Regina Helena Alves Silva
Algumas cenas de umas pequenas férias
Pensei em não escrever nesta semana, já que consegui tirar quatro dias de férias com nossas crianças. Viemos para um destes chamados hotel fazenda, bem simples e perto de BH. Nada daquelas coisas gigantescas, com dezenas de famílias enlouquecidas e crianças e mais crianças gritando em torno de monitores apalermados com as oficinas de sempre.
Um lugar bem rural, com uma piscina de água corrente gelada, charrete, cavalos, no site dizia que tinha um lago pra pescar, mas o dito se "encontra em manutenção". Enfim, estamos de férias no interior não muito profundo das Minas Gerais, com sua precariedade de sempre. Mesmo os lugares mais caros são meia-boca.
Fiquei pensando, então, de escrever um pouco sobre a experiência de ficar em um lugar deste com nossos filhos. O lugar, a 55 quilômetros de BH, não tem sinal de nenhuma das nossas "fantásticas" empresas de telefonia móvel. Nada de Oi, Tim, Vivo ou Claro. Num primeiro momento, a gente fica preocupada... e se precisar? E se acontecer alguma coisa, e se...
Quando a gente tem crianças, fica logo assim pensando que precisa de tudo a mão pro caso de acontecer algo... Mas, em um segundo momento, uma mãe velha como eu pensa logo: e vai acontecer o quê? E se acontecer, a gente está a 3 quilômetros da cidade mais próxima...
Depois, fiquei lembrando de quando meus pais colocavam três meninas pequenas em uma Vemaguete e, durante dois dias, rumavam para uma praia no Espírito Santo, chamada Perocão. Não tinha água encanada, nem luz.. Nenhuma de nós morreu disso. Mas, aos vinte e poucos anos de idade, eu jurei nunca mais voltar ao Espirito Santo e nunca mais voltei, e vou morrer cumprindo o juramento.
Voltando às minhas pequenas férias, que se encerram hoje, aqui neste lugar, não tem sinal de celular mas tem... internet!!!!!
Estou aqui, sentada na beira da tal piscina que ninguém tem coragem de entrar, observando meus pequenos que brincam em uma casinha de madeira, construída sobre troncos. Eles estão se divertindo... muito mato, água, areia, terra e passeio de charrete.
Os adultos ficam aqui no lugar onde estou, plugados o tempo todo. Engraçado essa coisa de ter internet no meio do mato... as pessoas passam férias no Facebook. Falando nisso, vou dar uma pausa pra entrar no meu. O mundo pode ter acabado lá fora e eu não vi o post que anunciou...
Não consegui ainda ver meu Facebook. Duda veio correndo, querendo colo e depois água e depois suco e depois toddynho. Fomos até a cozinha da pousada. Já são quase 11 horas e a mesa de café na varanda continua com pratos, talheres, xícaras e copos sujos, como foi deixado pelos hóspedes há pelo menos uma hora. Ninguém se moveu pra limpar... Já passo e pego um bocado de louça pra deixar na pia. Lá dentro, tudo do mesmo jeito. O queijo e o pão de queijo em cima da mesa grande. Os pães e o bolo perto do fogão a lenha, o suco e o café no aparador. Enfim, tudo como se o café da manha durasse até o meio-dia, mas ele se encerrou as 10h.
Duda toma água, Pedro quer água e fazer xixi e eu olho pro lado e vejo todos os três funcionários da pousada sentados no canto da mesa, cada um com um notebook, plugados na internet. Chego perto e eles estão no Facebook. Perguntei o que estão olhando no Facebook? O mais jovem respondeu: as coisa...
Na noite anterior, quando chegamos no mesmo espaço da pousada pro jantar (o tal caldo de sempre, das pousadas com pensão completa), a cozinha e a varanda pareciam um lugar fantasma. Não tinha ninguém. Só um caldo de feijão fumegando em cima do fogão de lenha e os pratos e talheres no aparador. Tomamos e caldo e nada. Resolvi ir lá dentro da casa e, no ultimo cômodo, encontrei dois dos funcionários da pousada com seus notebooks, assistindo algum tipo de vídeo. Eu perguntei se estavam assistindo a novela ou algum filme. Eles responderam com um resmungo: YouTube.
A pousada é tocada por dois casais e os respectivos filhos. Do dono, só temos notícias pelo site ou por email. Os dois casais são do interior de Minas (bem do interior) e não conhecem "cidade grande", só o filho do primeiro casamento de uma das mães já morou em BH. Eles têm enormes dificuldades para "tocar" a pousada, mas "manobram" as redes sociais como ninguém. Sabem tudo da "internet", embora a escrita e leitura sejam precárias.
Voltei pra beira da piscina e os meninos pra casa de madeira. Silvia chega daí a pouco, dizendo que veio da cozinha e lá tem quatro pessoas em torno de seus notebooks e um silêncio sepulcral.
Ontem, foi engraçado porque ficamos um tempo só a gente na pousada. Os hóspedes foram embora cedo e ficamos só com os meninos brincando. Lá pro meio da tarde chegaram um casal e seus dois filhos. Simpáticos, conversados, logo ficaram na beira da piscina com a gente e o pai pulou na piscina de onde saiu completamente congelado. Ficou jogando bola com os filhos dele e os nossos e todos conversando. Uma hora, abri meu iPad pra dizer a uma jornalista que eu não teria condições de responder uma entrevista que ela me solicitava devido a complexidade das perguntas, a precariedade da condições que tenho para ter acesso a dados que são necessários e a imensa preguiça condizente com estar de férias.
A mãe me olhou e perguntou: "Aqui tem internet?" Tentei no quarto e não consegui... Eu expliquei que só tem na varanda da cozinha e na beira da piscina. Desde então, essa mulher está com um celular na mão, sentada ali perto da quadra, sem emitir um som e sem nem dar conta dos filhos, que estão pra lá e pra cá. Pensei que ela ia dormir pegada no Facebook dela. O marido agora anda com o filho e o meu Pedro no cavalo pela pousada e ela totalmente ligada no Facebook.
Vocês devem estar pensando que eu sou meio louca falando assim dos outros, afinal estou aqui no meu iPad mas... ainda não entrei na internet, estou apenas escrevendo estas pequenas bobagens.
Me lembrei agora que anteontem liguei a televisão aqui à noite, pra achar algum desenho animado pros meninos verem à noite porque estava muito frio do lado de fora. Só pega alguns poucos canais e não tinha nada do que eles gostam . Acabei colocando no Jornal Nacional e vi as cenas do Rio de Janeiro com algumas lojas de Ipanema e lixeiras pegando fogo, o pessoal na frente da casa do governador. Os caras do Jornal Nacional berrando sobre os "vândalos" e depois mostrando uma coletiva de autoridades "consternadas" com as "cenas de vandalismos" que atingiram a zona sul carioca. Olhei ora aquelas cenas como se fossem coisas de outro mundo. Aqui, a vida parece estar em suspensão.
Ontem entrei no Facebook e vi centenas de comentários sobre isso. Morri de rir com o pessoal "preocupado" com a depressão do governador Sérgio Cabral por causa dos acontecimentos no Rio. Engraçado esses políticos atuais, ficam deprimidos quando a gente resolve dizer a eles que são ruins. Quando resolvemos infernizá-los como eles nos infernizam. Nossos atuais governantes acham que podem fazer opção por essa coisa de Copa do Mundo, por BRTs ultrapassados, por arrebentar nossas cidades e passar impunes por tudo isso. Eles acham que podem nos condenar a horas de engarrafamento depois do trabalho, a tumultos de construções enlouquecidas nos nossos bairros e à destruição de nossos espaços de lazer em nome de turistas e nada vai acontecer com eles. Aí, quando o povo se revolta eles ficam deprimidos?
Depois disto li no Facebook uma postagem de uma ex-funcionária de uma das lojas incendiadas pelos "vândalos", dizendo de como se sentiu quando viu as chamas tomando conta da loja. Lá ela relata a situação, que sabemos ser da grande maioria do comércio neste país, de intensa exploração dos trabalhadores dessa loja. Fiquei pensando que ninguém da chilique quando essas coisas estão acontecendo mas todos se dizem "horrorizados" com as chamas. Mundo esquisito esse lá fora...
Agora estou aqui, ainda na beira da piscina, conversando com o pai dos meninos que pulam nas cascatinhas perto da piscina. Ele vai dizendo que mora também no mato, que se quisermos ver a casa deles "tá tudo no Facebook".
Fui lá na cozinha pegar uma cerveja e encontrei o pessoal discutindo quem ia iniciar o almoço, porque os outros querem ficar nos computadores...
Vou tomar minha cervejinha... entrar na piscina gelada com meus pequenos e, se der tempo, vou dar uma olhada no meu Facebook... quem sabe o mundo melhorou e eu ainda não vi esse post!!!

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
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