero. Fomos até lá em meio ao poeirão das reformas dos pisos de terra e cimento.
Chegamos à locomotiva e ele quis subir e de lá de cima me pediu: manda ela andar mamãe!
Eu expliquei a ele que não tinha jeito, que a locomotiva estava lá pra lembrar um tempo que ela funcionava mas que agora ela não tinha mais trilhos nem energia para andar. Ele olhou pra mim e disse: ah! ela só anda pra frente, né mamãe? É velha!
Pedro, meu filho, sem querer deu a melhor resposta de todas ao tal do Fukuyama. Moço bobo esse que acha que o fim da história é porque acabaram os trilhos e chegamos ao mundo insosso e bobo do capitalismo simbólico que congela uma locomotiva em cima de um pedaço de trilho e mais nada. E faz isso em nome de preservar um passado que pretensamente queremos a todo custo preservar. Ele não achou a menor graça na tal da locomotiva e preferiu voltar pro banco pra ouvir as histórias que eu e minha irmã contamos de como era quando a locomotiva puxava o trem e andava pra todos os lados e não nos deixava dormir por causa do barulho e um dia matou uma família inteira logo ali na frente.
Um bom filósofo, do qual também sou fã, disse uma certa vez: “A ideia de um progresso da humanidade na história é inseparável da ideia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da ideia do progresso tem como pressuposto a crítica da ideia dessa marcha.” Walter Benjamin.
Eu sempre fui historiadora. Sempre amei a história já disse mais ou menos isso por aqui em outra coluna. Mas sempre tive muito problema com essa mania dos tempos atuais de tudo querer preservar, de tudo querer resgatar, de tudo querer museus. Chegamos ao apavoramento total quando no Rio, sempre no Rio, propuseram o tal do Museu do Amanhã.
Além de termos transformado o mundo em um monte de cadáveres fossilizados sem mais nenhum significado senão o de “preservado” agora queremos também matar o futuro. Queremos congelar o futuro no passado que pretendemos saber como foi para assim definirmos como seremos.
Temos nas mãos a chance de eternamente mudar tudo e também de entender muitas das permanências que a vida produz mas ao invés disto queremos fazer tudo continuar a andar pra frente para podermos sem medo congelar os trilhos com a locomotiva.
Do mesmo Benjamin uma outra frase: “A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’.”
Benjamin deve ser o autor mais citado por projetos de patrimônio e tombamentos, ainda mais agora nos tempos de tudo tombar imaterialmente. Como enlouquecemos sem solução: agora tombamos e preservamos aprisionando o que é imaterial em “materiais”… É muito citado e, como podemos ver, nada compreendido. Ele jamais seria cúmplice de tal surto de medo que acomete a todos nós.
Há pouco tempo foi lançado um edital, porque neste país vivemos de editais, para museus na favela. A desculpa é que a favela também tem o que preservar e que não podemos ter museus só nas áreas mais elitizadas das cidades. Interessante duas coisas: primeiro, a eterna política de manter os pobres em seus lugares e segundo é a ideia de que devemos preservar a memória da pobreza.
Muitos vão me criticar, dizer que eu não entendo, dizer que sou contra os pobres terem memória. Respondo dizendo que museu não tem nada a ver com memória e museu no qual tenho que preservar a história da desigualdade, das políticas urbanas segregacionistas e da eterna especulação imobiliária do capitalismo que, segundo Fukuyama venceu, não deveria estar nas favelas, deveria estar justamente nas áreas mais elitizadas da cidade. Deveria ser O Museu da Cidade.
E assim vamos vivendo neste mundo atual com tanto passado a nos rodear. Difícil mesmo é criar filhos que, já pequenos, têm que ter tanta coisa para lembrar. Outro dia foi muito engraçado porque meus filhos não acessam algumas das coisas mais comuns de uma família biológica. Meu Pedro se lembra de sua família e se lembra do abrigo, minha Duda não. Então para o Pedro é uma gigantesca confusão de passados que são dele misturados com os nossos. Pedro chegou pra mim e disse: minha tia vovó Alba.
Foi algo bastante difícil explicar para ele que a vovó é minha mãe e que a tia dele é minha irmã. Ele me olhou profundamente desconfiado de que eu queria deixá-lo louco. Assim como no dia que perguntaram a ele se sabia porque chamava Pedro. Ele me olhou e perguntou: porque eu chamo Pedro?
Pedro não é o nome dele, Pedro é o nome escolhido para ele por nós. Ele sabe disto e ele se lembra do nome dele inicial que passou a ser o segundo nome. Mas, voltando ao assunto, eu respondi: Pedro era o nome do seu bisavô, o avô da mamãe Lena. Ele olhou de novo e falou que era muito avô e que ele não se lembrava de nenhum avô.
Entendi na hora que ele tinha feito a correlação com sua família biológica e lá não encontrou nenhum tipo de nada chamado avô.
Aí ele me perguntou: como ele era?
Eu respondi: não sei, ele morreu antes que eu nascesse.
Neste momento ele desistiu e foi brincar.
São muitos tempos nessa história toda. Um menino que tem a memória de tudo que lhe aconteceu e ainda se referencia misturando duas famílias. Eu e a história da minha família em torno de um avô que nenhum neto ou neta conheceu. Tudo isso funciona enredado e ao mesmo tempo. Mas são as crianças quem nos chamam a um lugar outro que não o dos tempos atuais de tanta necessidade de passado. Eu respondi à minha amiga Daniela que o passado, o presente e o futuro são nossos filhos... e a Duda abriu a porta do corredor agora… ela não gosta de dormir cedo e ainda são nove horas da noite. Ela quer água e quer brincar, quer ficar na sala e quer ver televisão, quer seu ursinho e quer acordar o irmão… Pedro acordou e, pela milésima vez, perguntou: hoje já é amanhã, o dia do meu aniversário? E dormiu de novo. Assim é o tempo.
Meus filhos são um presente puro, um presente alargado, pleno de tempos. Eles são efetivamente o que deveríamos entender por História: uma mistura enlouquecida de tempos, tudo ao mesmo tempo agora.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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